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Desenvolvimento Sustentável: é possivel?

dezembro 1, 2010

Excelente texto escrito por Marcus Eduardo de Oliveira. Vale a pena ler.

Em seu mais recente livro “Cuidar da Terra, Proteger a Vida”, Leonardo Boff assevera que: “Em 1961, precisávamos de metade da Terra para atender às demandas humanas. Em 1981, empatávamos: precisávamos de uma Terra inteira. Em 1995 ultrapassamos em 10% sua capacidade de reposição, mas era ainda suportável”.

No entanto, os alarmes disparados continuaram anunciando a expansiva agressão sofrida pela Terra. O calendário marcava o dia 23 de setembro de 2008 vaticinado pelos estudiosos como o Earth Overshoot Day, ou seja, o dia da ultrapassagem da Terra. A partir dessa data constatou-se, em escala universal, que a Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de suporte e reposição.

A partir disso, o que pensar, o que fazer? Continuar de forma desenfreada a exploração/dilapidação dos recursos naturais sem limites ou fazer a reversão de forma rápida? Continuar priorizando o mercado que exige mercadorias diversificadas a todo instante ou olhar com respeito e atenção redobrada para a qualidade de vida? Continuar com a prédica traçada desde os trabalhos seminais das ciências econômicas que pontuam que crescimento econômico é remédio eficaz para a cura dos males sociais ou fazer com que essa mesma ciência esteja submetida ao projeto de vida, cuja essência é a qualidade e não a quantidade?

Respostas a essas dúvidas estão soltas por aí, embora haja mais dissenso que consenso em matéria de se pensar a intrincada relação economia – natureza -recursos – desejos – produção – consumo.

Eric Hobsbawn, um dos maiores intelectuais do século XXI, a esse respeito já se posicionou: “Ou ingressamos num outro paradigma ou vamos de encontro à escuridão”. Por outro paradigma, o renomado historiador quer dizer que não basta fazer mudanças no sistema, é preciso mudar o sistema.

Destruir a natureza em troca dos apelos da voracidade do mercado de consumo é, antes disso, destruir as teias que sustentam a vida. O mercado, assim como toda a economia, depende de algo que está acima de tudo isso: a natureza. A economia, como atividade produtiva, é apenas um subproduto do ambiente natural e depende escandalosamente dos mais variados recursos que a natureza emana. Nós, seres humanos, como todos os seres vivos, somos partes e não o todo desse ambiente natural que contempla a riqueza do viver.

É forçoso ressaltar que não estamos na Terra; somos a Terra. Não ocupamos a natureza como meros partícipes dela; somos a própria natureza a partir do fato de sermos feitos de poeira estelar. Dependemos da natureza, das terras agricultáveis, da água, do ar, do sol, da chuva, do fitoplâncton (algas microscópicas unicelulares) e dependemos das estrelas. Isso não é prosa nem verso; é fato! São as estrelas, com uma capacidade ímpar de brilhar e, por isso, com o poder de nos afastar o medo da noite, que convertem hidrogênio em hélio pela fusão nuclear e, dessa combinação, permite-se aflorar o potássio, o oxigênio, o carbono, o ferro que vão se localizar nos aminoácidos (unidades químicas que compõem as proteínas) e nas proteínas (que formam os músculos, os ligamentos, os tendões, as glândulas, enfim, que permitem o crescimento ósseo). Sem isso a vida não seria possível. Somos natureza ainda por razões filológicas (estudo científico de uma língua). Não por acaso, somos originários do Adão bíblico (Adam, em hebraico, significa “Filho da Terra”), ainda que isso seja puramente metafórico. Somos natureza quando nos damos conta ainda de que pelo aspecto filológico a palavra homem/humano vem de “húmus”, cujo significado é “terra fértil”.

Cada vez que percebemos avançar esses assuntos, mais ainda vamos aprofundando a importância do tema. As preocupações ecológicas, vistas num passado não muito distante como apenas retóricas românticas, hoje, para nossa felicidade, ocupam a agenda das principais lideranças governamentais.

Em certa medida, parece ser consenso que estamos falando de uma perspectiva que envolve, na essência, a manutenção da vida pelos íntimos laços que temos para com a mãe Terra, também chamada Gaia.

Isso é do interesse de todos e de todas, e não mais dos praticantes da militância verde – os primeiros a chamar a atenção para esses graves assuntos.

Nesse pormenor, é oportuno resgatarmos a argumentação do educador canadense Herbert M. McLuhan (1911-1980): “Na espaçonave Terra não há passageiros. Todos somos tripulantes”.

A economia, sendo um espaço de conhecimento das ciências humanas, não pode prescindir de ajudar na disseminação de um discurso em prol da vida, e não a favor do deus mercado como tem sido freqüente desde o surgimento da Escola Clássica no século XVIII.

Discutir desenvolvimento pelas lentes das ciências econômicas é, antes de mais nada, pensar em aspectos qualitativos, e não na atual dimensão econômica dos projetos que apontam, unicamente, para o aspecto quantitativo. Perceber a economia apenas pela quantidade de coisas produzidas é um erro abissal que somente tem feito provocar ainda mais a cultura do desperdício e da falta de parcimônia em matéria de regular a atividade produtiva, ao passo que aprofunda o consumismo, essa chaga do sistema capitalista.

Ainda hoje, mesmo diante dos mais contundentes e acirrados discursos sobre a grave crise ambiental que se estabelece, apresenta-se como sendo uma boa política econômica aquela capaz de fazer o PIB subir, independente se esse crescimento se dará nas bases da exploração/destruição ambiental.

Esquecem ou ignoram os apedeutas que tudo que cresce muito, ou explode ou esparrama. Explodir, esparramar, significa, grosso modo, perdas, desperdícios. Crescer por crescer é a base das células cancerígenas. A economia não pode mais trilhar esse caminho. Isso leva à morte. Ora, isso não é solidificável; é altamente destrutível. O caminho de qualquer economia que apenas prioriza e faz de tudo para atender aos ditames do mercado que clama por mais produção e consumo, atingindo picos de crescimentos inimagináveis, é por todos conhecido: destruição, desmatamento, poluição, escassez, extinção das espécies.

É em nome desse modelo perverso e criminalmente responsável por mortes que o mercado é abastecido enquanto a natureza é descapitalizada, ao passo que a vida é posta em risco. Uma hora qualquer – e que não seja tarde demais – alguém irá perceber que as palavras do cacique Seatlle ditas ao governante norte-americano em 1854 estavam pontualmente certas: “(…) Eles vão perceber que não dá para comer dinheiro”.

Para o bem de todos é necessário aludir que não se pode medir crescimento de uma economia quando se derruba uma árvore, se polui um rio, se contamina uma nascente. Isso tem outro nome: insanidade.

Não há economia que prospere sustentavelmente nas bases dessa patologia. Para atenuar esse discurso, os economistas modernos criaram a expressão desenvolvimento sustentável. No entanto, não são poucos os que cometem outro equívoco na vã esperança de que essa palavra mágica (sustentável) seja de fato algo aplicável.

Todavia, resta-nos indagar: sustentável para quem? Como? Quando? Onde? A continuar a exploração desenfreada, não é possível sustentar esse crescimento. Logo, a expressão é, por si, falaciosa. Num projeto de desenvolvimento que se pauta pelas linhas mestras da competição, não é factível que seja algo sustentável, uma vez que essa competição, feita pelos mecanismos conhecidos, apenas produz exclusão à medida que uns poucos ganham e triunfam sobre a derrota de centenas de milhões de pessoas.

Se milhares são (e serão cada vez mais) os que engrossam (e vão engrossar) as fileiras da miséria e da penúria, como é possível afirmar se tratar de desenvolvimento sustentável? Só há sustentabilidade quando todos/todas participam, sem exclusão. Exclusão é conceito que não combina com a abrangência do termo sustentabilidade.

Ademais, argumenta-se, insistentemente, que o desenvolvimento sustentável é exeqüível, pois, um belo dia, a natureza irá responder pelas demandas dos recursos renováveis. Esquecem-se os que assim argumentam que o universo é finito; não aumentará de tamanho. Os recursos, muitos deles, vão acabar; muitos não são renováveis.

Assim, uma vez mais é oportuno chamar a atenção de que o termo “sustentável” é pouco confiável. L. Boff refletindo sobre isso no livro citado no início dessas palavras pondera que “(…) sustentabilidade deve ser garantida, primeiramente, à Terra, à humanidade como um todo, à sociedade e a cada pessoa”. A economia (ciência) em seus poucos mais de 230 anos precisará avançar muito ainda para englobar com primazia esse termo em seus predicados. Exclusivamente pelas raias da competição nada se conseguirá.

De toda sorte, a escala de valores que deve predominar então, caso queiramos priorizar a vida, deve incluir a cooperação, a partilha, a solidariedade, a comunhão, o compartilhamento. Definitivamente, o projeto econômico precisa estar à serviço da vida em suas dimensões, incluindo, principalmente, a perspectiva ecológica. Urge pensarmos na perspectiva de que o modelo aí posto está errado e já passou da hora de propor alternativa. A vida tem pressa e o relógio do tempo passa rápido demais.

A agricultura orgânica tem futuro?

junho 29, 2010

Matéria de Regina Scharf – Fonte: Página 22

Provavelmente não, segundo a pessimista Heather Rogers, autora de “Green Gone Wrong: How Our Economy Is Undermining the Environmental Revolution”, que acaba de sair nos Estados Unidos. O livro – que poderia ser traduzido como “O Verde que não deu Certo: como a Nossa Economia está Minando a Revolução Ambiental” – discute como os negócios com foco na sustentabilidade muitas vezes descarrilam devido às forças do mercado. Para Rogers, o modelo capitalista focado no crescimento constante compromete a virtude desses projetos. “Quando grandes empresas, como a General Mills, Kraft ou o Wal Mart impõem um aumento na escala da produção de orgânicos e exigem uma oferta de produtos constante e uniforme, têm de sair pelo mundo em busca de fornecedores”, explica a autora, numa entrevista (em inglês) dada na semana passada à rede pública de rádio e TV PBS.

Essa demanda impõe, por exemplo, o desmatamento de matas nativas para a expansão das culturas – veste-se um santo mas deixa-se outro pelado. Rogers cita o exemplo de uma produtora de açúcar orgânico do Paraguai que abastece um terço do mercado norte-americano. Para conseguir atender seus clientes, a empresa teve de entrar mata adentro – e as normas norte-americanas não vêem aí nenhum problema. Ela cita também o caso da Organic Valley, a maior cooperativa orgânica s e uma das maiores produtoras de laticínios orgânicos dos Estados Unidos, que teve que interromper as suas vendas para o megavarejista Wal-Mart porque teria de multiplicar sua escala de produção, comprar de grandes produtores industriais e reduzir a qualidade do produto e do serviço.

Além disso, a autora argumenta que o sistema vigente torna a produção orgânica inviável economicamente. Ela entrevistou uma série de pequenos produtores que não estão conseguindo alcançar a estabilidade financeira. Ela exemplifica com o caso de um produtor rural que só ganha US$ 7 por hora, mesmo cobrando US$ 14 por uma dúzia de ovos. Segundo ela, ele não é uma exceção. “Segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA)”, diz Rogers durante a entrevista, “de 85% a 95% da renda desses produtores vêm de outras fontes, como o trabalho para terceiros, herança ou a renda do cônjuge. Esse modelo de produção pode ser ambientalmente sustentável, mas não o é economicamente, porque demanda muito mais trabalho e porque, para se produzir localmente, é preciso estar perto de uma área de população adensada, onde a terra é muito mais cara. Por fim, esses produtores também não têm muito apoio do USDA, que destina apenas 2% do seu orçamento de pesquisa para a produção orgânica. E a extensão e o crédito rurais também são muito mais focados na produção convencional”. Tudo isso faz com que o produto final seja muito caro. Embora os Estados Unidos vivam um boom de “farmers markets” – feiras em que os produtores oferecem alimentos locais e orgânicos à população -, esse tipo de comércio não poderá crescer indefinidamente, porque seus preços são inacessíveis à maior parte da população.

Para Rogers, a agricultura orgânica é válida e merece incentivos – mas é improvável que esse modelo venha a se tornar dominante.

Economia, entropia e descrecimento econômico

junho 15, 2010

Texto muito bem escrito sobre os limites desse nosso crescimento desrespeitoso com o Mundo.

De Marcus Eduardo de Olievira

Numa determinada época em que o crescimento econômico parecia ser a única saída para promover o bem-estar dos povos, houve um especialista em economia, versado em matemática e estatística, vindo da Romênia, que ousou desafiar o discurso tradicional e discorreu palavras fortes em sentido contrário a uma lógica que parecia, até então, irretocável.

Esse especialista, em seu tempo, disse, dentre outras coisas, que “os níveis de crescimento da economia não mais poderiam prosseguir sem que as gerações futuras pagassem o ônus da irresponsabilidade”.

Era fundamental, todavia, que todos entendessem que o desenvolvimento humano dependeria da retração da atividade econômica, ou seja, de certo encolhimento, e não de uma expansão sem freios e a qualquer preço do produto.

Esse especialista entendeu, contudo, antes de muitos outros, que a civilização em busca do progresso a qualquer monta carregava, em si, um caráter destruidor. E percebeu mais. Discorreu que energia (um dos fatores de produção que não era mencionado nos termos técnicos das ciências econômicas), economia, entropia e ecologia eram termos e conceitos que não podiam ser discutidos (e ensinados) em separado, como até então se praticava.

O futuro da economia e a economia do futuro para esse especialista não estava condicionado, portanto, a taxas altas de crescimento do produto, mas, sim, em sentido contrário: era necessário àquela altura desencadear a retração da atividade econômica (produção e consumo), ou seja, propor, de imediato, o “decrescimento econômico”, pois o progresso, nos moldes em que estava se consolidando, era potencialmente gerador de caos e desordem.

Essa determinada época a que fizemos alusão foram os anos 60 do século XX. Até então, pouco ou quase nada se falava de forma enfática nos ditos “limites do crescimento econômico”, pois pouco se associavam às relações da economia com as da ecologia, embora, tempos antes (1869), Ernst Haeckel (1834-1919) em seu livro “Generelle Morphologie des Organismen” tenha chamado a Economia de “ciência da natureza”.

Todavia, pouco tempo depois dos anos 60, mais precisamente em 1972, dava-se início a primeira conferência em escala internacional para se discutir a atividade econômica e seus impactos sobre o meio ambiente. Estocolmo, capital sueca, recebia então a delegação de 113 países na “Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano” (United Nations Conference on the Human Environment).

Onze anos depois desse primeiro encontro, a Organização das Nações Unidas (ONU) criavam a “Comissão Mundial para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento”. Dessa Comissão surgiria, tempos depois, o relatório, “Nosso Futuro Comum”, também intitulado de “Relatório Brundtland” (Our Common Future – Brundtland Report); uma espécie de “filho legítimo” de outro importante relatório produzido pelo Clube de Roma, em 1972, “The Limits to Growth”, (Os Limites do Crescimento) assinados por Donella Meadows, Dennis Meadows e Jorgen Randers que usando um simulador (world 3) descreviam as interações entre as ações humanas e os impactos ambientais.

Contudo, o ponto principal levantado pelos estudiosos que assinaram esses documentos, em especial, o Relatório Brundtland, afirmavam que:

A economia global deve atender às necessidades e desejos legítimos das pessoas, mas o crescimento tem que se adequar aos limites ecológicos do planeta.

Em especial essa Comissão, batizada como vimos de Comissão Brundtland devido à sua presidente, Gro Bruntland, médica e primeira-ministra da Noruega, pediu “uma nova era de desenvolvimento econômico ambientalmente saudável”.

O Relatório citado ainda atestava que:

A Humanidade tem a capacidade de tornar o desenvolvimento sustentável – de assegurar que ele atenda às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades.

A partir desses encontros internacionais, ainda que timidamente, a comunidade acadêmica começava a ensaiar suas observações consistentes sobre a relação economia e meio ambiente.

Todavia, foi a partir de determinado momento, mais precisamente nos anos iniciais da década de 1970, que as Leis da Economia e as Leis da Física, em especial, as Leis da Termodinâmica tiveram, entre si, uma relação mais próxima a partir do trabalho pioneiro (1) daquele especialista em economia que começamos a fazer menção no início do texto.

Isso se deu por conta, exclusivamente, da inter-relação existente entre a economia e a preservação do meio-ambiente, envolvendo as variáveis econômicas e os conceitos básicos que decorrem desses campos de análise (Economia), com ênfase específica na entropia (Física) (2). Não à toa, os manuais de Economia atestam que a Ciência Econômica é um corpo de conhecimento bem articulado, assim como a Física.

Conquanto, dessa simbiose, aparentemente complexa, podemos exaltar dois nomes que, tanto no campo da Física quanto na Economia ainda deverão, com a justiça implacável do tempo, terem loas tecidas acerca de suas contribuições para esses campos de conhecimento, num futuro próximo.

O alemão Rudolf Clausius (1822-88), pelo lado da Física, e o romeno Nicholas Georgescu-Rogen (1906-94), pelo lado da Economia, são esses personagens “esquecidos” num canto qualquer da história do pensamento.

N. Georgescu-Rogen é o nosso “personagem” aqui referido deste o início do artigo. Dele, Paul Samuelson, prêmio Nobel em Economia, chegou a dizer ser “o professor dos professores e o economista dos economistas”.

As Duas Primeiras Leis da Termodinâmica e a origem do termo Entropia

Destarte, foi somente a partir dos anos 1970, como já afirmamos, que as leis da termodinâmica passaram a exercer influência no campo de análise de alguns economistas, embora, ainda nos dias de hoje, quarenta anos depois, pelos Manuais ditos tradicionais de Economia, o nome do economista romeno Georgescu-Rogen é, absurdamente, “ocultado” no ensino universitário em Economia.

Estranhamente, Georgescu-Rogen, um dos mais brilhantes economistas do século XX, foi (e tem sido) simplesmente deixado de lado nos debates que envolvem a questão crucial do crescimento econômico e, muitos são os apedeutas de plantão (apesar de revestidos de tom professoral), nos dias hodiernos, que continuam ensinando a Economia como se fosse apenas e tão somente um sistema totalmente “desacoplado” do meio ambiente.

O sistema econômico, é importante pontuar isso, é apenas um subsistema de um sistema maior, chamado meio ambiente. A economia (enquanto atividade produtiva) deve estar submetida a um sistema maior chamado ambiente, e não o contrário.

Quanto ao termo Entropia, cabe apontar que originalmente “entropia” (troca interior) surgiu como uma palavra cunhada do grego de “em” (en – em, sobre, perto de…) e “sqopg” (tropêe – mudança, o voltar-se, alternativa, troca, evolução…).

Pela entropia, no entanto, é permitido avaliar-se a degradação da energia de um sistema. Com isso, mede-se o grau de desordem de um sistema. Tudo isso está envolto em uma única questão: a produção. Esta envolve, entre outros fatores, a energia. Assim, um postulado a ser considerado, a partir desses dados, é que o uso da energia é um dos fatores (não o único) determinante da atividade econômica.

Para caracterizar, de fato, a entropia, é recomendável recorrer ao físico italiano Enrico Fermi (1901-54), um dos pais da bomba atômica. Em seu Thermodynamics, ele define a primeira lei da termodinâmica:

A primeira lei da termodinâmica é essencialmente a afirmação do princípio de conservação da energia para sistemas termodinâmicos. Como tal, pode ser expressa do seguinte modo: ‘A variação de energia num sistema durante qualquer transformação é igual à quantidade de energia que o sistema troca com o ambiente’. Esta primeira lei não coloca limitações sobre as possibilidades de transformação de energia de uma forma para outra. (3)

Ora, essa possibilidade ilimitada de transformação é à base de toda a civilização do progresso. Já a segunda lei da termodinâmica impõe severas limitações: “É ímpossível uma transformação cujo resultado final seja transformar em trabalho todo o calor extraído de uma fonte” (postulado de Kelvin).

Voltando um pouco nossa análise para o campo da Economia, é mister afirmar que infelizmente, em muitos casos, em que pese consideráveis eventos e alertas evocados em todos os cantos, ainda parece prevalecer dentro do ensino das ciências econômicas, o paradigma que insiste em orientar tal campo do conhecimento baseando-a, como pressuposto de análise geral, apenas sobre a visão do diagrama de fluxo circular, envolvendo empresas e famílias, de um lado, e os mercados de bens e serviços e de fatores de produção, de outro.

Sobre esse assunto específico, dessa visão estreita da economia sobre um fluxo circular “fechado” que não permite outros “inputs e outputs”, é importante resgatar aqui os comentários de Andrei Cechin quando afirma que:

O diagrama do fluxo circular apresenta uma visão irreal de qualquer economia, por considerá-la como um sistema isolado no qual nada entra e nada sai, uma vez que nessa concepção nada existe no exterior dele mesmo. A visão que comumente se tem da economia é a de que ela é uma totalidade. O diagrama é estritamente uma representação da circulação do dinheiro na economia e dos bens em sentido reverso, sempre dentro dele mesmo, sem absorver materiais e sem ejetar resíduos.

Se a economia não gera resíduos e não requer novas entradas de matéria e energia, então se trata de uma máquina de moto-perpétuo, ou seja, uma máquina capaz de produzir trabalho ininterruptamente, consumindo a mesma energia e valendo-se dos mesmos materiais. Tal máquina seria um reciclador perfeito. Todavia, isso contradiz umas das principais leis da Física: a segunda lei da termodinâmica, a lei da entropia. (CECHIN, op. cit. p. 40-41)

Em relação à Termodinâmica, Clausius, é, pois, considerado um dos fundadores dessa corrente de pensamento. Mas, de fato, o que consiste essa lei? Formulando-a da seguinte maneira as suas duas primeiras leis termodinâmicas, e dito agora de outra forma, Clausius enunciou que:

(1° Lei) – “A energia do Universo é constante”;

(2° Lei) – “No Universo, a entropia se move continuamente no sentido de um máximo”.

Pela primeira lei da termodinâmica, as quantidades totais de energia e de matéria do universo são constantes; nem a matéria, nem a energia podem ser criadas ou destruídas.

A segunda lei – a lei da entropia -, é essencial para ir além da mecânica, nos diz Charles Muller (4).

A importância do conhecimento: a base da economia do futuro

Além dessa importante questão em torno dos recursos naturais e de sua desejável relação confortável com o meio ambiente, entendida sob os conceitos emprestados da Física (entropia e termodinâmica) outro assunto que começa a ganhar notoriedade diz respeito a uma nova maneira de encarar a economia.

Se não bastasse atentar aos fatos que envolvem a ecologia respaldado num padrão aceitável de produção que não agrida a natureza, essa “nova economia” que vem sendo “desenhada”, desde suas linhas mestras vindas das contribuições da escola neoclássica (valorização da ação humana e desenvolvimento do capital humano, pela teoria do crescimento endógeno) apontando para a questão do “saber, fazer” (no sentido de competência e procedimento técnico); ou seja, o fator chamado “conhecimento”.

Isso, na essência, é reprodutível, praticamente a custo-zero, em quantidades ilimitadas. Esse “saber” é transmitido indefinidamente, não sendo, pois, uma exclusividade privada.

Sem dúvida, tal fato tem sido um poderoso ingrediente dessa economia imaterial, cujos bons e ilustrativos exemplos são a indústria cultural, a publicidade (em todas suas dimensões incluindo design e inovação mercadológica), o marketing e a informática.

A esse critério é forçoso ressaltar que, de certa forma, por não ser passível de mensuração, essa “nova economia” põe por terra os conceitos fundamentais da antiga economia política: o trabalho, o valor e o capital, todos mensuráveis, sendo que compunham, de sua parte, o cabedal analítico e quantitativo da economia.

Ainda sobre essas novas mudanças na economia, Alvin Toffler, um dos mais respeitados pensadores modernos, afirma que está acontecendo uma verdadeira revolução – a mais profunda desde a Revolução Industrial, em termos de pensamento econômico.

Cada vez mais, diz Toffler “a riqueza está baseada no conhecimento, não nos fatores clássicos de terra, trabalho ou capital” (fatores de produção) como sempre quis a tradicional Teoria Econômica.

Indiscutivelmente, nos dias que correm, o “saber” pode ser considerado como a principal força produtiva.

A economia do futuro e o futuro da economia, é importante frisar, nos dizeres de Toffler passa, então, pelo conhecimento (saber, fazer) como sendo a principal forma de capital. Isso guarda, em nossa visão, estreita relação com o fundamento de base da economia: a qualidade, e não a quantidade.

Embora a economia tenha se soerguido sobre os critérios quantificáveis, isso não mais passa a ter presença criteriosa em termos de avaliar-se o desenvolvimento de um local.

Quantidade, é mister ressaltar esse ponto, se relaciona apenas com crescimento (fazer o produto crescer), ao passo que o desenvolvimento envolve, pois, a qualidade, incluindo, é claro, atingir bem-estar. Assim nos parece que a economia tem sempre mais necessidade de parâmetros qualitativos que quantitativos.

Essa é a mesma linha de análise desenvolvida pela chamada Economia Cognitiva (a economia imaterial), ou o “capital cognitivo” que tem em Thierry Gaudin e no teórico social André Gorz seus principais defensores.

Esses fatos, por si só, derrubam o alicerce dos pressupostos tradicionais acerca do capital e abre um rombo na própria definição de economia como “a ciência da alocação de recursos escassos”.

Nesse aspecto, a base da economia deixa de ser material (fatores produtivos pré-conhecidos) e passa a estar, sobretudo, no ser humano (com ele), pois se solidifica no imaterial (no conhecimento, difícil, por sinal, de ser mensurado).

André Gorz, por sua vez, acrescenta que “em uma verdadeira economia cognitiva, o padrão econômico deveria estar a serviço da cultura e da realização de si e não o contrário, como ocorre hoje”.

Ademais, esse teórico francês lembra ainda que tal critério é encontrado na obra de Marx, quando o filósofo alemão escreve que a verdadeira riqueza é “o desenvolvimento de todas as energias humanas enquanto tais, não mensuradas por um parâmetro constituído a priori”.

Talvez, por esses aspectos, a Economia esteja reiniciando, ainda que tardiamente, um novo capítulo, passando a não ser mais encarada (e ensinada) apenas pela ótica da “Lei da Escassez” e do fato de que tudo é possível em termos de expansão produtiva, desrespeitando-se, assim, a existência de qualquer limite.

Nesse pormenor, inscreve-se a Lei da Entropia e a visão de que o conhecimento (know-how) são elementos fundamentais e passam a serem vistos como ferramentas indispensáveis à boa conduta econômica.

Com esse sentido, o conhecimento supera, de longe, a idéia básica da “lei da Escassez” que predominou até então nas ciências econômicas, até porque, em se tratando de “saber-conhecer” não há espaço para qualquer limite (escassez). Ao contrário: o conhecimento passa a ser uma ferramenta potencialmente capaz de se reproduzir até com certa facilidade, em tempo integral e, como dissemos, a baixíssimo custo.

Logo, se uma nova economia está em ebulição ela tende a ser, no mínimo, revolucionária, pois supera uma fase estabelecida e se imiscui com força na elaboração de um novo paradigma.

Conquanto, que essa revolução não perca, em momento algum, a essência de ser desse campo do conhecimento chamado Ciência Econômica, qual seja: a idéia de que a economia tem a ver com a busca pela felicidade. O objetivo dessa ciência, antes de qualquer outro, é promover a felicidade das pessoas. Que assim seja.

Notas:

Referência a The Entropy Law and the Economic Process (Cambridge: Harvard University Press, 1971) de N. Georgescu-Rogen.
(2) Entropia é o conceito utilizado pelos cientistas para explicar, por exemplo, por que os cubos de gelo derretem numa calçada quente. A lei de conservação da energia, correspondente à primeira lei da termodinâmica, não explica tal fenômeno. (CECHIN, Andrei. “A Natureza como Limite da Economia – A Contribuição de Nicholas Georgescu-Rogen”. Editora SENAC/EDUSP, S. Paulo, 2010).

(3) Entrevista de Mario Bruno Sproviero, professor titular DLO-FFLCH-USP. Entrevista e edição feitas por Jean Lauand, em 10.07.2001.

(4) “Economia, Entropia e Sustentabilidade: Abordagem e Visões de Futuro da Economia de Sobrevivência”, de Charles Muller, professor titular de Economia da UnB – Universidade de Brasília. Est. Econ. São Paulo, Out-Dez de 1999.

O que deveria e o que é de fato

junho 6, 2010

Encontrei um texto de Marcus Eduardo de Oliveira, Economista e professor do UNIFIEO, da FAC-FITO e da Faculdade de Vinhedo, que trata sobre a economia, desenvolvimento social e felicidade. Ele pergunta ” se a economia, por ser uma ciência social – uma ciência que na visão de muitos lida o tempo todo com o “estudo do dinheiro” – têm algo a ver com esse papo de se obter ou não felicidade, de ser ou de apenas estar feliz? ”

A resposta foi essa:

Felicidade envolve, na essência, pensar antes nas pessoas. Em se tratando de pessoas, isso envolve, por conseqüência, visualizar a condição humana e, a condição humana, por sua vez, envolve e contempla determinados aspectos que são inerentes à ciência econômica. Simples, não! Economia então, por esse prisma, tem tudo – e mais um pouco – a ver com a vida das pessoas, até mesmo porque essa ciência é social e, por ser social, necessita ser humana à medida que é feita pelos homens e para os homens, com uma única tentativa: efetivar a dignidade das pessoas.

Segundo o ponto de vista do autor, os problemas sociais, que podem ser associados às imperfeições do sistema econômico, têm soluções nos caminhos onde a economia transita. Para tanto, a economia precisa atentar-se para o bem-estar humano.

Seguindo com a sua argumentação, ele termina o texto com o seguinte parágrafo:

Com o instrumental analítico de que dispõe a Economia, é possível criar-se suficientes e adequadas condições de esforçarmo-nos para viver de modo a promover o progresso da raça humana. Com isso, espera-se que as forças econômicas cooperem para com as necessidades sociais. Alcançando isso, certamente todos ganharemos!

Ao terminar de ler o texto, algumas idéias e perguntas passaram por esses meus neurônios inquietos. O texto foi um grande estímulo para falar sobre uma visão ampliada e diferente que temos que ter.

Para um economista, dizer que a Economia é a salvadora da pátria, é default. Ele fala sobre colaboração, desenvolvimento social e tudo mais. Acredito nisso também. Porém a visão da economia ainda está baseada em algumas premissas que devem ser revistas:

  1. O conceito do homo-economus: a redução do homem a apenas duas funções: consumir e produzir. Você só faz isso?
  2. Ainda não há clara a inserção da natureza como necessária ao bem estar social. Enquanto ela for vista como apenas um almoxarifado de recursos, não iremos progredir;
  3. A idéia de que crescer sempre é bom! Por que temos que sempre crescer? Há apenas 1 planeta!!!
  4. A função da empresa é gerar lucro. As empresas sociais estão aí para mostrar o contrário.

Essas são algumas idéias dogmas da economia. Se mudarmos elas, o resultado será a Economia? Acho que será outra coisa.

A questão que fica é essa: Quem quer reescrever as teorias econômicas, não sabem como fazer, e as pessoas que podem, não querem. E ai?

Provoco os leitores.

Saudações,

DC