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O legado da semana de 22

fevereiro 23, 2011

Antropofagia – Tarcila do Amaral

Nas três últimas semanas, reservamos esse espaço de quarta para falar da Semana de Arte Moderna de 1922, que aconteceu em São Paulo. Os posts Semana da arte moderna de 22, Manifesto Antropófago e este de hoje completam a singela homenagem à nossa história de contestação, de quebra de paradigmas.

O post de hoje está dividido em 2 partes. A primeira é uma cronologia que começa com acontecimentos que antecederam os dias de evento da semana de 22 e um resumo dos 3 dias de evento. A fonte é o banco de dados do jornal Folha de São Paulo.

Na segunda parte há algumas edições da revista Klaxon, meio de comunicação da nova escola artística que nasceu nesse evento.

Alguns Fatos Importantes que Antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922

1911 — Oswald de Andrade funda o periódico “O Pirralho”

1912 — Oswald chega ao Brasil trazendo da Europa o conhecimento de novas formas de expressão artística, como as de Paul Fort e as sugeridas pelo “Manifesto Futurista” do poeta italiano Marinetti. Surgem as primeiras colagens de Braque e Picasso, possíveis origens do cubismo

1913 — Exposição do pintor Lasar Segall em Campinas (São Paulo)

1914 — O francês Marcel Duchamp lança os ready-mades

1915 — O poeta Ronald de Carvalho participa no Rio da fundação da revista “Orfeu”, dirigida em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro

1917 — Exposição de Anita Malfatti. O escritor Monteiro Lobato escreve o artigo “Paranóia ou Mistificação?”, onde critica vigorosamente as inovações na pintura de Anita e se envolve em uma polêmica com os principais artistas do movimento modernista

1918 — É lançado o “Manifesto Dadá”

1919 — Surgimento do Fascismo na Itália e adesão de Marinetti

1920 — Oswald de Andrade e Menotti del Picchia fundam a revista “Papel e Tinta”. Graça Aranha publica “Estética da Vida”. Victor Brecheret expõe as maquetes do monumento às Bandeiras (SP). Exposição de Anita Malfatti e John Graz.

1921 — Oswald de Andrade publica “Meu Poeta Futurista” e Mário de Andrade responde com “Futurista?!”. Mário publica o artigo “Mestres do Passado”

Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Plínio salgado, Anita Malfatti, Menotti Del picchia, Guilherme de Almeida, Sergio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Tácito de Almeida, Entre outros.

A SEMANA

13.fev.1922 — A Semana de Arte Moderna é inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo com palestra do escritor Graça Aranha, ilustrada por comentários musicais e poemas de Guilherme de Almeida. O primeiro dia corre sem tropeços. Depois da longa e erudita fala de Aranha, um conjunto de câmara ocupa o palco para executar obras de Villa-Lobos. Após o intervalo, Ronald de Carvalho discursa sobre pintura e escultura modernas. A platéia começa a se manifestar. Diante dos zurros do público, Ronald de Carvalho devolve: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.” O gran finale surge na forma de um recital de música comandado pelo maestro Ernani Braga

15.fev.1922 — A noite que celebrizou a semana começa com um discurso de Menotti del Picchia sobre romancistas contemporâneos, acompanhado por leitura de poesias e números de dança. É aplaudido. Mas, quando é anunciado Oswald de Andrade, começam as vaias e insultos na platéia, que só param quando sobe ao palco a aclamada pianista Guiomar Novaes. Heitor Villa-Lobos se apresenta no palco do Municipal apoiado em um guarda-chuva e calçando chinelos

17.fev.1922 — A última noite da programação é totalmente dedicada à música de Villa-Lobos. As vaias continuam até que a maioria pede silêncio para ouvir Villa-Lobos. Os instrumentistas tentam executar as peças incluídas no programa apesar do barulho feito pelos espectadores e levam o recital até o fim

Logo após os bulhentos espetáculos do Teatro Municipal, é lançada a revista “Klaxon”, que divulga as produções da nova escola. Calcados no êxito conseguido com as agitadas noites de fevereiro, os jovens artistas conseguem espaço e estímulo para, ainda em 1922, dar continuidade ao seu trabalho. Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, o livro de poesias no qual todos os procedimentos poéticos mais arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez. Oswald de Andrade lança “Os Condenados”.

Exemplares 01,02,04,05 e 08 da revista Klaxon. fonte: Brasilianas.org

Klaxon 001

Klaxon 002

Klaxon 004

Klaxon 005

Klaxon 008

Espero que vocês apreciem.

Sds,

DC

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Manifesto Antropófago

fevereiro 16, 2011

Como dito no post da semana passada, nesse mês de fevereiro iremos usar o espaço das quartas para falar de um fato histórico singular: a semana de arte moderna de 1922. O movimento de quebra com os paradigmas exteriores ao Brasil e a busca de uma identidade nacional fazem parte da essência desse movimento.

Em cima disso, trago para vocês o manifesto antropófago, de Oswald de Andrade, publicado em maio de 1928 na Revista de Antropofagia. Como um dos protagonistas dessa semana, Oswald publica 6 anos depois esse manifesto e impulsiona o movimento de destruição e construção de uma outra identidade nacional. Segue o manifesto:

Manifesto Antropófago

Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupy, or not tupy that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atrapalhava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido.

O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida.

E a mentalidade prelógica para o Sr. Levi Bruhl estudar.

Queremos a revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade do ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Oú Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Kosmos ao axioma Kosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de Senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti Imara Notiá Notiá Imara Ipejú.

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o.

Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem, que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu:-É a mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios, e o tédio especulativo.

De William James a Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a pro-curiosa (sic).

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas o caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura-ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor quotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência.

Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia

aglomerada nos pecados do catecismo-a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema-o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI:-Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud-a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

Oswald de Andrade

Em Piratininga

Ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha.

Revista de Antropofagia (São Paulo), n.1, ano 1, maio de 1928

Semana da arte moderna de 22

fevereiro 9, 2011

No mês de fevereiro de 1922 aconteceu a Semana de Arte Moderna. Evento que simbolizou uma quebra de paradigmas na forma de pensar a cultura no Brasil da época. Ela representou uma verdadeira renovação de linguagem e na arte.

Inspirado nesse espírito de contextação aos paradigmas vigentes, veremos nos posts de quarta deste mês mais sobre essa semana que foi um ponto singular na história do Brasil.

A obra de arte de hoje não podia ser outra senão Abaporu, de Tarsila do Amaral.

Em um momento onde queria-se quebrar com os padrões europeus e criar algo genuinamente brasileiro, Tarsila do Amaral pintou o Abaporu, nome tupi-guarani que significa “Homem que come” representando o processo antropofágico de deglutir os padrões até então vigentes e recriar uma forma brasileira de arte.

O quadro não segue as proporções normais (quebra com os padrões), onde o corpo tem uma relevância muito maior do que a cabeça, dando destaque ao trabalho braçal – que era predominante no Brasil.

A presença do sol e do cacto valoriza elementos simbólicos do Brasil – semi-árido.

Seria um bom momento para repensar sobre os paradigmas que reproduzimos.

Sds,

DC