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Entrevista

março 20, 2011

Pesquisando sobre o tema pensamento complexo, encontrei uma entrevista feita por Renan Albuquerque da FAPEAM (Fundação de amparo à pesquisa do Amazonas) com Edgar de Assis Carvalho. Achei interessante trazê-la para o Blog. Mas primeiro uma breve descrição do entrevistado:

O antropólogo Edgard de Assis Carvalho, coordenador da cátedra itinerante UNESCO Edgar Morin, professor aposentado da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) e docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), é um dos precursores da Teoria da Complexidade no Brasil. Os estudos nessa linha tiveram forte recepção na França, com Edgar Morin, na metade do século passado, e alcançaram importantes reverberações no Brasil e em diversos países desde as décadas de 1970 e 1980, sobretudo a partir de seus escritos, palestras e cursos. Doutor em Ciências Sociais, o antropólogo cursou pós-doutorado pela Escola de Altos Estudos de Paris, onde fez contato e estudou com importantes pensadores, como Althusser e Morin.

Agência Fapeam: O senhor poderia falar um pouco sobre seu trabalho no âmbito da análise de sistemas complexos.

Edgard de Assis Carvalho: A resposta é complexa também. Ultimamente venho dedicando-me a uma antropologia do conhecimento, ou seja, trabalhando com autores, filósofos, antropólogos, linguistas e psicanalistas que optaram pela indivisibilidade. Meu trabalho se aproxima mais de uma atividade epistemológica, no sentido de colocar as coisas em seu devido lugar, submetendo a teoria a um crivo crítico e interpretativo, destituído de qualquer pertinência disciplinar. A antropologia dos sistemas complexos é nessa linha. Faço, agora, uma releitura sistemática dos seis volumes de O Método (de Edgar Morin), no intuito de fazer uma reflexão da reflexão em cima das idéias de Edgar Morin, cuja bibliografia navega pela biologia, física, matemática e cibernética.

Agência Fapeam: Como se podem situar as possibilidades de auxílio dos sistemas complexos para a melhoria do ensino brasileiro?

Edgard de Assis Carvalho: Eu acho que a universidade brasileira está mal amparada, está tão dominada pela fragmentação que as idéias da complexidade só conseguem penetrar nas brechas, nos pequenos grupos, nas pequenas ações e dissipações que existem dentro da própria estrutura. É como se houvesse duas estruturas: uma formal, a da fragmentação, e outra, situada a partir de um conjunto de ramificações que possibilitam que as ideias do pensamento complexo frutifiquem. No Brasil os núcleos de estudos da complexidade proliferam nas fimbrias da fragmentação. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por exemplo, o Grupo de Estudos da Complexidade (Grecom) está situado no meio termo entre a educação e as ciências sociais. É um núcleo fora da organização fragmentária. Na PUC/SP, é a mesma coisa: o núcleo do qual sou coordenador, o de Estudos da Complexidade, é vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais e integra artistas, matemáticos, biólogos etc.. São pessoas que vão ao núcleo para discutir um tema, ver um filme, discutir uma obra de arte e com isso minar as estruturas da fragmentação, mostrando que é possível a indivisibilidade.

Agência Fapeam: De que forma a complexidade pode ser uma “possibilidade”?

Edgard de Assis Carvalho: Por exemplo, a partir de ações que estejam fora dos parâmetros da universidade. Mas, com isso, se tem de conviver com todos os problemas de se estar fora das estruturas formais, naturalmente, como viver de pagamento de mensalidade.

Agência Fapeam: Quais são os autores ou autoras mais importantes no campo da complexidade no Brasil?

Edgard de Assis Carvalho: Tem muita gente. Pode parecer cabotinismo dizer isso, mas algumas são pessoas que foram minhas orientandas e estiveram junto comigo nessa balada do ensino dos pensadores da complexidade. Elas hoje tem um papel importante. Cito alguns nomes, por exemplo, que são ainda um pouco desconhecidos, como Maria Conceição de Almeida, da UFRN, e Maria Aparecida Lopes Nogueira, de Recife. Em São Paulo, há vários pensadores. Só que citar nomes é sempre difícil. Posso dizer que essas são pessoas que começaram as pesquisas nas questões da complexidade em meados dos anos 1980 e hoje estão nas instituições lutando contra a fragmentação.

Agência Fapeam: Qual é a amplitude do trabalho dessas pessoas?

Edgard de Assis Carvalho: Os núcleos se disseminam pelo Brasil inteiro, talvez com maior foco no Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro. Há também pequenos agrupamentos que vão, aqui e ali, modulando esse saber, que é oriundo de vários pensadores, e não só de Edgar Morin.

Agência Fapeam: O senhor busca entender as relações entre ciência e humanidade, natureza e cultura, de forma diferenciada. Em que medida o avanço da interdisciplinaridade pode se dar a partir da conjunção desses campos do saber?

Edgard de Assis Carvalho: Vou te responder a partir de um dos grandes sonhos que Edgar Morin tem e que são meus também. Na medida em que se pode desfazer essa oposição maldita entre natureza e cultura, é possível refundar o humanismo e pensar que o homem, sem nenhum laço rousseauniano, está inserido dentro da physis, dessa natureza, e tem de cuidar muito bem dela. Eu gosto muito de um pensador, o Fritjof Capra. Capra, em seu último livro, advoga a questão da ecoalfabetização, que começa lá na criancinha, ainda em seu estágio inicial. Segundo ele, ecoalfabetizar não é só alfabetizar, é construir um pensamento voltado para a preservação dos ambientes de maneira totalitária e indivisível.

Agência Fapeam: Como isso pode ser realizado?

Edgard de Assis Carvalho: Se nós conseguirmos que a indivisibilidade seja assumida por todos, não só a universidade seria diferente. O Estado seria diferente, as políticas seriam diferentes, a ética seria diferente. Separar significa dividir, diferenciar, e a divisibilidade sempre foi inimiga do progresso do conhecimento. Toda vez que se dividiu algo, o progresso do conhecimento esteve abalado por crenças demasiadamente parcelares. Um dos objetivos do pensamento complexo é tentar entrelaçar os saberes. Aliás, essa é a etimologia da palavra. Se você pega a etimologia da palavra complexidade, significa tecer em conjunto. E se é assim, não tem sentido mesmo continuar separando os seres da natureza, ou natureza e cultura. Entender os saberes a partir de sua totalidade, como realmente são.

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O pensamento complexo e suas consequências

março 13, 2011

Nesse espaço de domingo tento construir um espaço de formação, informação e diálogo com os leitores desse Blog sobre uma nova ótica de ver o mundo. O pensamento complexo. Ele pressupõe uma visão mais abrangente do que essa nossa linearidade de causa e efeito. Sem essa mudança de cultura, dessa nossa forma de ver, não poderemos pensar em um futuro.

É bastante difícil encontrar textos que ajudem a criar esse espaço, pois também sou um iniciante e amador nesse tema. Vou tateando, devagarinho… Mas o mais importante é que eu vou.

Encontrei um pequeno texto no site TextoBR. Ele fala sobre as implicações desse modo de pensar novo. Tentava buscar algo mais aplicável para colocar hoje no Blog, e acho que encontrei. Segue:

Quais são as implicações do pensamento o complexo?
Em primeiro lugar, há um abalo nessa ideia antropocêntrica de supremacia do homem. É preciso repensar essa supremacia porque ela em si vai criando uma ideia de superioridade que deve ser colocada entre parêntese. Essa questão não é adstrita ao pensamento de Morin. Lévi-Strauss já fala isso em 1962. Anos antes de Morin publicar o primeiro volume do Método, ele [Lévis-Strauss] dizia que é preciso dissolver o homem na natureza, e é preciso dissolver a natureza nas condições fisicoquímicas. Essa implicação é, para a sociedade, do ponto de vista da cultura e do ponto de vista da ética. Se nós pensamos por territórios separados, a ética tende a ser relativizada demais. Se nós pensarmos por meio de territórios religados, a ciência, a política, a ética e a democracia serão vistas de outro prisma.

Então, penso que o pensamento complexo tem implicações políticas bastante sérias; por isso, não muito aquilatadas, por isso, não muito explicitadas. Mas acho que há uma esperança que esse tipo de pensamento represente uma forma de democracia representativa que não é a que temos agora. Do ponto de vista da biopolítica, teremos um avanço. Agora, como todo avanço, exige que as pessoas pensem de outra maneira. Pensar de outra maneira é a questão. Se se pensa de outra maneira […] em primeiro lugar, refletindo um pouco sobre aquilo que você faz durante a sua atividade. Morin chama isso de autoética. A ética de si, que tem, talvez na definição do [Immanuel] Kant, na Crítica, a sua definição mais fundamental. Lá, na Crítica, Kant diz o seguinte… Pergunta-se para ele: o que é a ética? Diz ele: a ética pode ser resumida numa simples frase: não faça ao outro aquilo que você não quer que seja feito par si mesmo. Se essa ética fosse aplicada na cultura, na política e na universidade, nós teríamos uma cultura, uma política e uma universidade diferentes.

Acho que consegui achar algo a mais para essa discussão.

Se alguém tiver indicações de colunistas para esse tema, por favor mandem!!

Sds,

DC

O mundo está em mudança: precisamos do pensamento complexo

março 6, 2011

Encontrei esse artigo muito bem escrito por Noemi Sakitani, publicado na revista bsp (business school São Paulo) de novembro de 2010. Deixo-o para continuar nossa construção do pensamento complexo.

O mundo está em mudança: precisamos do pensamento complexo

Introdução

Atualmente, o mundo passa por muitas e rápidas mudanças, e o tempo em que elas acontecem é mais curto a cada dia. A globalização tem gerado novas perspectivas a ser analisadas antes de qualquer tomada de decisão. Tudo isso cria a necessidade de um novo modo de pensar que ajude a lidar com este novo mundo: o pensamento complexo. Falarei  sobre nossos modos de pensar e sobre as ferramentas que podem nos ensinar a fazer escolhas. Como foi dito antes, minha visão básica do pensamento complexo baseia-se nas ideias de dois pesquisadores, Morin e Mariotti.

As mudanças aqui estão e precisamos aprender a lidar com elas. Em minha opinião, a melhor maneira de fazer isso é incluir novos modos de pensamento em nosso cotidiano. É claro que não devemos descartar os modelos anteriores, mas sim complementar a nossa forma convencional de pensar por meio do pensamento complexo.

Por que precisamos de uma nova forma de pensar

Em seu livro O capitalismo global, Furtado (1999) escreve sobre as mudanças na economia global nos últimos 20 anos. Ele acredita que algumas transformações importantes estão acontecendo na estrutura econômica mundial, e estas vêm afetando o equilíbrio dos poderes, gerando concentração de riqueza e exclusão social em todos os países. Acredita também que muitos parâmetros econômicos de crescimento não estão bem esclarecidos. Todos esses fenômenos geram um crescimento econômico mal definido,  que por sua vez cria uma organização social confusa, na qual, porém, podem-se ver tanto ameaças quanto oportunidades. Em resumo, estamos entrando em uma era de incerteza.

Certamente precisamos de uma nova mentalidade para lidar com esse cenário: o pensamento complexo. Tenho certeza de que ainda surgirão muitas transformações, o que exigirá uma transição na forma como vemos os problemas e geramos soluções. Já sabemos que a aplicação de soluções antigas para problemas novos não têm funcionado. Em toda parte, é possível perceber um grau significativo de incapacidade para resolver problemas como crises econômicas, desastres ambientais e muitos outros. Assim, precisamos criar novas soluções para novos problemas e aprendera  resolver velhos problemas ainda em aberto. Esta é a proposta do pensamento complexo.

Drucker (1999) afirma que “a incerteza – na economia, na sociedade e na política – é enorme, o que torna quase inúteis os tipos de planejamento ainda utilizados pela maioria das empresas. Ele está entre os autores que falam sobre a necessidade de uma nova maneira de pensar. Descreve o que chama de “sociedade do conhecimento”, na qual pela primeira vez os empregados têm o capital que realmente precisam para produzir. Esse novo grupo dominante será o que Drucker chama de “trabalhadores do conhecimento”. Ele também reconhece que essa mudança é bem mais do que um fenômeno social: será uma transformação profunda na condição humana. A seu ver, os novos valores e obrigações, bem como os problemas da nova sociedade ainda são em grande parte desconhecidos. Tudo o que sabemos é que eles serão diferentes.

Embora as novas oportunidades também sejam enormes, pela primeira vez na história a liderança está aberta a todos e a possibilidade de adquirir conhecimento não é limitada por idade ou tempo – está disponível a qualquer hora e lugar. Drucker tem uma forma especial de ver o novo meio social na sociedade do conhecimento. Nele, a mobilidade será um fator-chave. No passado, as pessoas costumavam nascer e morrer no mesmo bairro; nos novos tempos, elas se deslocam para novos lugares e países, e esse comportamento inevitavelmente gerará novos problemas. Drucker afirma que “o principal problema de todos os cidadãos é como ter possibilidades de articular e organizar as informação. Na verdade, para isso precisamos de uma revisão da maneira como pensamos.

Em um de seus livros, Mariotti (2007) dá-nos uma descrição de duas das principais origens do nosso modelo de pensamento dominante: “Descartes sugeriu que o conhecimento pode ser melhorado por meio da fragmentação do objeto a ser estudado, seguido do exame das partes separadas. Newton afirmou que a função das ciências é sempre buscar leis universais que permitam uma relação simples e bem definida entre causa e efeito”.  Esse é o modelo de pensamento que ainda predomina em nossa cultura.

Com base na descrição da sociedade do conhecimento, Drucker acredita em algumas ações-chave de que precisamos para estar prontos para as mudanças que virão. Entre elas, destacam-se rever a educação e a qualidade do conhecimento. Para ele, o século 20 foi o século das mudanças sociais, e o 21 será o século da inovação social e política.

No documento “Manifesto para a metamorfose do mundo”, Morin et al (2009) escrevem sobre a atual crise econômica e suas extensões, e como ela afeta todas as esferas. Eles acreditam que esta, como outras crises, é o resultado do “emaranhado de muitos componentes, relacionamentos, e múltiplos tipos de feedback entre áreas diferentes como a econômica, a social, a demográfica, a política, a ideológica, a religiosa,a  ética,a do pensamento e os ecossistemas”. Esses autores  creem que o mundo precisa desesperadamente de orientações que  possam evitar um desastre. A seu ver podemos ter esperanças, com base em algumas pequenas mudanças mundiais, especialmente na América Latina e Europa, onde as preocupações sobre o lucro a qualquer custo têm mudado para o quanto esse lucro custará.

O texto de Morin e colaboradores também vê a atual crise como uma “sistêmica”, isto é, que produzirá efeitos em todo o globo. Mas a boa notícia é que ela despertará as pessoas para a extensão do problema e fará com que ao menos alguns de nós mudem a maneira de pensar sobre coisas e eventos. Morin et al propõem “sete reformas para encontrar um novo caminho”, ou seja, sugestões para alcançar um mundo sustentável.

Resultados rápidos e peças separadas

No livro Pedagogia Waldorf, de Lanz (2005), há um comentário sobre a crise educacional: “Os valores institucionalizados que as escolas adotam são predominantemente de natureza quantitativa. As escolas apresentam aos alunos um mundo onde tudo é mensurável, inclusive os seres humanos e suas fantasias. (..) A escola se propõe a dividir o conhecimento em blocos separados, e os apresenta como algo pré-fabricado e em escala internacional”.

Mariotti (2007c) observa que “a natureza unidimensional” da forma de pensar hoje predominante nada mais é do que uma apropriação da visão de mundo pela cultura ocidental  hegemônica. Trata-se, portanto,  de um dos fenômenos mais alienantes da atualidade. Especialmente no século passado, alguns educadores já estavam conscientes da importância das ligações entre todos os tipos de conhecimento. Também já sabiam que a orientação predominante do nas escolas era exatamente o oposto disso.

Em nossa cultura, sempre tentamos fragmentar os problemas e resolvê-los trabalhando suas partes separadas. Essa é a nossa maneira automática de pensar. Hoje em dia, porém, muitos vêm  percebendo que esse formato não funciona quando se trata de resolver problemas complexos. A razão para isso é simples: quando se faz uma alteração, por menor que seja, em uma parte de determinado processo, ela gera mudanças no conjunto – o que muitas vezes termina com resultados bem diferentes dos esperados. Outra questão importante é uma conseqüência da educação que recebemos: o timing dos resultados. Estamos convencidos de que ele deve ser muito rápido em todas as circunstâncias.  Concordo que quando se tem um problema ele deve ser resolvido o mais cedo possível – mas também é preciso ter certeza de que a solução será sustentável.

Em seu livro clássico, Morgan (2007) diz: “Somos educados para nos sentirmos confortáveis com o lugar que nos foi dado na organização, e somos encorajados a ver e compreender o mundo segundo um ponto de vista específico”.  Mais adiante, ele escreve sobre a simplificação do mundo: “Na vida cotidiana, como na ciência, tentamos entender o mundo simplificando-o. Ao fazer isso, temos a ilusão de que tudo pode ser controlado, e que somos mais poderosos do que realmente somos. ”

O conceito de pensamento complexo

Comecemos explicando a diferença entre sistemas complicados e sistemas complexos. “Sistemas complicados” é uma expressão relacionada às máquinas, em especial as que têm múltiplos componentes. É o universo mecânico, o domínio tecnológico e especializado criado pelo homem. Sistemas complexos são os que incluem seres vivos. Esse tipo de sistema sempre comporta um nível significativo de incerteza e erro. Todas organizações humanas, como as empresas e o mercado financeiro, são exemplos dessa espécie de sistema. É por isso que alguns autores dizem que os sistemas complexos estão sempre à beira do caos, o que significa que podem entrar em crise a qualquer momento.

Segundo Mariotti (2007b), um ponto muito importante para a compreensão da riqueza do pensamento complexo é que os erros, a incerteza e a ilusão sempre andam juntos com o conhecimento. Assim, o conhecimento não é uma cópia da realidade, mas uma “versão” que construímos por meio de nossas estruturas de percepção. O pensamento complexo leva em conta as incertezas, os erros e ilusões como parte dos nossos problemas cotidianos e, assim, ajuda-nos a lidar com eles. Ajuda-nos também a considerar sempre o curto, o médio e o longo prazo qualquer que seja a circunstância. E, o que é mais importante para a sustentabilidade das organizações, sempre leva em conta a responsabilidade social nos processo decisórios.

As análises orientadas pelo pensamento complexos  geram novas ideias, resolvem problemas difíceis, tornam mais eficazes a negociação e a gestão de conflitos, melhoram a comunicação não só entre os membros de uma equipe mas também entre as diferentes áreas nas organizações. Além disso, capacita as pessoas a pensar estrategicamente, a aceitar a possibilidade de riscos e erros durante os processos de inovação e a ver as mudanças como  algo positivo. O pensamento complexo nos proporciona ferramentas projetadas para lidar com problemas em geral ignorados pelas teorias convencionais de gestão.

Segundo Mariotti (2007), “não podemos mudar nossa forma de ver o mundo sem mudar de maneira de pensar. A ansiedade relacionada com a incerteza vem principalmente da percepção mecanicista e limitada de nossa mente condicionada. Estamos convencidos de que se negarmos a incerteza e o risco, estes serão certamente reduzidos ou afastados. É claro que essa crença não passa de uma fantasia. A negação é ainda pior, pois nos torna despreparados para lidar com o erro e a incerteza.  Vários autores já disseram que devemos rever nossa forma de pensar para melhorar a forma como vemos o mundo. E, em especial, avaliar como os modelos antigos podem nos levar a fazer escolhas que podem resultar em um preço que não conhecemos e que provavelmente não estamos dispostos a pagar.

Mudar de modo de pensar não é fácil nem rápido, mas há pessoas que já têm naturalmente propensão para o pensamento complexo.  No entanto, não são a maioria. Se pretendemos promover essa mudança, é necessário preparar essas pessoas para entender o novo modo de pensar — sobretudo mostrando os resultados que podemos conseguir com ele. Devemos estar conscientes das ligações entre pessoas, coisas e acontecimentos, e aprender que o pensamento não deve ser apenas binário / linear, mas também sistêmico. Essa combinação resulta no pensamento complexo.

Ao observar o desenvolvimento do pensamento complexo, é possível perceber três grupos de indivíduos.  Mariotti (2007) os descreve: o primeiro grupo entende intuitivamente do que se trata, e para essas pessoas o pensamento complexo, seus conceitos e ferramentas são facilmente compreensíveis. O segundo grupo, bem maior, é formado por pessoas que reagem positivamente e mostram  interesse quando ouvem falar do pensamento complexo e podem ser treinadas com bons resultados. Os componentes do terceiro grupo têm uma mentalidade fortemente cartesiana. Para eles o pensamento complexo é algo estranho,que quase sempre gera resistência ou rejeição. Contudo, esse terceiro grupo é muito importante, pois nos leva a repensar sempre nossos próprios conceitos e em como eles podem nos condicionar.

Em algum momento de nossas vidas, todos nós podemos ter de lidar com algum problema que vem crescendo por um longo tempo e em um determinado dia “explode”. E os “bombeiros” – pessoas que já vinham nos alertando sobre esse crescimento – em geral ajudam a resolvê-lo, mas nem sempre com bons resultados. Na verdade, a maior dificuldade  é que normalmente tentamos resolver um problema com a mesma mentalidade que o gerou – e, pior, usando as mesmas estratégias utilizadas para criá-lo.

##Assim, o que em geral acontece é que fornecemos a nós mesmos os meios para que o problema apareça novamente. Expliquemos. Quando analisamos de novo o mesmo problema ou mesma informação, repetimos a forma de análise. Podemos até fazer pequenos ajustes, mas não funcionarão. Na melhor das hipóteses, farão com que o processo se arraste. Se não usarmos um modo de pensar mais abrangente, não seremos bem sucedidos. Essa é uma das razões pelas quais devemos melhorar a nossa maneira de analisar problemas complexos: usando uma estratégia complexa para lidar com eles. Aprender com nossos erros é um ponto muito importante no pensamento complexo. Significa aprender com a experiência. É uma transformação mental e comportamental, que inclui o desenvolvimento de novas formas de observação e reflexão.

O que determina o grau de complexidade de um sistema não é o número de seus componentes, mas a quantidade das relações dinâmicas entre eles. Os sistemas complexos têm mais capacidade de se adaptar às transformações, e por isso lidam melhor com a diversidade e a incerteza. O objetivo do pensamento complexo é ligar coisas, pessoas, situações e contextos, a fim de gerar novas ideias a partir dessas interações. Para sermos capazes de reconhecer situações complexas  e lidar com paradoxos, é preciso entender que isso não pode ser feito por meio da lógica binária. Precisamos do pensamento complexo, que nos permite aceitar e compreender as constantes mudanças do mundo real, sem tentar negá-las ou esconder suas contradições e diversidades.

Mariotti (2007) apresenta alguns “operadores cognitivos” que podem nos ajudar a pensar de forma complexa. São ferramentas conceituais,  que ampliam as anteriormente desenvolvidas por Morin e serão descritas a seguir.

##Circularidade (feedback). Este deve ser considerado  o  operador principal, pois todos os demais são de alguma forma relacionados a ele. Segundo esse princípio,  as causa geram efeitos e os efeitos refluem sobre as causas e as modificam. No mundo real, não existem processos em que os efeitos não retroagem sobre as causas;  a circularidade está sempre presente.  Pode-se observar esse fenômeno nos processos cibernéticos. Ele tem sido chamado de feedback, e é auto-regulado, o que permitem que os sistemas se adaptem ao ambiente e este aos sistemas. Assim, os sistemas vivos se modificam para adaptar-se, o que gerou a expressão “sistemas complexos adaptativos”. O objetivo desse processo é manter o equilíbrio dinâmico,  seja nas estruturas  vivas, nas relações interpessoais, enfim, em qualquer tipo de organização.

Existem dois tipos de feedback: positivo e negativo. O de tipo negativo faz com que os sistemas mudem e se adaptem. O feedback positivo mantém o status dos sistemas.  A sociedade é um exemplo: o indivíduo produz a sociedade que produz o indivíduo. O efeito reflete sobre a causa e as mudanças se dão por meio dessa circularidade.

Auto-organização. Todos os sistemas vivos são autônomos, isto é, auto-organizados. Para isso eles precisam de matéria e energia do ambiente, ou seja, dependem do ambiente para sua sobrevivência. Nós, seres humanos construímos nossas culturas. Mas ao mesmo tempo, somos formados por nossas culturas, o que significa que somos simultaneamente, os fabricantes e os produtos. Esse princípio é válido para todos os seres vivos e seus ambientes. Nesse processo, é possível perceber um paradoxo: os seres vivos são autônomos, ou seja, podem adaptar-se e viver em ambientes diferentes. Por outro lado, eles dependem desses ambientes (água, ar, alimentos) para sobreviver. Morin chama esse fenômeno de paradoxo autonomia / dependência. Um exemplo interessante de auto-organização é a Internet, se prestarmos atenção à forma como a web se regula com nenhuma central elogiar ou controle. Nós também podemos dizer que o mercado muda a organizações que mudar o mercado.

Um exemplo muito interessante de auto-organização é a Internet, que funciona e se auto-organiza sem necessidade de nenhum comando ou controle centralizado. O mesmo vale para os mercados , em especial os financeiros.

Dialógica. Dialógica implica conviver com paradoxos, ou seja, contradições que não podem ser resolvidas. São fenômenos  muito frequentes no mundo real. Morin sugere que não há necessidade de resolver todas as contradições. Em alguns casos, temos de aprender a viver com elas, porque tentar resolvê-las é um desperdício de tempo e energia. Para reconhecer e aprender a lidar com paradoxos, é necessário usar o pensamento dialógico, ou seja, aprender a conviver com opostos ao mesmo tempo antagônicos e complementares. Sempre que estivermos diante de um problema para o qual não é possível encontrar solução, mesmo depois muito esforço, fingir que ele não existe não vai ajudar em nada. Assim,  compreender o pensamento dialógico e incorporá-lo ao nosso às nossas táticas, estratégias e práticas é um sinal de bom senso.

Como todos sabemos, os grupos nas empresas ou em qualquer organização sempre comportam um certo nível de conflito, o que pode ser bom para produzir novas ideias e deslocar as pessoas da zona de conforto. Depois de um certo ponto, porém, os sistemas podem baixar de produção ou até parar de funcionar. Em caso de conflitos, uma boa idéia é diagnosticar o seu nível e certificar-se de que os grupos estão no lado produtivo. Caso contrário, algum tipo de intervenção pode ser necessária.

A dialógica é útil para lidar com variáveis e incertezas que não podemos elimina. Ela nos mostra como identificar as possibilidades e limitações de determinados processos. O princípio dialógico ocorre quando pomos lado a lado dois princípios que, supostamente, deveriam ser mutuamente excludentes.  Se é certo que algumas contradições não podem ser resolvidos,  nesses casos devemos encontrar maneiras de conviver com elas, porque na prática há oposto que não podem existir  isoladamente.

O princípio  holográfico. Segundo esse princípio, o todo está em cada uma das suas partes e cada parte está no todo. Como exemplo, podemos usar a metáfora da sociedade, onde cada indivíduo tem dentro de si  o todo, o que inclui o idioma, a cultura, as leis e as normatizações.  Ao mesmo tempo, a sociedade inclui todos os indivíduos. Morin divide o princípio holográfico em quatro partes, todas elas interligadas:
1. O princípio da emergência. O todo é maior que a soma de suas partes. Por exemplo, um grupo pode rapidamente encontrar solução para um problema, porque sua sabedoria é maior do que a sabedoria de seus membros individuais.
2. O princípio da imposição. O todo é menor do que a soma de suas partes. Um bom exemplo é um grupo coral, em que a melhor voz não pode ser notada, já que todas as vozes funcionam como se fossem uma só.
3. O princípio da complexidade sistêmica. Segundo esse princípio, os dois anteriores (1 e 2) são, ao mesmo tempo, antagônicos e complementares. Dessa forma, o todo é ao mesmo tempo maior e menor do que as suas partes.  A relação entre eles é circular e não linear.
4. O princípio da distinção, mas não a separação de um objeto de seu ambiente. O conhecimento de qualquer organização deve começar com o conhecimento das interações entre ela e seu ambiente, isto é, o mercado. Levar em conta o contexto é indispensável para a compreensão de qualquer fenômeno complexo.
5. O princípio sistêmico ou organizacional. O conhecimento das partes está ligado ao conhecimento do todo, que, como já foi visto, é mais do que a soma das partes. Por outro lado, o conhecimento do todo produz qualidades ou propriedades novas não reveladas pela análise das partes.

Integração sujeito-objeto.  O observador faz parte daquilo que observa. A percepção é o resultado de um diálogo entre o observador e o observado. De acordo com Mariotti, “o mundo que percebemos é o mundo que podemos perceber”. Como nossos valores e crenças funcionam como filtros, só vemos o que nossas estruturas de percepção nos permitem ver. Quando um grupo ouve uma apresentação, seus componentes percebem e entendem o que acontece de formas semelhantes, mas  diferentes. O grupo vê e ouve as mesmas coisas, mas a forma como eles “leem” o que se passa  é diferente para cada indivíduo. Nossas  estruturas mentais são compostas de experiências passadas, crenças e valores, criando assim um conjunto único de filtros para cada indivíduo.

Ecologia da ação.  Depois de iniciada uma ação, as conseqüências suas consequências podem ser bem diferentes do esperado. Esse fenômeno é comum no dia a dia, e é devido ao fato de que o curso dos acontecimentos não é linear: há sempre incertezas, riscos e imprevisibilidades. Em relação a esse conceito, Morin sugere a existência de três contextos ou circuitos:

1. O circuito de precaução / risco. Antes de qualquer ação, é necessário considerar cuidadosamente os fatores que nos levam a determinadas escolhas.  Apesar de serem posturas antagônicas a audácia e a prudência, devem ser levadas em conta durante a análise das estratégias a adotar.

2. O circuito fins / meios. Os meios e os fins estão sempre relacionados. Em alguns casos, a percepção desse fato pode se perder durante a execução de uma ação, de modo que é preciso  cuidado para descobrir se os meios justificam os fins ou não.

3. A ação / circuito contexto. Já foi dito que uma vez começada a, não podemos ter a certeza do que ocorrerá. Uma vez iniciada, as ações aos poucos se afastam do controle de seus autores. Por fim, a longo prazo e em contextos mais remotos, ela pode ter efeitos imprevisíveis.

O pensamento complexo, proporciona conceitos e ferramentas para lidar com a incerteza, e também é capaz de unificar, globalizar e reconhecer a singularidade e o concreto. Não se trata de uma ciência ou filosofia, mas permite a construção de uma ponte entre elas (Morin, 2003). Uma das melhores ferramentas para colocá-lo em prática é a matriz Cynefin.

A matriz Cynefin

Essa ferramenta foi originalmente desenvolvida por David Snowden e colaboradores (Snowden & Boone, 2007). É utilizada para descrever, diagnosticar e entender os problemas e situações. O modelo se baseia no conceito de sistemas complexos adaptativos, e examina as relações entre os seres humanos e seus os contextos ou domínios.
A estrutura inclui cinco domínios: simples, complicado, complexo e caótico:

Domínio simples. As relações entre causas e efeitos são evidentes. Este é o contexto das melhores práticas. As maneiras de lidar com ele são: perceber, categorizar (priorizar), e responder (agir).

Domínio complicado.  A relação entre causas e efeitos nem sempre é simples e requer análise e, possivelmente, apoio especializado. Este é o domínio tecnológico, o contexto das boas práticas. As maneiras de lidar com ele são: perceber, analisar, responder (agir).

Domínio complexo. A relação entre causas e efeitos são muitas vezes pouco claras e só podem ser identificadas em retrospecto, não antecipadamente. Este é domínio das práticas emergentes (adaptativas).. As formas de lidar com ele são: investigar (pesquisar), perceber, responder (agir).

Domínio caótico. É o contexto das crises. Neste caso, não é possível perceber a relação entre causas e efeitos e tudo parece confuso e turbulento. É o domínio das práticas novas. As maneiras de lidar com ele são: agir (de imediato), perceber, responder (agir em seguida).

No centro da matriz está a desordem, o que significa que não é possível identificar contextos nem causalidades. A matriz Cynefin é uma ferramenta útil para analisar problemas e chegar a soluções. Tem sido usada com bons resultados em todo o mundo, em  empresas e outras instituições. O leitor é convidado a acessar seu site, onde encontrará informações detalhadas sobre o modelo e as organizações que o utilizaram.

Conclusões

  • Nosso modo de pensar é progressivamente estruturado desde que nascemos. Primeiro imitamos nossos pais e depois, na escola, tomamos contato com o modo ocidental de raciocinar, que fragmenta as coisas as situações para em seguida e analisar as partes separadas. As teorias modernas de gestão seguem a mesma orientação: analisar cada ponto e corrigi-lo para depois tentar corrigir o todo. Mas o mundo está mudando, e essa maneira de pensar já não proporciona os melhores resultados. O mundo de hoje é muito mais complexo, as ligações entre as coisas, eventos e contextos são muito mais numerosas, o tempo decorrido entre as mudanças é muito menor, e a necessidade de inovação é maior.
  • A fim de promover e gerir qualquer mudança, as análises devem levar em conta a complexidade das estruturas e dos contextos. As mudanças são as única certezas no mundo de hoje, e as empresas que não conseguem adaptar-se a elas não sobreviverão. No nosso dia a dia esse fenômeno acontece o tempo todo, mas a maioria das pessoas condicionadas pela forma cartesiana de pensar são constantemente confrontadas com muitas dificuldades.
  • Para mudar qualquer sistema de pensamento é indispensável a educação. Nas escolas e organizações que utilizam estudos de casos por meio do pensamento complexo, é possível  desenvolver formas rápidas de comparar os modos convencionais com os novos .Mas é preciso   treinamento intensivo e apresentação de resultados, isto é, demonstrar na prática que o pensamento complexo e suas aplicações à gestão da complexidade são propostas realmente eficazes.
  • Mudança de modo de pensar está estreitamente ligada à adoção de novos valores. De acordo com Morin et al (2009), o mais importante é entender os  conceitos e as ferramentas, mas utilizá-los com bases éticas, de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social. Essa é a melhor maneira de implementar mudanças sustentáveis.
  • O segundo ponto mais importante é o poder atribuído  às equipes que aprendem a capacitar-se para lidar com a incerteza. Os grupos se organizam para modificar o ambiente, mas também são influenciados por ele, e assim são construídas construímos nossas ideias e crenças. Segundo Mariotti, “não há percepção de que seja totalmente objetiva, mas também não há percepção totalmente subjetiva”.Uma boa maneira de definir as mudanças que buscamos é sugerida por esse mesmo autor: “A introdução do pensamento complexo e da gestão da complexidade constituem um projeto de mudança cultural profunda, ampla e de longo prazo”.

O complexo pensamento de Edgar Morin

fevereiro 20, 2011

Encontrei essa matéria no site da UFMG sobre uma plaestra do Edgar Morin sobre o pensamento complexo. Um texto curto, alinhado com a proposta dessa coluna de iniciar os leitores ( e a mim também) nessa temática do pensamento complexo.

Texto de Maurício Silva Júnior.

O complexo pensamento de Edgar Morin

Em palestra na Fafich, intelectual francês criticou economistas por se isolarem do resto das ciências humanas.

É preciso reagrupar os saberes para buscar a compreensão do universo”. Dessa maneira, o pensador francês Edgar Morin resumiu parte de sua teoria do pensamento complexo, tema que o trouxe à Fafich, no dia 15, para um debate com a comunidade universitária. Morin falou para uma platéia atenta, que lotou o auditório Sônia Viegas. Compondo a mesa estavam os professores italianos Gianluca Bocchi, Mauro Ceruti, Telmo Pievani e Oscar Nicolau, além da diretora da Fafich, Vera Alice Cardoso.

Através do pensamento complexo, Morin procura restituir um “conhecimento que se encontra adormecido”, reagrupando unidade e diversidade. Com o passar dos tempos, as teorias restringiram-se a estudos por área e a complexidade das questões do homem tem sido pouco compreendida. Na opinião de Morin, os pesquisadores deveriam inscrever a competência especializada num contexto natural, na globalidade. O pensador francês propõe a hierarquização e a organização do saber no pensamento contemporâneo. “Devemos contextualizar cada acontecimento, pois as coisas não acontecem separadamente. Os átomos surgidos nos primeiros segundos do Universo têm relação com cada um de nós”.

Para exemplificar a ineficiência do pensamento especializado na com-preensão do todo, Morin lembrou as ciências econômicas, que há anos procuram solucionar questões importantes fundamentando-se exclusivamente na matemática e na lógica. Dessa maneira, os economistas não têm conseguido predizer as crises. “Eles se isolaram do resto das ciências humanas e se esqueceram da influência dos sentimentos, dos medos e dos desejos no processo econômico”, afirma. Novos horizontes, no entanto, podem ser observados com o surgimento das ciências que reagrupam disciplinas, tratando os assuntos através de diversos ângulos. Cita como exemplo a cosmologia, que vem misturando astrofísica, microfísica e uma série de reflexões filosóficas.

Morin ressaltou a capacidade humana de enxergar o mundo com um viés poético. A prosa da vida assegura a sobrevivência e a poesia estimula a viver. “Muitas pessoas garantem a subsistência com determinado tipo de trabalho, sem deixar de investir em outras áreas que lhes dão mais prazer”. O pensador ressaltou, ainda, a importância do contexto histórico na formação dos cidadãos. O desafio da complexidade está exatamente na compreensão de “nossa comunidade de destinos”. “Podem nos levar à catástrofe. Por isso a coletividade é tão importante. Diante das batalhas cotidianas, estaremos juntos nas vitórias e nas derrotas”.

Os cinco saberes do pensamento complexo

fevereiro 13, 2011

Seguindo a temática “Pensamento Complexo”, deixo aqui dois fragmentos, escolhidos por mim, do texto “OS CINCO SABERES DO PENSAMENTO COMPLEXO (Pontos de encontro entre as obras de Edgar Morin, Fernando Pessoa e outros escritores)” de Humberto Mariotti. Eles são do início do texto, mas que a mim introduziram o assunto e me instigou a ler até o fim. Espero que aconteça com vocês.

“A obra de Edgar Morin está entre os pontos altos desse empreendimento. Em especial, destaca-se a sua mais importante concepção epistemológica, o pensamento complexo. Nele não predomina o raciocínio fragmentador (o modelo mental binário do “ou/ou”: ou amigo ou inimigo; ou bem ou mal; ou certo ou errado; ou ocidente ou oriente etc.). Tampouco prevalece o utopismo da primazia do todo — o sistemismo reducionista.”

“Assim Morin denomina o pensamento complexo: o pensamento do abraço. Eis por que proponho, neste texto, falar sobre o que chamo de cinco saberes do pensamento complexo: saber ver, saber esperar, saber conversar, saber amar e saber abraçar. Todos estão inter-relacionados,
abraçados, e por isso dependem uns dos outros para ser vividos em sua plenitude.”

Engraçado que não tem nenhuma área do conhecimento humano nesses 5 saberes, tais como filosofia, matemática, física… O pensamento complexo é uma outra forma de ver o mundo. E os instrumentos são esses aqui: saber ver, saber esperar, conversar, amar e abraçar.

O link para o texto está aqui.

Sds,

DC

Resumo Didático

fevereiro 6, 2011

Continuamos com a idéia do pensamento complexo como tema para o domingo. Encontrei um texto de Humberto Mariotti (Médico psicoterapeuta, coordenador do Grupo de Estudos de Complexidade e Pensamento Sistêmico da Associação Palas Athena (SP)), uma das referência desse assunto no Brasil. Ele traz um bom resumo didático sobre o tema. Como estamos inciando esse tema aqui no Blog, acho perfeitamente prudente colocá-lo aqui hoje.

COMPLEXIDADE E PENSAMENTO COMPLEXO (Texto introdutório)

Nenhum homem é uma ilha; qualquer homem é uma parte do todo. A morte de qualquer
homem me diminui, porque faço parte da humanidade; assim, nunca procures saber por
quem dobram os sinos: eles dobram por ti.
— JOHN DONNE (1572-1631)

No trabalho com grupos, organizações e instituições, tenho utilizado o texto abaixo como
instrumento de reflexão e mobilização. Trata-se de um resumo didático.

O que é complexidade?

1. A complexidade não é um conceito teórico e sim um fato da vida. Corresponde à
multiplicidade, ao entrelaçamento e à contínua interação da infinidade de sistemas e fenômenos
que compõem o mundo natural. Os sistemas complexos estão dentro de nós e a recíproca é
verdadeira. É preciso, pois, tanto quanto possível entendê-los para melhor conviver com eles.

2. Não importa o quanto tentemos, não conseguimos reduzir essa multidimensionalidade a
explicações simplistas, regras rígidas, fórmulas simplificadoras ou esquemas fechados de
idéias. A complexidade só pode ser entendida por um sistema de pensamento aberto,
abrangente e flexível — o pensamento complexo. Este configura uma nova visão de mundo,
que aceita e procura compreender as mudanças contínuas do real e não pretende negar a
multiplicidade, a aleatoriedade e a incerteza, e sim conviver com elas.

3. Lembremos uma frase de Jean Piaget: “Os fenômenos humanos são biológicos em suas raízes,
sociais em seus fins e mentais em seus meios”. A experiência humana é um todo bio-psicosocial,
que não pode ser dividido em partes nem reduzido a nenhuma delas. Primeiro,
percebemos o mundo. Em seguida, as percepções geram sentimentos e emoções. Na seqüência,
estes são elaborados em forma de pensamentos, que vão determinar o nosso comportamento no
cotidiano.

4. O modo como nos tornamos propensos (pela educação e pela cultura) a pensar é que vai
determinar as práticas no dia-a-dia, tanto no plano individual quanto no social. Do ponto de
vista bio-psico-social, o principal problema para a implantação do desenvolvimento sustentado
(e portanto o desenvolvimento da cidadania) é a predominância, em nossa cultura, do modelo
mental linear (ou lógica aristotélica, ou lógica do terceiro excluído).

5. Por esse modelo, A só pode ser igual a A. Tudo o que não se ajustar a essa dinâmica fica
excluído. É a lógica do “ou/ou”, que deixa de lado o “e/e”, isto é, exclui a complementaridade e
a diversidade. Desde os Gregos que esse modelo mental vem servindo de sustentação para os
nossos sistemas educacionais.

6. Essa lógica levou à idéia de que se B vem depois de A com alguma freqüência, B é sempre o
efeito e A é sempre a causa (causalidade simples). Na prática, essa posição gerou a crença
(errônea) de que entre causas e efeitos existe sempre uma contigüidade ou uma proximidade
muito estreita. Essa concepção é responsável pelo imediatismo, que dificulta e muitas vezes
impede a compreensão de fenômenos complexos, como os de natureza bio-psico-social.

7. O modelo mental cartesiano é indispensável para resolver os problemas humanos mecânicos
(abordáveis pelas ciências ditas exatas e pela tecnologia). Mas é insuficiente para resolver
problemas humanos em que participam emoções e sentimentos (a dimensão psico-social). Um
exemplo: o raciocínio linear aumenta a produtividade industrial por meio da automação, mas
não consegue resolver o problema do desemprego e da exclusão social por ela gerados, porque
se trata de questões não-lineares. O mundo financeiro é apenas mecânico, mas o universo da
economia é mecânico e humano.

8. Desde os primeiros dias de escola (e de vida, dentro da cultura), nosso cérebro começa a ser
profundamente formatado pelo modelo linear. Para ele, o predomínio de um determinado
pensamento, com exclusão de quaisquer outros é “lógico” e perfeitamente “natural”. Essa é a
essência das ideologias em geral e do autoritarismo em particular. Desse modo, fenômenos
como a exclusão social são também vistos como “lógicos”, “naturais” e “inevitáveis”.

9. O modelo mental linear-cartesiano forma a sustentação do empirismo, que diz que existe uma
única realidade, que deve ser percebida da mesma forma por todos os homens. Hoje, porém,
sabe-se que não existe percepção totalmente objetiva (ver abaixo, no item 11, a posição de
Humberto Maturana).

10. Por isso, nos últimos anos esse modelo de pensamento tem sido questionado de muitas formas, inclusive pelo pensamento complexo. Este permite entender os processos autopoiéticos
(autoprodutores, auto-sustentados, autogestionários), dos quais as sociedade humanas
constituem um exemplo.

11. O pensamento complexo origina-se a partir da obra de vários autores, cujos trabalhos vêm
tendo ampla aplicação em biologia, sociologia, antropologia social e desenvolvimento
sustentado. Uma de suas principais linhas é a biologia da cognição, de Maturana, que sustenta
que a realidade é percebida por um dado indivíduo segundo a estrutura (a configuração biopsico-
social) de seu organismo num dado momento. Essa estrutura muda continuamente de
acordo com a interação do organismo com o meio.

12. A diversidade de visões não impede (pelo contrário, pede) que cheguemos a acordos (consensos sociais) sobre o mundo em que vivemos. Esses consensos é que vão determinar as práticas sociais. Para que possamos chegar a consensos que levem em conta o respeito à diversidade de pontos de vista é necessário observar alguns parâmetros essenciais:

  • O que chamamos de racional é o resultado de nossas percepções. No início, elas surgem
    como sentimentos e emoções. Só depois é que se transformam em pensamentos, que geram
    discursos, que por fim são formalizados como conceitos.
  • O racional vem do emocional, não o contrário. Isso não quer dizer que devamos deixar de
    ser racionais. Significa apenas que precisamos aprender a harmonizar razão e emoção,
    pensamento mecânico e pensamento sistêmico. Essa é a proposta essencial do modelo
    complexo.
  • Uma cultura é uma rede de conversações que define um modo de viver. Toda cultura é
    definida pelos discursos que nela predominam. Estes se originam nas conversações, que
    começam entre indivíduos, estendem-se às comunidades e por fim a todo o âmbito cultural.
  • Os consensos sociais (que determinam, por exemplo, o que é permitido e o que não é, o que
    é real e o que é imaginário numa determinada cultura) resultam desses discursos, que por
    sua vez são oriundos das redes de conversação.
  • Cresce-se numa cultura vivendo nela como um indivíduo participante da rede de
    conversações que a define. Crescer numa cultura significa, então, adquirir e desenvolver a
    cidadania.
  • Uma cultura que não desenvolve a cidadania de seus membros não cresce, permanece
    subdesenvolvida. Logo, não pode sequer começar a pensar em desenvolvimento sustentado.
  • Como vimos há pouco, todo sistema racional começa no emocional: o que pensamos vem
    do que sentimos. É por isso que nenhum argumento racional pode convencer as pessoas que já não estejam desde o início convencidas ou propensas a isso.
  • Os argumentos racionais são úteis para iniciar conversações. Mas se eles insistem em
    permanecer lineares (ou seja, excludentes, apegados ao “ou/ou”), isso significa que querem
    manter-se como os únicos “verdadeiros”, isto é, que não respeitam a diversidade. E esta,
    como sabemos, é a essência da cidadania.

13. Dessa maneira,

  • Não se pode desenvolver uma compreensão satisfatória da cidadania e de desenvolvimento sustentado cuja essência seja apenas no pensamento linear.
  • Por outro lado, o pensamento sistêmico, quando isolado, é também insuficiente para as mesmas finalidades.
  • Há, portanto, necessidade de uma complementaridade entre ambos os modelos mentais. O pensamento linear não se sustenta sem o sistêmico, e vice-versa. O desenvolvimento sustentado precisa de um modelo de pensamento que lhe dê sustentação e estrutura. Este é o pensamento complexo.
  • Como os processos de pensamento hegemônicos em nossa cultura estão unidimensionalizados pelo modelo linear, só um esforço educacional que comece na
    infância terá possibilidades de reverter de modo significativo esse quadro. Isso implica pelo menos o prazo de uma geração.
  • No caso dos adolescentes e adultos de hoje, é possível alcançar mudanças substanciais nessa área, desde que eles sejam educacional e culturalmente sensibilizados.
  • Para isso, é essencial a atuação das entidades do terceiro setor (entidades comunitárias),
    porque por meio delas é possível questionar a rigidez institucional e o modelo mental linear
    que, em geral, caracteriza as estruturas governamentais.

Pensamentos linear, sistêmico e complexo
1. Em primeiro lugar, lembremos o exemplo de Joseph O’Connor e Ian McDermott. A Terra é
plana? É claro que sim: basta olhar o chão que pisamos. No entanto, como mostram as
fotografias dos satélites e as viagens intercontinentais, ela é obviamente redonda. Concluímos
então que do ponto de vista do pensamento linear, de causalidade simples e imediata, a Terra é
plana. Uma abordagem mais ampla, porém, mostra que ela é redonda e faz parte de um sistema.

2. Precisamos dessas duas noções para as práticas do cotidiano. Mas elas não são suficientes, o
que nos leva a ampliar o exemplo desses autores e dizer que:
a) do ponto de vista do pensamento linear a Terra é plana;
b) pela perspectiva do pensamento sistêmico ela é redonda;
c) por fim, do ângulo do pensamento complexo — que engloba os dois anteriores — ela é ao
mesmo tempo plana e redonda.
3. Recapitulemos:

  • O pensamento linear, ou linear-cartesiano, é a tradução atual da lógica de Aristóteles. Tratase de uma abordagem, necessária (e indispensável) para as práticas da vida mecânica, mas que não é suficiente nos casos que envolvem sentimentos e emoções. Ou seja, não é capaz de entender e lidar com a totalidade da vida humana.
  • O pensamento sistêmico é um instrumento valioso para a compreensão da complexidade do mundo natural. Porém, quando aplicado de modo mecânico, como simples ferramenta (como se vem fazendo nos dias atuais, principalmente nos EUA, no mundo das empresas), proporciona resultados meramente operacionais, que não são suficientes para compreender e abranger a totalidade do cotidiano das pessoas.
  • Por outras palavras, o pensamento sistêmico pode proporcionar bons resultados no sentido mecânico-produtivista do termo, mas certamente não é o bastante para lidar com a complexidade dos sistemas naturais, em especial os humanos.
  • É indispensável ter sempre em mente que, em que pese a sua grande importância, ele é
    apenas um dos operadores cognitivos do pensamento complexo. Por isso, quando utilizado, como tem sido, separado da idéia de complexidade, diminuem a sua eficácia e
    potencialidades.
  • O pensamento complexo resulta da complementaridade (do abraço, como diz Edgar Morin)
    das visões de mundo linear e sistêmica. Essa abrangência possibilita a elaboração de saberes e práticas que permitem buscar novas formas de entender a complexidade dos sistemas naturais e lidar com ela, o que evidentemente inclui o ser humano e suas culturas. As conseqüências práticas dessa visão bem mais ampla são óbvias.

Alguns princípios do pensamento complexo

  • Tudo está ligado a tudo.
  • O mundo natural é constituído de opostos ao mesmo tempo antagônicos e complementares.
  • Toda ação implica um feedback.
  • Todo feedback resulta em novas ações.
  • Vivemos em círculos sistêmicos e dinâmicos de feedback, e não em linhas estáticas de causaefeito imediato.
  • Por isso, temos responsabilidade em tudo o que influenciamos.
  • O feedback pode surgir bem longe da ação inicial, em termos de tempo e espaço.
  • Todo sistema reage segundo a sua estrutura.
  • A estrutura de um sistema muda continuamente, mas não a sua organização.
  • Os resultados nem sempre são proporcionais aos esforços iniciais.
  • Os sistemas funcionam melhor por meio de suas ligações mais frágeis.
  • Uma parte só pode ser definida como tal em relação a um todo.
  • Nunca se pode fazer uma coisa isolada.
  • Não há fenômenos de causa única no mundo natural.
  • As propriedades emergentes de um sistema não são redutíveis aos seus componentes.
  • É impossível pensar num sistema sem pensar em seu contexto (seu ambiente).
  • Os sistemas não podem ser reduzidos ao meio ambiente e vice-versa.

Alguns benefícios do pensamento complexo

  • Facilita a percepção de que a maioria das situações segue determinados padrões.
  • Facilita a percepção de que é possível diagnosticar esses padrões (ou arquétipos sistêmicos, ou modelos estruturais) e assim intervir para modificá-los (no plano individual, no trabalho e em outras circunstâncias).
  • Facilita o desenvolvimento de melhores estratégias de pensamento.
  • Permite não apenas entender melhor e mais rapidamente as situações, mas também ter a possibilidade de mudar a forma de pensar que levou a elas.
  • Permite aperfeiçoar as comunicações e as relações interpessoais.
  • Permite perceber e entender as situações com mais clareza, extensão e profundidade.
  • Por isso, aumenta a capacidade de tomar decisões de grande amplitude e longo prazo.

O que se aprende por meio do pensamento complexo

  • Que pequenas ações podem levar a grandes resultados (efeito borboleta).
  • Que nem sempre aprendemos pela experiência.
  • Que só podemos nos autoconhecer com a ajuda dos outros.
  • Que soluções imediatistas podem provocar problemas ainda maiores do que aqueles que estamos tentando resolver.
  • Que não existem fenômenos de causa única.
  • Que toda ação produz efeitos colaterais.
  • Que soluções óbvias em geral causam mais mal do que bem.
  • Que é possível (e necessário) pensar em termos de conexões, e não de eventos isolados.
  • Que os princípios do pensamento sistêmico podem ser aplicados a qualquer sistema.
  • Que os melhores resultados vêm da conversação e do respeito à diversidade de opiniões, não do dogmatismo e da unidimensionalidade.
  • Que o imediatismo e a inflexibilidade são os primeiros passos para o subdesenvolvimento,
    seja ele pessoal, grupal ou cultural.

Este texto faz parte do livro de Humberto Mariotti As Paixões do Ego: Complexidade, Política e Solidariedade
(São Paulo, Editora Palas Athena, 2000).

O Pensamento Complexo

janeiro 30, 2011

Há tempos que quero preencher o dia de domingo de uma forma melhor. Nesses dias resolvi dedicar esse dia à um tema que ainda estou aprendendo, porém considero ultra-transformador. O pensamento complexo.

Começo hoje com um artigo bem curto e fácil de ser lido, apenas para inciar o assunto.

O PENSAMENTO COMPLEXO

Compreender e visualizar o mundo numa perspectiva maior, macro, como um todo, de forma integral, de forma global, de modo ecológico, holístico, indissociável, multidisciplinar e sistêmico são as principais características do pensamento complexo, também conhecido comocomplexidade.

Segundo Crema (1988) a complexidade pode ser definido e entendido como umaescola filosófica que vê o mundo como um todo, integral, indissociável e propõe uma abordagem multidisciplinar para a construção do conhecimento. Diferentemente do reducionismo. Contrapõe-se à causalidade por abordar os fenômenos como totalidade orgânica. A proposta da complexidade é a abordagem transdisciplinar dos fenômenos, a multidiciplinaridade dos objetos, e a mudança de paradigma, abandonando o reducionismo que tem pautado a investigação científica em todos os campos, e dando lugar à criatividade, a produção do conhecimento, a reflexão, ao lúdico, entre outros fatores que levem o ser humano a atingir a sua emancipação cultura.

Segundo Capra (1996) o pensamento fragmentado não é capaz de tratar e resolver a interconexão dos problemas globais, tanto nos níveis maiores da sociedade como no nível do indivíduo, da particularidade. É necessário então uma nova forma de pensar e visualizar o mundo, que elimine a chamada “crise de percepção” que é a raiz mais profunda dos sintomas das crises que nos cercam. A superação desta crise só será possível se houver uma ruptura na educação, rompendo com a idéia de reprodução do conhecimento e aderindo a proposta de produção do conhecimento de modo coletivo.

A interdisciplinaridade é uma das características do pensamento, pois ele necessita pensar, dialogar, refletir e se comunicar com as mais diversas áreas do conhecimento. Mas infelizmente as ciências são por demais cartesianas, especificas, fragmentadas, não tendo abertura ao dialogo com as outras ciências, filosofia, teologia e outras. Causando ai um grande vazio no aspecto ético.

Edgar Morin ( 1996, p.149) afirma que a complexidade é elaborada e desenvolvida em conjunto de forma heterogênica, isto é de forma plural, onde o conhecimento seja construído e partilhado em conjunto de forma integral com as demais ciências.

À primeira vista, a complexidade é um tecido (complexo: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal. Mas então a complexidade apresenta-se com os traços inquietantes da confusão, do inextricável, da desordem, da ambigüidade, da incerteza… Daí a necessidade, para o conhecimento, de pôr ordem nos fenômenos ao rejeitar a desordem, de afastar o incerto, isto é, de selecionar os elementos de ordem e de certeza, de retirar a ambigüidade, de clarificar, de distinguir, de hierarquizar… Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm o risco de a tornar cega se eliminarem os outros caracteres do complexo; e efetivamente, como o indiquei, elas tornam-nos cegos.

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/5775/1/O-Pensamento-Complexo/pagina1.html#ixzz1CSNbVllr

O Pensamento Complexo publicado 2/05/2008 por Robson Stigar em http://www.webartigos.com
Saudações,

DC

Homo Sapiens Demens

maio 27, 2010

Provocar indagações sobre nossas premissas e verdades é um dos objetivos desse Blog. O post do Blog Inteligência Empresarial fala exatamente disso. Achei sensacional. Reproduzo-o aqui:

Em 1993, quando fazia meu doutorado aqui na França, e tinha 35 anos, fiz meu primeiro check-up de saúde. E não paguei um centavo por isto. A idéia era muito simples e óbvia: é mais barato e eficaz para o sistema público de saúde identificar e prevenir doenças do que ficar tratando delas, quando elas aparecerem. O nosso SUS (Sistema Único de Saude) faz isto: gastamos um dinheirão tratando de doenças quando seria muito mais barato evitá-las. E não me venham falar da campanha em favor do uso de camisinhas, para evitar a AIDS. Claro que isto é positivo, mas devíamos garantir um chek-up geral para todos, de cinco em cinco anos, como se faz aqui. Insisto, isto é MAIS BARATO e eficaz! O que precisamos é passar a olhar para a questão da saúde, e para a vida, com uma visão sistêmica.

Um dos maiores pensadores do mundo sobre visão sistêmica (ou complexa, como ele prefere chamar) é Edgar Morin. Filósofo indisciplinado, intelectual que sempre pensou fora da caixa, Morin não só refletiu sobre a vida como viveu o que pensou, sem medo das contradições. Ele sempre se opôs ao cartesianismo dominante que, separando o mundo em caixinhas, tem uma visão simplista dos seres humanos e tenta reduzi-los à uma dimensão apenas: a racionalidade (“penso, logo existo”…). O irracional, o mágico, a loucura, o delírio, para um cartesiano (que ainda somos), são apenas acidentes, desvios, anormalidades, que precisam ser corrigidas e tratadas.

Para Morin, a razão e a loucura, a organização e a desorganização, o pensar e o fazer, são diferentes características dos seres humanos em permanente luta uma contra a outra, mas são também complementares e se auto-alimentam. Uma precisa da outra para existir. A razão pode gerar a loucura, como no caso do nazismo ou do stalinismo. Os delírios, sonhos, loucuras, podem provocar um fervilhar anárquico de idéias, e são capazes de produzir obras de arte e inovações. A razão é a faculdade de colocar em ordem os pensamentos, de sistematizar os conhecimentos, e busca dar sentido às idéias e os fatos, a teoria e experiências. Claro que tudo isto é fundamental e necessário. Mas a razão clássica, cartesiana, que privilegia a ordem, a lógica, a sistematização, precisa dar lugar a uma outra forma de pensamento, mais complexa, que seja aberta também ao irracional, ao incompreensível, ao improvável.

Esta racionalidade que se fecha ao subjetivo nos levou às tragédias contemporâneas: hiperespecialização, separação entre as diversas disciplinas (reparem no nome!) na escola, sufocamento da vida pela burocracia, ao isolamento e solidão dos indivíduos… Precisamos entender que o homem é sapiens e demens, capaz de bondade e crueldade, produzir artefatos e sonhos, agir de forma racional e lúdica…
Precisamos aprender a combinar conhecimento objetivo e conhecimento subjetivo e devemos deixar de ter medo da subjetividade.

E isto não é só papo para filósofos! Isto tem consequências práticas. Quando selecionamos alguém para trabalhar numa empresa, fazemos o(a) candidata(o) passar por uma bateria de testes e entrevistas para nos assegurar, científicamente, que estamos escolhendo a melhor pessoa. O que acontece depois todos sabemos: o candidato era o melhor racionalmente, mas não sabe se relacionar com os outros, cria caso com todo mundo, ou é muito tímido…. Não admitimos subjetividade no processo e, pior, tentamos de todas as formas aboli-la.

Como fazer então??? Uma aluna, uma vez, me fez esta pergunta. Perguntei então pra ela: “você tem namorado?” Ela disse que sim. “Como você fez para encontrar este namorado? Fez uma bateria de testes e entrevistas para ver se ele atendia seus requisitos”???

Claro que ao escolhermos alguém para namorar temos alguns “requisitos”, alguns conscientes, outros inconscientes, e fazemos algumas perguntas… A questão é que, neste caso, ADMITIMOS que entre, e de maneira importante, a subjetividade: “fui com a cara”, “bastou trocarmos um olhar e nos tocar”… Se admitimos a subjetividade na escolha de nossos amigos e namorados, que são coisas MUITO mais importantes que um colega de trabalho, porque não admiti-la no mundo do trabalho?

Talvez porque aí vamos ter que admitir que o homo não é apenas sapiens, mas também demens…

Fica a provocação.Adoro esses tipos de textos.

Abraços,

DC