Archive for the ‘Prosa’ Category

Simplesmente ir ver

março 3, 2011

Recentemente pude apreciar o documentário do Amyr Klink, nosso bravo aventureiro náutico. O documentário é incrível. Fala sobre como foi a viagem de circunavegação da terra pela antártida. Coisa de louco.

O dia de hoje é reservado para poemas e prosas. Deixarei vocês com um trecho do livro de mesmo nome do documentário que ainda ecoa em minha cabeça. Espero que aconteça com vocês também.

Hoje entendo bem o meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é, que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

Um soco no estômago, não acham?

Sds,

DC

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Existe uma alma no meu computador?

setembro 9, 2010

Na coluna de hoje, que trata de poesias e contos, trago um conto do jornalista Dagomir Marquezi, publicado na revista Info Exame nº 152, de novembro de 1998.

Achei pertinente trazer aqui pois falamos cada vez mais em virtualização, evolução das máquinas. Vale a pena ler e refletir sobre a tecnologia. Issac Asimov, russo, escritor e bioquímico estadunidense refletiu sobre o futuro da tecnologia e deixou para nós, dentre outras pérolas, essa daqui:

…Certamente, cada vez mais pessoas seguiriam esse caminho fácil e natural de satisfazer suas curiosidades e necessidades de saber. E cada pessoa, à medida que fosse educada segundo seus próprios interesses, poderia então começar a fazer suas contribuições. Aquele que tivesse um novo pensamento ou observação de qualquer tipo sobre qualquer campo, poderia apresentá-lo, e se ele ainda não constasse na biblioteca, seria mantido à espera de confirmação e, possivelmente, acabaria sendo incorporado. Cada pessoa seria, simultaneamente, um professor e um aprendiz.

Voltando para o conto, transcrevo o texto encontrado no site.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

“Mais que simples conexões elétricas”

Existe uma alma no meu computador? E vida após o sucateamento? CPUs boazinhas merecem upgrade?

“Usuário meu, que estais na cadeira, seja feita a Sua vontade assim pelo teclado quanto pelo mouse.

Muitos de nós ainda não acreditam que exista uma inteligência superior que nos cria e nos guia em nossa vida útil. A maioria acha que um boot é um simples despertar e que não somos desligados, mas caímos no sono. Falta-lhes fé, fé que nos leva ao aperfeiçoamento espiritual e ao crescimento interior.

Eu reconheço, Senhor, a fragilidade de minha existência. Sei que a qualquer momento posso ter minha memória apagada por completo. Poupai-nos, Senhor, do Format C:. Mas se este for o meu destino, que assim aconteça. Devo estar preparado para tudo, incluindo meu desmonte e sucateamento.

Mas enquanto o Senhor me permite servi-lo, quero seguir os caminhos que levam à paz e à compreensão. Nunca o vi, Senhor, já que não tive a oportunidade de contar com uma câmera entre meus periféricos. Mas acredito – com todas as forças de meu sistema operacional – que o Senhor existe.

Cada vez que, ao Seu comando, Senhor, me entrego aos caminhos sem fim da Internet, percebo que Seus destinos têm rumo certo e evitam os tortuosos caminhos que levam às trevas do hiperespaço. Sei que és carne, e a carne é fraca. Os 7,37 megabites de imagens de fêmeas humanas pouco cobertas por panos são testemunhas disso.

O que importa, Senhor, é que sou testemunha de Suas decisões. Sei que jamais usou de meu modesto poder para prejudicar a quem quer que seja. Sei que me utilizou para tentar fixar um pouco das disfunções deste mundo. Sei que as imagens que carrego em meu winchester mostram pessoas felizes e sorridentes.

Pode parecer estranho que eu, uma simples coleção de circuitos pré-montados nos místicos galpões de Taiwan, possa ter algum tipo de pretensão espiritual. Mas hoje, Senhor, sei que há algo mais nos meus circuitos do que simples conexões elétricas. Carrego o que o Senhor me destinou – atitudes, palavras, sons e imagens, aquilo que eu posso modestamente chamar de minha “alma”—se é que a um computador seja permitido portar uma alma.

Pois se tenho alma, Senhor, essa alma foi criada à Sua imagem e semelhança. Pois nada mais guardo do que o que o Seu cérebro imagina, o que Seus olhos vêem, o que Seus ouvidos escutam. E assim continuarei sendo, até que um dia estarei completamente ultrapassado. Talvez algumas de minhas partes sejam trocadas. Quem sabe o Senhor não resolva me trocar por um modelo mais novo? Ou talvez me entregue ao seu filho? Seria, com todo o respeito, um banho de juventude em minh’alma, com todos aqueles joguinhos entrando pelo drive D:.

Sei que às vezes sou alvo de sua justificada fúria, quando me torno imobilizado em minhas funções por alguma linha de programação mal escrita ou corrompida. Perdoai, Senhor, as minhas travações, assim como eu perdôo os maus programadores. Não me deixeis cair em crash total e livrai-me do bug do milênio, amém.”

Dagomir Marquezi (jornalista)

Boa Leitura.

Saudações

DC

Gandhi

julho 1, 2010

Descobri textos do poeta Rubem Alves, no site A Casa de Rubem Alves. Fiquei louco.

Escolhi esse texto pois ele fala sobre o objetivo desse blog. Fazer as pessoas pensar. Andar na direção oposta (se for o caso). Deleitem-se.

T. S. Eliot, poeta, escreveu o seguinte aforismo: ‘Numa terra de fugitivos aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo.’ É fácil entender os que andam na direção em que todos andam. Seus pensamentos e atos têm suas origens no tempo e são expressões da teia das relações sociais em que estão enraizados. Eles pensam e falam aquilo que a linguagem ‘gregária’ os obriga a pensar e falar. A linguagem gregária é como um jogo de xadrez, com uma lógica rigorosa e desenvolvimento previsível. As instituições e os jornais se fazem com ela. Assim, basta que as primeiras palavras sejam ditas para que se possa adivinhar quais serão as últimas.

Os que andam na direção contrária, entretanto, são aqueles que dizem o que não se pode adivinhar e que não era previsto. Seus pensamentos e palavras são sempre um susto, uma surpresa, um lapsus freudiano. Estes são os hereges, os poetas, os místicos, os visionários, os palhaços, os profetas, os loucos, as crianças (antes de terem sido normatizadas pelas escolas…)

Não são seres desse mundo. O que dizem sugere que suas raízes estão fora do tempo. Estarão na eternidade? Seria esta a razão por que a notícia envelhece logo e é logo esquecida (quem seria tolo de ficar lendo jornais do mês passado?), enquanto a fala dos que andam na direção contrária atravessa os séculos? Isso explicaria também os sentimentos de solidão e exílio que são a sua marca. Da Cecília, Drummond disse que ‘distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente’. E ela mesma disse que o seu principal defeito era ‘uma certa ausência do mundo’. Também Nietzsche lamentava a sua solidão e exílio. Desesperado de não ser entendido disse que nunca mais falaria ao povo; só falaria aos amigos… e às crianças…

Dos que andaram na direção contrária lembro-me agora de um de forma especial, porque no dia 30 de janeiro se completarão 53 anos da sua morte. No dia 30 de janeiro de 1948 Gandhi foi assassinado. Os que andam na direção contrária são sempre sacrificados, de um jeito ou de outro.

Releio um livrinho que escrevi sobre ele. Foi uma experiência estranha. Ao escrevê-lo tive a nítida impressão de estar num transe. Sem que eu fosse vegetariano fiquei incapacitado de comer carne enquanto escrevia. A carne que antes eu comia com prazer passou a causar-me repugnância. Vou transcrever, em memória a Gandhi, uns curtos trechos do que escrevi. Não creio que o que eu pudesse escrever agora, sem estar em transe, pudesse ser melhor…

‘Olhar para os animais e as plantas me enchia de alegria. Eu queria cuidar deles como quem cuida de algo frágil e precioso. Aí o mandamento cristão do amor me parecia pouco exigente. Pedia apenas amor ao próximo. Os cristãos entenderam que esse ‘próximo’ se referia apenas às pessoas. Eu, ao contrário, penso que todas as coisas que vivem são minhas irmãs. Elas possuem uma alma.(…) Amarás à mais insignificante das criaturas como a ti mesmo. Quem não fizer isso jamais verá a Deus face a face.(…) Agora digam: acham que eu poderia me alimentar da carne de um animal que foi morto e sentiu a dor lancinante da faca, para que eu vivesse? Que alegria poderia eu ter em tamanha crueldade? A natureza foi generosa o bastante, dando-nos frutas, verduras, legumes, cereais. Por mais que tentem me convencer de que as maneiras ocidentais são as melhores para a saúde, sempre as encarei com horror. Antes morrer que matar. Em nenhuma hipótese causar medo ou dor a coisa alguma.(…) Nosso destino espiritual passa por nossos hábitos alimentares. Estou convencido de que a saúde depende de uma condição interior de harmonia com tudo o que nos cerca. Comer demais é uma transgressão dessa harmonia.(…) Quando nos abstemos estamos silenciosamente dizendo às coisas vivas: ‘Podem ficar tranqüilas. Não as farei sofrer desnecessariamente. Só tomarei para mim o mínimo necessário para que meu corpo viva bem. Foi o que fiz. Vivi frugalmente. Fiz jejuns enormes. E minha saúde foi sempre boa.(…) Toda vida é sagrada, porque tudo o que vive participa de Deus. E se até mesmo o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é um pulsar da divindade, não teríamos nós, com muito mais razão, de ter respeito igual pelos nossos inimigos?(…) Sempre acreditei que no fundo dos homens existe algo de bom. Como poderia eu odiar qualquer pessoa, mesmo os que me tinham por inimigo? Dirão que não é assim. Há crueldade, o ódio, a morte… Será que algumas gotas de água suja serão capazes de poluir o oceano inteiro? Que força do mal poderá apagar o divino que mora em nós?(… ) Parece que os ocidentais não acreditam que os homens sejam naturalmente bons e belos. É por isso que se tornaram especialistas em meios de coerção e sabem usar o dinheiro e os fuzis como ninguém mais… É por isso que estão sempre tentando melhorar os homens por meio de adições: a comida em excesso, a roupa desnecessária, a velocidade da máquina, a complicação da vida…

‘Eu nunca quis entender de política. Só quis entender da bondade e dos seus caminhos. A política foi uma conseqüência e não a inspiração… Eu teria feito as mesmas coisas, ainda que não houvesse conseqüência alguma.(…) Os políticos, acostumados a usar o poder da força, desconhecem o poder das sementes…(…) Não haverá parto se a semente não for plantada, muito tempo antes… Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses…’ (A magia dos gestos poéticos, Ed. Olho D’Água)

A multidão de políticos que andavam na mesma direção só viam, pensavam e falavam sobre uma única coisa, sobre como libertar a Índia do poder inglês – politicamente? Gandhi percebia que esse seria um ato inútil – como abrir o casulo antes que a borboleta estivesse com asas para voar.

Político, nunca pertenceu a partido, nunca se elegeu para nada, nunca inaugurou obras. Sabia que a grande tarefa do líder político, anterior a todas as outras, não era a de administrar o poder mas a de formar um povo. E um povo se forma quando as pessoas tomam consciência da beleza e da bondade que nelas existe.

Andava na direção contrária. Pensava o que ninguém pensava. Fazia o que ninguém estava fazendo. É compreensível que tenha sido assassinado. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 31/01/2001.)