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Não ao Desemprego

maio 18, 2010

Segue o texto de José Saramago sobre o desemprego. Não preciso dizer mais nada, o autor já fala por si…

Não ao Desemprego

Por José Saramago

Diante das manifestações que se estão preparando em toda a Europa, de protesto contra o desemprego, escrevi, a pedido de um grupo de sindicalistas, o texto que a seguir se reproduz.

Não ao Desemprego

A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.

Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?

Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.

E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?

Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cubertas por contratos blindados?

O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimiento, quer dizer, o seu trabalho.

Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.

Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas.

José Saramago

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100 passos

março 23, 2010

Todo dia, no caminho do trabalho, passo ao lado de um posto da central de amparo ao trabalhador (CAT) que fica na Rua São José – centro do Rio de Janeiro. Presumo que o horário de abertura de um lugar assim seja por volta das 8:30 / 9:00 da manhã.

Hoje passei no horário de 7:50 e a fila estava grande. 100 passos. Contei. Juro. Pessoas de todas as características: jovens, maduras, baixas, altas, magras, não-magras. Todas esperando abrir a central para buscar um emprego.

Para mim que sou um empregado de carteira assinada, fundo de garantia, plano de saúde e tudo mais, é um choque de realidade. Tive a oportunidade e um privilégio de não precisar passar por isso. Contudo, solidarizo-me por todos que estão ali. Passo ao lado deles mentalizando sorte e sucesso para todos alí. Um por um.

Nessa cena temos duas coisas que gostaria de explorar: o desemprego e a capacidade de solidarização do homem.

Sabemos que o nosso atual sistema econômico possui como um instrumento de trabalho o contingente de desempregados. Utiliza-se para forçar os empregados a aceitarem condições contratuais exploratórias. Com o discurso de “Se não está satisfeito, há uma fila atrás de você que aceitaria” muitas empresas detém seus empregados. Mesmo que o discurso não seja verbalizado, com certeza ele está presente. E, ao invés de manter o empregado pela admiração, orgulho de exercer a atividade, ele se mantém no emprego por medo. E ainda falam em ventir a camisa da empresa.

Vestir a camisa da empresa. Estar comprometido com os resultados. Ter “sangue no olho” (caso você leve um soco, terá o mesmo efeito). Estas são expressões que são muito utilizadas no meio corporativo. Falam de gerenciamento da motivação do empregado. Um artigo na revista Época Negócios do mês de março/2010 traz um pequeno artigo sobre uma nova visão da motivação. O autor defende que no passado a motivação do empregado estava relacionada a sobrevivência. Trabalhar para comer. Depois veio o sistema cenora e porrete. Agora ele propõe o sistema de benefícios intangíveis ou emocionais. Estamos chegando a um caminho melhor, porém ainda com muita estrada por percorrer.

Fazendo uma pesquisa rápida no google com o tema “vestir a camisa da empresa”, encontrei uma frase no blog do Rodrigo Strauss:

“Eu não visto a camisa de empresa nenhuma pelo simples fato de que nenhuma empresa até hoje vestiu a minha camisa”

Muito boa frase. Não acha? Ele clama o sentido da reciprocidade, da empatia.

Nenhuma relação pode ser duradoura se não haver confiança e respeito. Não é? Adicionaria também nessa lista a empatia. A capacidade de você se colocar na posição do outro e enxergar a situação pelo outro lado.

Você é empático? Procura se posicionar em outro ponto de vista para ter uma melhor visão do todo?

Se você respondeu não, você acaba de me dar o gancho para o próximo assunto: a solidariedade. Ela se inicia quando nos sentimos incomodados com uma situação do outro e agimos para ajudar. Simplesmente isso. Ajudar para que aquele sofrimento que atinge o outro acabe. Sem esperar nada. Quer dizer, esperar que o sofrimento que você compartilha com o outro acabe também.

Empatia gera solidariedade que gera gentileza. E gentileza gera gentileza. Todos aqui no Rio de Janeiro sabem disso.

E assim cria-se um círculo virtuoso.

Queria voltar a escrever um novo post onde o tamanho da fila seja de apenas 2 passos…

A Dois Passos do Paraíso
Composição: Evandro Mesquita/Ricardo Barreto

Longe de casa
A mais de uma semana
Milhas e milhas distante
Do meu amor
Será que ela está me esperando
Eu fico aqui sonhando
Voando alto
Perto do céu…

Eu saio de noite
(Uh, uh, uh)
Andando sozinho
Eu vou entrando
Em qualquer bar
(Uh, uh, uh)
Eu faço meu caminho
O rádio toca uma canção
É o que me faz
Lembrar você
Eu fico louco de emoção
E já não sei
O que vou fazer…

Estou a dois passos
Do paraíso
Não sei se vou voltar
Estou a dois passos
Do paraíso
Talvez eu fique
Eu fique por lá
Estou a dois passos
Do paraíso
Não sei por que eu fui dizer
Bye bye…

Bye bye baby
Bye bye…(2x)

A Rádio Atividade leva até vocês
Mais um programa da séria série
“Dedique uma canção a quem você ama”.
Eu tenho aqui em minhas mãos uma carta,
Uma carta de uma ouvinte que nos escreve
E assina com o singelo pseudônimo de
“Mariposa apaixonada de Guadalupe”
Ela nos conta que no dia que seria
O dia do dia mais feliz de sua vida
Arlindo Orlando, seu noivo
Um caminhoneiro conhecido da pequena
E pacata cidade de Miracema do Norte,
Fugiu, desapareceu, escafedeu-se
Oh! Arlindo Orlando
Volte, onde quer que você se encontre
Volte para o seio de sua amada
Ela espera ver aquele caminhão voltando
De faróis baixos, e pára-choque duro.

Agora uma canção
Canta pra mim,
Eu não quero ver
Você triste assim….

Bye bye baby bye bye

Estou a dois passos
Do paraíso
E meu amor, vou te buscar
Estou a dois passos
Do paraíso
E nunca mais vou te deixar
Estou a dois passos
Do paraíso
Não sei por que eu fui dizer
Bye bye…

Para terminar uma frase de Pierre Nouy de “O homem e o seu Destino”

Não existe outra via para a solidariedade humana senão a procura e o respeito da dignidade individual “

Faça algo pelo mundo hoje: solidarize-se.

Abraços,

DC