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A pobreza da Democracia brasileira

setembro 12, 2010

Os leitores frequentes deste Blog sabem do interesse que esse humilde blogueiro tem nos textos do Leonardo Boff. Encontrei um interessantíssimo sobre nossa democracia. Estamos a beira de novas eleições e como já mencionei em posts anteriores, seria muito bem vindo refletir sobre a democracia que queremos.

A pobreza da democracia brasileira

Leonardo Boff 
Tempos de campanha eleitoral oferecem ocasião para fazermos reflexões críticas sobre o tipo de democracia que predomina entre nós. É prova de democracia o fato de que mais de cem milhões tenham que ir às urnas para escolher seus candidatos. Mas isso ainda não diz nada acerca da qualidade de nossa democracia. Ela é de uma pobreza espantosa ou, numa linguagem mais suave, é uma “democracia de baixa intensidade” na expressão do sociólogo português Boaventura de Souza Santos. Por que é pobre? Valho-lhe das palavras de uma cabeça brilhante que, por sua vasta obra, mereceria ser mais ouvida, Pedro Demo, de Brasília. Em sua Introdução à sociologia (2002) diz enfaticamente:”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniquados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333).

Essa descrição não é caricata, salvo as poucas exceções. É o que se constata dia a dia e pode ser visto pela TV e lido nos jornais: escândalos da depredação do bem público com cifras que sobem aos milhões e milhões. A impunidade grassa porque crime é coisa de pobre; o assalto criminoso aos recursos públicos é esperteza e “privilégio” de quem chegou lá, à fonte do poder. Entende-se porque, em contexto capitalista como o nosso, a democracia primeiro atende os que estão na opulência ou têm capacidade de pressão e somente depois pensa na população atendida com políticas pobres. Os corruptos acabaram por corromper também muitos do povo. Bem observou Capistrano de Abreu em carta de l924:”Nenhum método de governo pode servir, tratando-se de povo tão visceralmente corrupto com o nosso”.

Na nossa democracia, o povo não se sente representado nos eleitos; depois de uns meses nem mais sabe em quem votou. Por isso não está habituado a acompanhá-lo e a fazer-lhe cobranças. Ao lado da pobreza material é condenado à pobreza política, mantida pelas elites. Pobreza política é o pobre não saber as razões de sua pobreza, é acreditar que os problemas dos pobres podem ser resolvidos sem os pobres, só pelo assistencialismo estatal ou pelo clientelismo populista. Com isso, se aborta o potencial mobilizador do povo organizado que pode exigir mudanças, temidas pela classe política, e reclamar políticas públicas que atendam a suas demandas e direitos.

Mas sejamos justos. Depois das ditaduras militares, surgiram em toda América Latina democracias de cunho social e popular que vieram de baixo e por isso fazem políticas para os de baixo, elevando seu nível. A macroeconomia capitalista segue mas tem que negociar. A rede de movimentos sociais, especialmente o MST, colocam o Estado sob pressão e sob controle, dando sinais de que a democracia pode melhorar.

Vejo dois pontos básicos a serem conquistados: primeiro, a proposta de Boaventura de Souza Santos que é de forjar uma “democracia sem fim”, em todos os campos, especialmente na economia, pois aqui se instalou a ditadura dos patrões. Ela é mais que delegatícia, é um movimento aberto de participação, a mais ampla possível.

O segundo, é uma idéia que defendo há anos: a democracia não pode ser antropocêntrica, só pensando nos humanos como se vivêssemos nas nuvens e sozinhos, sem nos darmos conta de que comemos, bebemos, respiramos e estamos mergulhados na natureza da qual dependemos. Então, importa articular os dois contratos, o social com o natural; incluir a natureza, as águas as florestas, os solos, os animais como novos cidadãos que têm direitos de existir conosco, especialmente os direitos da Mãe Terra. Trata-se então de uma democracia sócio-cósmica, na qual os seres humanos convivem com os demais seres, incluindo-os e não lhes fazendo mal. O PT do Acre nos mostrou que isso é possível ao articular cidadania com florestania, quer dizer, a floresta respeitada e incluída no bem viver dos povos da floresta.

Utopia? Sim, no seu melhor sentido, mostrando o rumo para onde devemos caminhar daqui para frente, dadas as mudanças ocorridas no planeta e no encontro inevitável dos povos.

Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

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Na última Meia Hora, no ônibus Expresso, li um jornal feito para O Povo. Não gostei de nada.

março 26, 2010

Sei que, no meio dessa vida corrida, a pergunta a seguir é meio irreal, mas este espaço aqui é para isso. você já parou durante 10 minutos em frente de uma banca de jornal para ler as manchetes de jornais e revistas? Não estou falando de passar os olhos, leitura diagonal. Refiro-me a um olhar mais demorado, com mais atenção.

É um exercício bastante curioso. A infinidade de manchetes, assuntos e informações te deixa atônito. Dicas de emagrecimento, como ser o melhor na cama, como vender mais que um vendedor pitbull raivoso. Algumas revistas interessantes, outras nem tanto.

Este é a principal característica da sociedade do futuro. A infinidade de informações. Os meios de produção não mais definirão quem é o patrão ou o empregado. Saber a informação certa, na hora certa será o fator crítico de sucesso. Criar filtros para que as informações relevantes cheguem a você é uma das maiores competências para os novos paradigmas sociais. Por que isso não é aprendido na escola hein?

Indico um texto do luciano pires  (já citado no post Utilidade Pública) que trata exatamente disso:

http://www.lucianopires.com.br/dlog/show_dlog.asp?id=156&num=116″

Nas bancas de jornal podemos ter uma boa idéia de que assuntos são mais procurados. Obviamente cada banca se especialiaza de acordo com a clientela que a frequenta. Mas na maioria delas o trinômio sexo, violência e beleza são campeões disparados. Que tristeza.

Você já viu esses folhetins (me recuso a chamar aquilo de jornal) que estampam na capa notícias tais como “Policia Civil deita 5 na favela A” ou “Égua loira é acusada de matar marido”. Reportam apenas violência e pornografia. Admiro-me um jornalista se submeter a esse tipo de trabalho. O pior é que a mesma empresa que faz um jornal de qualidade, faz esse folhetim de péssimo gosto. A base de notícias é a mesma!

Então a pergunta que surge é essa: Por quê colocar notícias sobre o bandido que já está morto, ao invés de falar sobre uma descoberta científica ou uma exposição cultural nova?

Nesse assunto a curva Oferta X Demanda pode explicar isso. A receita de um jornal é baseada principalmente em anúncios. Pois bem, quanto maior a tiragem do jornal, mais caro fica anunciar. Então o esforço maior é atingir a maior parte dos leitores. Se a demanda dos leitores é por assuntos desse nível, vamos colocá-lo! Não importa se a qualidade da informação é baixa.

Há mais algumas considerações a fazer aqui, mas deixo para os leitores. Só uma pista: Não é interesse passar o conhecimento para a população. É melhor deixá-la ignorante.

Temos que parar de comprar os jornais com essas notícias baixas! Não vai custar nada para a editora colocar notícias do caderno cultural ao invés de notícias de boca de cadeia.

Faça algo pelo mundo hoje: Não compre jornais apelativos.