Posts Tagged ‘Luciano Pires’

Essa tal brasilidade

julho 9, 2011

Mais uma vez, com vocês, nosso amigo Palestrante, radialista, cartunista, Luciano Pires.

Preparei uma edição do podcast Café Brasil chamada EM BUSCA DA BRASILIDADE, que começa com um texto de Affonso Romano de Sant’Anna publicado num relatório anual do Banco do Brasil lá na antiguidade, em 1997. Affonso traz uma fascinante perspectiva de como determinados temas vão alterando o conceito de “brasilidade” ao longo da história, especialmente em três instantes específicos: o da defesa da territorialidade, o da expectativa imperial e o da consciência nacionalista. E comenta questões como a defesa das minorias nos anos oitenta, a chegada da globalização e da internet, etc. O texto pode, ou melhor, deve ser lido em www.portalcafebrasil.com.br/dlog.

É um exercício fascinante olhar para o Brasil vinte anos depois daquele texto de 1997 e perceber que continuamos a discutir territorialidade, não mais na disputa com nossos vizinhos, mas internamente. Seja na demarcação de terras indígenas, como a reserva Raposa do Sol, ou com os sem-teto das grandes cidades, com o crescimento das favelas ou com a sempre presente questão da reforma agrária com seus MSTs, é impossível pensar a brasilidade sem a perspectiva da territorialidade.

E as minorias excluídas? Seria possível imaginar trinta anos atrás uma parada gay com 4 milhões de pessoas, a marcha da maconha ou o casamento homossexual sendo aprovado pelo STF?

Globalização? Internet? Putz…

Somemos a questão política, o fim da divisão entre esquerda e direita, a completa falta de programas ideológicos que definam os partidos, a comercialização da política… E bote mais, bote a presença cada vez mais constante da mídia em nossas vidas e junte ao desmanche do sistema educacional, ao sucateamento das disciplinas humanas, ao crescente individualismo e consumismo, ao domínio dos marqueteiros e pronto!
Que cazzo é “brasilidade” hoje? Será a mistura de índio com português e negro? Mas depois de quase duzentos anos de influência japonesa, sirio-libanesa, judaica, norte-americana, espanhola, francesa, italiana, alemã, e tantos outros? Depois dos automóveis indianos, poloneses e mexicanos? Dos calçados chineses? Do sushi, do download, do site e do upgrade? E depois dos McDonalds, do rock’n roll, do funk, do hip hop, dos videogames, do sertanojo e breganejo? E depois da Lady Gaga?

Meu, que caldeirão!

O que é a “brasilidade” neste mundo conectado, único e totalmente interdependente? Será que só a encontraremos no meio do pantanal do Mato Grosso, nos confins dos pampas gaúchos ou embrenhada na selva amazônica? Mas mesmo lá dá pra assistir a entrega do Oscar por televisão via satélite!

E aí, o que é “brasilidade” pra você? É feijoada, futebol, mulher e carnaval? É o jeitinho? É o Macunaíma? Ou é outra coisa?

Será que ainda existe essa tal “brasilidade”?

Pronto. Tá feita a pergunta.

Luciano Pires

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O Disjuntor

junho 18, 2011

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires.

Nas transmissões das lutas do MMA (Mixed Martial Arts, antigamente chamado de Vale Tudo), quando um lutador acerta um direto no queixo do outro, que cai como um saco de batatas, os locutores exclamam:

– Desligou o disjuntor!

Disjuntor é o dispositivo eletromecânico que desliga a corrente elétrica quando acontece um curto circuito. Comparando com um sistema de canos hidráulicos, a corrente é equivalente à taxa de vazão da água. Quando a taxa de vazão sobe demais, como acontece num curto circuito, o cano pode romper. E o disjuntor corta a corrente. A intensidade da corrente elétrica é medida em Ampéres (A) e os disjuntores atuam conforme a capacidade de amperagem para a qual foram projetados. Um disjuntor de 10 A desliga quando recebe uma corrente de 15 A por exemplo. Achei excelente o “desligou o disjuntor”, que cabe como uma luva quando tratamos de processos de comunicação. Quer ver?

Inaugurei uma nova palestra chamada “Tudo bem, se me convém”, na qual trato de comportamento ético. Logo no início apresento uma reportagem de TV, com um mendigo chamado Gilberto da Silva. Gilberto vive de catar latinhas pelas ruas. Uma noite, ele encontra milhares de cheques no lixo e entrega para a polícia. Num determinado momento do vídeo, a repórter diz:

– O velho das latas, mesmo vivendo com tão pouco, preferiu a honestidade.

Nesse momento interrompo o vídeo e entro em cena dizendo:

– É miserável porque é burro! Onde já se viu? Não tem o que comer, não tem o que vestir, não tem onde morar, acha dinheiro e devolve? É burro! Querem saber o que ele respondeu quando perguntaram por que devolveu o dinheiro?

Solto a segunda parte do vídeo onde Gilberto diz:

– Dignidade é uma coisa que não se pode dizer que tem, você tem que ter ela dentro de você…

Então peço à platéia que aplauda o Gilberto e – com a imagem dele na tela – explico que ele tem valores tão fortes que se sobrepõem à fome e miséria:

– Valores individuais são princípios fundamentais que tem a ver com virtude. Valores individuais orientam o comportamento, determinam nossas prioridades e nos definem como indivíduos.

A partir da atitude do mendigo – de devolver o que não é seu –  continuo a palestra tratando de virtude, ética e cidadania. E mais à frente quando em outro vídeo uma autoridade dá a entender que “achado não é roubado”, afirmo que isso é desculpa para praticar uma atitude amoral.

Sabe o que aconteceu? Mais de uma pessoa que estava na platéia se manifestou indignada, pois chamei o mendigo de burro e defendi que ele ficasse com o dinheiro…

Minha frase de impacto – “é burro!” – desligou o disjuntor. Quando a pessoa me ouviu dizê-la, seu cérebro desligou e ela não ouviu mais nada. Não importa se toda a sequência da palestra teve como foco o comportamento ético, se pedi para aplaudir o mendigo e se critiquei duramente quem pregou uma atitude contrária à dele.

Só sobrou o “é burro!”.

É por ter essa capacidade de desligar o disjuntor que certas frases e expressões, quando tiradas do contexto, ganham vida própria e passam a significar o contrário do que o que foi dito.

Por sorte, diferente dos fusíveis que queimam e precisam ser trocados, os disjuntores podem ser rearmados manualmente. É só religar. Mas vou tomar mais cuidado. A partir de agora colocarei um aviso informando a amperagem da palestra.

Assim, quem tiver disjuntor fraco se cuida.

Luciano Pires

Geração T

junho 11, 2011

Neste sábado, mais um excelente texto do Luciano Pires. Artigo Sensacional. Sou da geração Y e concordo com cada palavra deste texto daqui. Quero ver nascer a geração A, de AÇÃO!!

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires!

Meu amigo Patrick é francês e vive no Brasil há anos. Tem uma visão crítica da forma de ser do brasileiro em comparação a outros povos, especialmente os europeus. E eu me divirto com ele. Recentemente, presente a um desses eventos badalados que tratam de redes sociais, ele me ligou para descrever o público. Jovens, muito jovens, com seus IPads e IPhones, tuitando furiosamente enquanto assistiam às palestras de dezenas de especialistas. Ao final da palestra, invariavelmente o apresentador dizia:

– Alguma pergunta?

Silêncio. Ninguém. Nada. E assim foi, de palestra em palestra. Ninguém nunca perguntava nada. O Patrick então disse que aquela era a geração T. Tê de testemunha: “Sou testemunha de tudo, mas não tenho opinião sobre nada.”
É isso mesmo que tenho visto por aí: a geração T dominando os espaços e dedicando-se à única coisa que consegue fazer: contar para os outros o que viu. Ou no máximo, repetir a opinião de terceiros, enquanto permanece incapaz de analisar, comparar, julgar e de emitir opiniões.

Mas sabe o mais louco? A “geração T”, diferente das outras gerações, parece não ter um período definido. Não é composta exclusivamente de gente que nasceu entre o ano x e o ano y… É claro que a quantidade de jovens é muito grande, mas ela generosamente engloba gente nascida desde 1950…

Em minha palestra “Quem não se comunica, se estrumbica” falo de um estudo que mostra que nos 40 mil anos que se passaram desde o momento em que o homem desceu das árvores até inventar a internet, a humanidade produziu 12 bilhões de gigabytes de informação, algo como 54 trilhões de livros com 200 páginas cada. Agora veja esta: somente no ano de 2002 produzimos os mesmos 12 bilhões de gigas! Geramos num ano o mesmo que em 40 mil anos… Em 2007 foram mais de 100 bilhões de gigas! E em 2012 serão alguns trilhões! Produzimos informação numa velocidade cada vez maior enquanto inventamos traquitanas que tornam cada vez mais fácil acessar essas informações. Mas de que adianta ter acesso às informações se não temos repertório para dar um sentido à realidade?

O resultado é a geração T, que sabe tudo que acontece, mas não tem idéia do por que acontece. Entrega-se à tecnologia de corpo e alma, como “vending machines”, aquelas máquinas automáticas de vender refrigerantes em lata, sabe? Distribuidores de conteúdo de terceiros, focados no processo de distribuição, mas sem qualquer compromisso com o conteúdo distribuído.

Nada a estranhar, afinal. Querer que as gerações que saem de nosso sistema educacional falido conheçam questões conceituais, paradoxos, tradições, estilos de comunicação, relações de causa e efeito, encadeamento lógico dos argumentos e significados para poder exercer o senso crítico é demais, não? É mais fácil e menos comprometedor simplesmente contar para os outros aquilo que ficamos sabendo.

A geração T não consegue praticar curiosidade intelectual, só a curiosidade social. Tentei achar um nome para esse fenômeno e acabei concluindo que só pode ser um: fofoca.

A geração T é a geração dos fofoqueiros. E você é testemunha.

Luciano Pires

A ladra

junho 4, 2011

Infelizmente nosso amigo Luciano Pires presenciou uma cena onde o valor que tanto se busca nesse Blog não se concretizou. Vocês verão no texto abaixo.

Ainda tenho esperança, pois já ocorreu algo semelhante comigo e ví que ainda há honestidade no povo brasileiro.

DC

 

Fui ao Barra Shopping Sul em Porto Alegre ver uma exposição sobre o Titanic. É um caça-níqueis, mas impressiona quem – como eu – é fascinado pela história daquele navio. Valeu cada níquel caçado… De volta  ao hotel, descubro que esqueci meu celular no taxi, um IPhone 4 novíssimo! Liguei para o Shopping, consegui falar com o ponto do taxi, mas de nada adiantou. Eu não tinha o modelo do carro, a placa ou número, nem o nome do motorista. Angustiado, voltei até o shopping. Eram dez e meia da noite. Fiquei plantado em frente ao ponto de taxi para ver se reconhecia o motorista e… reconheci!

– Foi o senhor que me levou para o hotel minutos atrás?

– Foi sim!

– Ufa! Esqueci meu celular no banco de seu carro!

– Ah! Olha só, depois do senhor, fiz uma corrida para uma mulher. Ela sentou no celular. Quando ela saiu do carro eu vi o celular, achei que era dela e avisei que estava sobre o banco. Ela pegou, olhou, enfiou na bolsa e desceu…Calafrio. Se não tivesse intenção de roubar, ela teria devolvido o celular para o taxista, não é? Ao ver minha expressão de desânimo ele continuou:

– Eu sei onde deixei a mulher. Quer que eu leve o senhor até lá?

– Quero!

Bem, vou encurtar a história. Localizamos o apartamento da mulher num condomínio de classe média. Ela desceu até a portaria acompanhada do filho, um jovem adulto, e desmentiu que tivesse encontrado o celular. O taxista, inconformado insistiu, descrevendo o celular e a cena.

– Não peguei nenhum celular!

E pronto. Rolou barraco, ameaça de chamar policia e tudo mais. Mas não adiantou. Fui à delegacia e o próprio escrivão aconselhou:

– Deixa pra lá.

Tomei duas porradas. A menos dolorida foi a perda do aparelho. Mas a cena da mulher nos encarando e dizendo – na frente do filho – que não havia roubado o celular, foi um baque. Não consigo entender como é que alguém pode ficar com algo que não é seu, tendo a oportunidade de devolver ao dono…

Conheci uma ladra. Seus valores individuais, que orientam o comportamento, determinam nossas prioridades e nos definem como indivíduos, estão em total desacordo com os meus. Meus valores estão relacionados à virtude, os dela ao vício. Quem vive os valores virtuosos sofre diante de escolhas morais. É tentador ficar com o “achado”. E vencer essa tentação dói.

Mas quem não vive os valores virtuosos, deixando-os apenas pairando sobre sua vida, nem percebe que escolhas morais precisam ser feitas. Sequer entende que o “achado não é roubado” é apenas uma justificativa para um comportamento indigno.Gente assim tem desvalores individuais.

Conheci uma ladra. Que além do meu celular, roubou mais um pouco de minha fé na natureza humana.

Luciano Pires

Monumento à Incompetência

maio 28, 2011

Em 1999 o corpo do alpinista inglês George Mallory foi encontrado a cerca de 8.200 metros de altitude no monte Everest. Mallory desapareceu em junho de 1924 quando estava próximo ao cume. Uma afirmação de um dos alpinistas que encontrou o corpo me chamou a atenção:

“Fiquei impressionado com as roupas que ele usava. Hoje em dia, no inverno, qualquer pessoa caminhando pelas ruas de Seattle está mais protegida do que Mallory no Everest em 1924.”

Lembrei-me dessa história durante uma visita que fiz a uma empresa na qual fui recebido pelo principal executivo, que fez questão de se identificar como CEO – Chief Executive Officer. Bonito né? Depois fui apresentado para o CMO, o CFO e o COO, executivos de marketing, finanças e de operações, respectivamente. Todos jovens MBAs formados no exterior.

Ao percorrer a empresa passamos por salas vazias, mesas vazias e grandes áreas vazias. E os jovens CEO, CFO, CMO e COO diziam com orgulho: “Isto aqui já esteve apinhado de gente. Fizemos uma reestruturação ao longo dos últimos dois anos e reduzimos em 45% o numero de pessoas, enquanto nossa produtividade cresceu 22%! Fazemos questão de deixar esses lugares à vista de todos. São nosso Monumento à Incompetência.” 

Em minha palestra O Meu Everest afirmo que um dos ensinamentos mais importantes da viagem ao Campo Base da maior montanha do mundo foi aprender que, a cada vez que olhasse para cima, eu deveria olhar cinco vezes para baixo. Quem pratica montanhismo sabe do que estou falando. Quando você está no pé da montanha e olha a trilha que vai subir, dá um frio na barriga. Você vê as pessoas lá em cima, como formiguinhas, e sabe que para chegar lá terá que fazer uma escalada de oito, nove horas. Então ataca a montanha. Um passinho aqui… outro ali… num processo penoso. Quando olha para cima, percebe que seu objetivo ainda está muito longe, mas ao olhar para baixo a mágica acontece. Você descobre que o campo base de onde saiu está láááááá embaixo. Cada olhada para baixo dá a certeza de que você progrediu, gerando energia para subir mais. Isso é automotivação: a certeza do progresso nos empurra para cima.

O que aqueles jovens COs chamaram de “Monumento à Incompetência” é na verdade a lembrança dos pioneiros que, com a carga às costas, sem computadores, celulares e internet, assumiram o risco de sair lá do “campo base” para desenvolver o negócio que eles hoje dirigem. Avaliar o passado pelas lentes do presente e chamar de “incompetência” o esforço das pessoas que passaram pelos anos de hiperinflação, incertezas, regime fechado, tecnologias rudimentares, abertura econômica e dólar alto é como observar hoje as roupas de George Mallory e achar que ele era um incompetente. Não era. Usou o que havia de melhor na época e por pouco não atingiu seus objetivos.

Parabenizei os COs pelo sucesso e deixei com eles uma recomendação:

– Rebatizem os “Monumentos à Incompetência” como “Memoriais aos Heróis do Passado”. Foram eles que trouxeram vocês até aqui em cima.

Luciano Pires

A velha guarda

maio 21, 2011

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires.

Compareci a um jantar em homenagem a um colega que estava se aposentando após dirigir por anos uma empresa que fazia parte do grupo no qual trabalhei por 26 anos. Um convite irresistível: fui para Porto Alegre exclusivamente para rever amigos queridos que eu não encontrava já fazia um bom tempo. Imaginei que seria um jantar para uma dezena de pessoas e me deparei com uma centena!

Fui recebido com uma profusão de sorrisos e abraços, cabelos brancos, barrigas e traços envelhecidos, mas o mesmo calor humano. Quando entrei na sala de jantar fui encaminhado para uma mesa reservada.
A mesa da velha guarda.

Fiquei entretido no bate papo e quando o evento começou, várias referências foram feitas à mesa onde eu estava, à velha guarda. Todos com mais de 60 anos. Eu era o caçula, com meus 55. Somamos o tempo de experiência profissional de cada um e deu uns 500 anos!

Velha guarda…

Perdi a conta de quantos eventos participei ao longo da minha carreira, sempre com uma mesa para a velha guarda, que eu observava com curiosidade. Agora era minha vez. Olhei aquela moçada toda nos observando e senti uma sensação estranha, misto de angústia com perplexidade.

“Velha guarda” foi uma bofetada.

Enquanto eu assistia ao vídeo em homenagem ao colega que deixava a empresa, minha carreira passava diante de meus olhos. Lembrei-me da ansiedade com que, aos 26 anos de idade, caprichei na feitura de meu “curriculum vitae” para tentar emprego numa multinacional, 30 anos atrás! Então veio à minha mente Rubem Alves, sempre ele, que um dia escreveu:

“Um curriculum vitae é uma enumeração dos lugares por onde se passou, na correria da vida. As coisas que ele registra não existem mais. O que é passado está morto. Assim, na minha homepage, ao invés de curriculum vitae eu escrevi curriculum mortis, porque eu não sou o meu passado. Eu sou o meu agora”. Naquele momento mudei minha atitude. Para mim, aquela deixou de ser a mesa da velha guarda para ser a mesa onde estavam velhos amigos cheios de planos, sonhos e com energia para fazer acontecer.

Tudo que fiz em minha carreira serviu para construir minha história, para definir quem eu sou e do que sou capaz. Sou grato àqueles que me homenageiam pelo meu passado, que reconhecem minha contribuição, aos que valorizam o tempo que permaneceram ao meu lado, aos que acham que aprenderam algo comigo.  

Mas isso passou. Não existe mais. O que importa é o que eu farei amanhã.

Me aguardem.

Luciano Pires

O Lacraia

maio 14, 2011

Como todos sabem, nessa semana faleceu o artista chamado Lacraia, que fez muito sucesso a uns anos atrás. Ele, particularmente, influenciou e muito o Lucinao Pires, o qual reproduzo os textos no sábado.

Hoje, trago as palavras do Luciano Pires a respeito do fato.

Ladies and gentlemen, Luciano Pires.

“Marco Aurélio Silva da Rosa, mais conhecido como a dançarina de funk Lacraia morreu, aos 34 anos, na madrugada desta terça-feira.”

Recebi essa notinha lacônica pelo twitter dando conta da morte de um ícone brasileiro do começo do século 21. O Lacraia explodiu em 2003 quando a música Eguinha Pocotó tornou-se um dos maiores sucessos nas rádios e televisões do país.

Marco Aurélio criou um personagem andrógino, apelidado de Lacraia, que era um dançarino do funk carioca e causava furor onde se apresentava, menos pelos dotes artísticos e mais pela irreverência e quebra dos padrões. Assumia sua homossexualidade, beijava homens na boca e cantava trechos de letras pornográficas que faziam a platéia mais conservadora corar. Junto com Serginho, o criador da música, Lacraia foi fundamental para que eu criasse o conceito que gerou meu livro Brasileiros Pocotó, a palestra homônima e o propósito de “desemburrecer o Brasil”.

E hoje cabe repetir algo que venho dizendo desde 2003, incansavelmente.

O Lacraia era um daqueles artistas chamados “populares” que sempre existiram e existirão. Se voltarmos no tempo, encontraremos exemplos de pessoas que atuaram na mesma linha da transgressão às normas e obtiveram diferentes graus de sucesso. Esses artistas jamais foram o “mal” a ser combatido. Você pode gostar ou não deles, mas não pode negar-lhes o direito de existir. E nem negar às pessoas o direito de gostar deles.

O problema está na engrenagem que captura, tritura, processa e depois descarta esses indivíduos. E no meio do processo vende seu trabalho empacotado num “projeto de marketing” cuja intenção é única e exclusivamente vender a maior quantidade de CDs e shows no menor espaço de tempo possível. Essa engrenagem envolve empresários, gravadoras, produtores de eventos, produtores de rádio e TV que usam seus talentos para conquistar o gosto popular e vender, vender muito. Quando a moda passa, o artista é simplesmente descartado, como no caso do Lacraia que, pelo que consta, morreu praticamente sozinho num hospital.

Apesar disso, para um artista esquecido num gueto, tornar-se celebridade, mesmo que por pouco tempo, é muito bom. Para a indústria da música, que vai gerar empregos, também é bom. Assim como é bom para os consumidores que vão curtir um sonzinho sem qualquer compromisso.

Mas quando esses projetos de marketing ocupam todos os espaços, deixando de fora os talentos que são considerados “não vendáveis”, esse processo é ruim, por excludente. Alguém está escolhendo o que será veiculado pelos canais da mídia, e essa escolha é feita com base em… preconceitos. Ou não?

O personagem Lacraia era feliz, sempre sorridente, bem humorado e que se divertia com o que fazia. Pessoalmente eu não gostava de sua arte, mas ele tinha todo o direito de estar lá. Já o Marco Aurélio, que tinha que arcar com as conseqüências de suas escolhas, eu não sei.

Só posso lamentar a morte e desejar que, de algum modo, ele tenha deixado um legado.

No meu caso, deixou.

Luciano Pires

Felicidades

maio 6, 2011

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires.

“A felicidade e o dinheiro sempre estiveram conectados na minha vida. Se tenho grana é porque estou bem no trabalho, logo, bem comigo mesma. Porém há uma controvérsia: os momentos mais felizes que tive não dependeram de grana diretamente, mas do meu estado de espírito, de acreditar na vida, nas pessoas e na capacidade inigualável que tenho de me iludir.”

Essa interessante reflexão foi feita por uma conhecida. Comigo – e acho que com a maioria das pessoas – é parecido. Grande parte das coisas boas que vivi não dependeu necessariamente de grana. Porém, a maior parte das coisas boas que vivi, só vivi porque tinha grana.

Parece impossível fugir disso. Ao menos neste mundo.

Em minha profissão de palestrante e consultor sou exposto diariamente a altos executivos e donos de empresas, gente que tem muito dinheiro. E sabe de uma coisa? Nenhum deles chega nem perto das pessoas mais interessantes – e algumas das mais felizes – que conheço e que são, irremediavelmente, duras. Sempre batalhando por grana para pagar as contas no final do mês.

Isso me leva a concluir que existem dois tipos de felicidade: uma que se consegue com grana e outra que vem sem ela. É no equilíbrio dessas felicidades que está o segredo.

Aquela minha conhecida organiza eventos, lida com a área artística. E perguntei se ela já se imaginou como uma bancária ou funcionária pública pra garantir o sustento e poder fazer as coisas que ama. Ela estranhou a pergunta, e eu completei: o Carlos Drummond de Andrade, entre outras dezenas de artistas, poetas e escritores, viveu a vida como um burocrático funcionário público enquanto escrevia poesia. Imagine Drummond cercado diariamente de não-poetas e não-artistas, gente que não atingia seu grau de sensibilidade. Que tipo de conversas consumia seu tempo de vida? Os mesmos assuntos mundanos de nosso dia a dia? Será que ele era um sujeito feliz? Ou seria feliz apenas quando produzia suas poesias, que nada tinham a ver com sua fonte de renda?

Talvez aí esteja uma pista sobre o tal do equilíbrio: sangue de barata para suportar os pocotós e garantir o sustento. E inteligência para não se deixar contaminar pela burrice reinante, valorizando os preciosos momentos de nossas vidas que a mediocridade tenta desperdiçar. É justamente aí que surgem os mestres e os amigos especiais, mesmo os que não conhecemos pessoalmente , que nos inspiram a fazer as coisas que nos deixam felizes e que nada tem a ver com dinheiro.

Quer saber?

Felicidade é estar aqui escrevendo para você.

Luciano Pires

Celebrando o fracasso

abril 30, 2011

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires.

Antes de me dedicar a palestras, podcasts, radio e internet, fui executivo de uma multinacional. Por pouco tempo, só 26 anos… Numa das mudanças da empresa, lá por 1993, tive a chance de montar para meu departamento um escritório completo a partir do zero. Chamei a arquiteta e falei:

– Sem paredes!

E construí o que foi durante alguns anos o escritório de meus sonhos. Todo mundo conectado, respirando o mesmo ar, agitando. Sempre gostei de ação, gente falando alto e andando pra lá e pra cá. Isso garantia um certo caos criativo, adrenalina, tensão e a sensação de que as coisas estavam acontecendo.

No dia da mudança surgiu um impasse: onde colocar os vários troféus, placas, quadrinhos e todo tipo de objetos que um dia marcaram alguma premiação, conquista ou celebração? Não tive dúvidas: comprei um cestão de lixo bem bonito e transparente e coloquei todos os troféus dentro dele, inclusive os novos. E deixei bem à vista, na entrada do departamento. A turma estranhou, mas logo entendeu a mensagem: o sucesso do passado não garante o futuro.

Semana passada, limpando minha caixa postal encontrei um email:

“Olá Luciano. Sobre os livros apresentados, não tivemos sinalização positiva de nosso Conselho Editorial. Agradecemos sua atenção e estamos à disposição. Atenciosamente, Fulana de Tal, novembro de 2010”

Era uma resposta da Editora Saraiva, que me havia sido indicada por um conhecido como uma possível editora para meus livros. O recado implícito do email era: “seu trabalho não nos interessa”.

Formatei o email bem bonitinho, imprimi e pedi para emoldurar. Minha assistente estranhou:

– Pô, mas o conteúdo é negativo!

Pois é. Se aqueles troféus no lixo mostravam que o sucesso do passado não garante o futuro, esse quadrinho me lembrará diariamente que tem gente que não se encanta com meu trabalho, que o fracasso faz parte de meu dia a dia, que sou falível como qualquer ser humano. Que não estou com a bola toda.  E cada vez que eu entrar em minha sala e encontrar o quadrinho, vou me sentir provocado e desafiado:

– Ah é, é? Vou mostrar pra eles!

Isso é o que eu chamo de “celebrar o fracasso”: aprender com nossos insucessos, transformar os momentos em que quebramos a cara em novos pontos de partida. Receber um “não” como um desafio. Inverter o sinal, transformando o que deveria ser um fator desmotivador, numa provocação capaz de incendiar meu espírito e – acima de tudo – me inspirar.

Oba! O quadrinho chegou!

Deixa pendurar na parede.

Luciano Pires

A inércia

abril 25, 2011

Não pude manter atualizado o Blog nesse feriadão. Mas não deixarei os leitores do Blog sem as colunas do Luciano Pires e do Blog Inspiração Coletiva. Hoje será um post duplo.

Primeiramente o artigo do Luciano Pires. Com uma pergunta no final que é um soco.

Há exatos dez anos, depois de retornar de uma viagem transformadora ao Everest e observar nosso cenário político, social e cultural, concluí que o Brasil estava emburrecendo. E decidi resistir. Minha causa passou a ser o que chamei de “despocotização” do Brasil. Escrevi centenas de artigos, lancei livros, sites e palestras. Passei a comentar no rádio. E aos 52 anos deixei um sólido emprego para mergulhar na aventura de ser um empreendedor cultural brasileiro.

Não é fácil, viu? Todo dia é uma luta, mas acordo de manhã com uma coisa preciosa que havia perdido: tesão. O tesão de saber que estou lutando por algo que vale a pena, muito maior que simplesmente ganhar algum dinheiro. A causa que defendo, meu propósito, me anima, me motiva, me deixa disposto a seguir em frente. Deixa-me louco por brigar. Tira-me da inércia.

Issac Newton escreveu que “um objeto que está em repouso ficará em repouso até que uma força desequilibradora atue sobre ele.” É a Lei da Inércia, que se aplica a nossas vidas: quando encontramos uma zona de conforto, é lá que, inertes, permanecemos. O curioso é que a maioria das pessoas nem percebe que está inerte. Olha só: a coisa que você mais faz em seu dia a dia é repetir o que você fez no dia anterior. Você acorda igual, toma café igual, se veste igual, vai pro trabalho ou para a escola pelo mesmo caminho, almoça nos mesmos lugares. A maior parte de sua vida é consumida com repetições, até que uma força desequilibradora tira você desse ciclo. Uma demissão. Uma promoção. Uma desilusão amorosa. Uma tragédia.

Enquanto a força não surge, ficamos ali repetindo, repetindo, repetindo…

Para quebrar esse ciclo por iniciativa própria só tem um jeito: encontrar uma causa, um propósito. E agir com disciplina.

Comece por avaliar cada atividade importante que você pratica no dia a dia. Quanta satisfação (e sensação de que você está defendendo uma causa) essa atividade proporciona? Por exemplo, indo pro trabalho. Você toma um ônibus e fica dentro dele durante uma hora e meia. Quanto de satisfação e de sensação de que isso ajuda a defender uma causa você tem? Nenhuma? Pô, ficar 90 minutos dentro do ônibus é um tempo perdido, não é?

Pois é. Mas a simples constatação da contribuição nula que esse processo fundamental– o transporte de casa para o trabalho e vice-versa – traz para sua causa, já vai lhe colocar na posição incômoda de ter que fazer algo a respeito. Ajudará você a começar a superar a inércia.

– Se vou ficar 90 minutos dentro de um ônibus, vou ler um livro. Ou então comprarei um tocador de mp3 pra ir ouvindo uma aula de inglês! Ou, melhor ainda, pra ouvir o podcast Café Brasil do Luciano Pires! Em noventa minutos eu ouço três programas e faço com que aquele tempo até hoje perdido sirva para alguma coisa…

Sacou? Se você não avaliar cada processo que consome seu tempo de vida, em relação à causa que você defende, acabará se acostumando com eles. E permanecerá inerte, fazendo aquilo que é a nossa natureza: repetir hoje o que fizemos ontem. Até morrer.

Uma causa. Um propósito. Qual é o seu?

Luciano Pires