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Essa tal brasilidade

julho 9, 2011

Mais uma vez, com vocês, nosso amigo Palestrante, radialista, cartunista, Luciano Pires.

Preparei uma edição do podcast Café Brasil chamada EM BUSCA DA BRASILIDADE, que começa com um texto de Affonso Romano de Sant’Anna publicado num relatório anual do Banco do Brasil lá na antiguidade, em 1997. Affonso traz uma fascinante perspectiva de como determinados temas vão alterando o conceito de “brasilidade” ao longo da história, especialmente em três instantes específicos: o da defesa da territorialidade, o da expectativa imperial e o da consciência nacionalista. E comenta questões como a defesa das minorias nos anos oitenta, a chegada da globalização e da internet, etc. O texto pode, ou melhor, deve ser lido em www.portalcafebrasil.com.br/dlog.

É um exercício fascinante olhar para o Brasil vinte anos depois daquele texto de 1997 e perceber que continuamos a discutir territorialidade, não mais na disputa com nossos vizinhos, mas internamente. Seja na demarcação de terras indígenas, como a reserva Raposa do Sol, ou com os sem-teto das grandes cidades, com o crescimento das favelas ou com a sempre presente questão da reforma agrária com seus MSTs, é impossível pensar a brasilidade sem a perspectiva da territorialidade.

E as minorias excluídas? Seria possível imaginar trinta anos atrás uma parada gay com 4 milhões de pessoas, a marcha da maconha ou o casamento homossexual sendo aprovado pelo STF?

Globalização? Internet? Putz…

Somemos a questão política, o fim da divisão entre esquerda e direita, a completa falta de programas ideológicos que definam os partidos, a comercialização da política… E bote mais, bote a presença cada vez mais constante da mídia em nossas vidas e junte ao desmanche do sistema educacional, ao sucateamento das disciplinas humanas, ao crescente individualismo e consumismo, ao domínio dos marqueteiros e pronto!
Que cazzo é “brasilidade” hoje? Será a mistura de índio com português e negro? Mas depois de quase duzentos anos de influência japonesa, sirio-libanesa, judaica, norte-americana, espanhola, francesa, italiana, alemã, e tantos outros? Depois dos automóveis indianos, poloneses e mexicanos? Dos calçados chineses? Do sushi, do download, do site e do upgrade? E depois dos McDonalds, do rock’n roll, do funk, do hip hop, dos videogames, do sertanojo e breganejo? E depois da Lady Gaga?

Meu, que caldeirão!

O que é a “brasilidade” neste mundo conectado, único e totalmente interdependente? Será que só a encontraremos no meio do pantanal do Mato Grosso, nos confins dos pampas gaúchos ou embrenhada na selva amazônica? Mas mesmo lá dá pra assistir a entrega do Oscar por televisão via satélite!

E aí, o que é “brasilidade” pra você? É feijoada, futebol, mulher e carnaval? É o jeitinho? É o Macunaíma? Ou é outra coisa?

Será que ainda existe essa tal “brasilidade”?

Pronto. Tá feita a pergunta.

Luciano Pires

O Disjuntor

junho 18, 2011

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires.

Nas transmissões das lutas do MMA (Mixed Martial Arts, antigamente chamado de Vale Tudo), quando um lutador acerta um direto no queixo do outro, que cai como um saco de batatas, os locutores exclamam:

– Desligou o disjuntor!

Disjuntor é o dispositivo eletromecânico que desliga a corrente elétrica quando acontece um curto circuito. Comparando com um sistema de canos hidráulicos, a corrente é equivalente à taxa de vazão da água. Quando a taxa de vazão sobe demais, como acontece num curto circuito, o cano pode romper. E o disjuntor corta a corrente. A intensidade da corrente elétrica é medida em Ampéres (A) e os disjuntores atuam conforme a capacidade de amperagem para a qual foram projetados. Um disjuntor de 10 A desliga quando recebe uma corrente de 15 A por exemplo. Achei excelente o “desligou o disjuntor”, que cabe como uma luva quando tratamos de processos de comunicação. Quer ver?

Inaugurei uma nova palestra chamada “Tudo bem, se me convém”, na qual trato de comportamento ético. Logo no início apresento uma reportagem de TV, com um mendigo chamado Gilberto da Silva. Gilberto vive de catar latinhas pelas ruas. Uma noite, ele encontra milhares de cheques no lixo e entrega para a polícia. Num determinado momento do vídeo, a repórter diz:

– O velho das latas, mesmo vivendo com tão pouco, preferiu a honestidade.

Nesse momento interrompo o vídeo e entro em cena dizendo:

– É miserável porque é burro! Onde já se viu? Não tem o que comer, não tem o que vestir, não tem onde morar, acha dinheiro e devolve? É burro! Querem saber o que ele respondeu quando perguntaram por que devolveu o dinheiro?

Solto a segunda parte do vídeo onde Gilberto diz:

– Dignidade é uma coisa que não se pode dizer que tem, você tem que ter ela dentro de você…

Então peço à platéia que aplauda o Gilberto e – com a imagem dele na tela – explico que ele tem valores tão fortes que se sobrepõem à fome e miséria:

– Valores individuais são princípios fundamentais que tem a ver com virtude. Valores individuais orientam o comportamento, determinam nossas prioridades e nos definem como indivíduos.

A partir da atitude do mendigo – de devolver o que não é seu –  continuo a palestra tratando de virtude, ética e cidadania. E mais à frente quando em outro vídeo uma autoridade dá a entender que “achado não é roubado”, afirmo que isso é desculpa para praticar uma atitude amoral.

Sabe o que aconteceu? Mais de uma pessoa que estava na platéia se manifestou indignada, pois chamei o mendigo de burro e defendi que ele ficasse com o dinheiro…

Minha frase de impacto – “é burro!” – desligou o disjuntor. Quando a pessoa me ouviu dizê-la, seu cérebro desligou e ela não ouviu mais nada. Não importa se toda a sequência da palestra teve como foco o comportamento ético, se pedi para aplaudir o mendigo e se critiquei duramente quem pregou uma atitude contrária à dele.

Só sobrou o “é burro!”.

É por ter essa capacidade de desligar o disjuntor que certas frases e expressões, quando tiradas do contexto, ganham vida própria e passam a significar o contrário do que o que foi dito.

Por sorte, diferente dos fusíveis que queimam e precisam ser trocados, os disjuntores podem ser rearmados manualmente. É só religar. Mas vou tomar mais cuidado. A partir de agora colocarei um aviso informando a amperagem da palestra.

Assim, quem tiver disjuntor fraco se cuida.

Luciano Pires

Essa geração 80

junho 17, 2011

Reproduzo aqui um excelente artigo do Helio de La Pena, escrito para o Blog Inspiração Coletiva da Brastemp, sobre um dos fenômenos recentes que tenho observado: a atividade intensa do pessoal que já está a 8 década nesse mundão.

Fiquei surpreso ao constatar recentemente que João Gilberto completou 80 anos. Logo depois, descubro que Fernando Henrique Cardoso também está fazendo 80. Mesma idade de Zuenir Ventura. Fernanda Montenegro é dois anos mais velha que essa turma. Nomes que a gente ouviu a vida inteira, e que ainda dão o que falar,  percebo agora que estão há oito décadas no planeta. Uma marca e tanto!

Vemos, às vezes, tentativas desesperadas de parar o tempo. Gente que não se conforma com a própria idade e faz de tudo para disfarçá-la, no começo para os outros, depois para si mesmo. Gastam-se aposentadorias inteiras com tinta para o cabelo, cirurgias plásticas e outros artifícios. Franjinhas, tatuagens e minissaias que não ficam bem nem na Sabrina Sato… tudo para parecer um garotão ou uma menininha e o que se consegue é um risinho malicioso da molecada: “Nossa, que ridículo!”

Não é por aí. As pessoas citadas lá em cima chamam atenção dos mais jovens não pelo rabo de cavalo prendendo uns ralos fios de cabelo ou pela expressão facial congelada pelo botox. O que espanta é ver essa gente em atividade. Produzindo, criando, atuando, publicando. No ano passado dona Fernanda estava presente em quase todos os capítulos da novela Passione. E ainda podia ser vista no teatro. O enigmático João Gilberto não é visto nem pelo entregador de pizza que, segundo a lenda, tem que passar a encomenda por baixo da porta. Mas quando sai de casa, enche o teatro com gente querendo ver seu show, preciso por conta dos exaustivos ensaios. Semanalmente nos jornais lemos um artigo do Zuenir Ventura sobre os mais diversos assuntos. E Fernando Henrique, que poderia estar em sua fazenda tomando uma canja, anda por aí trazendo a discussão de assuntos polêmicos.

Essa gente não quer saber de ficar de bobeira descansando. Não é pra isso que se vive mais, não é por isso que se vive mais. Não é colocando um piercing no nariz ou no mamilo que o coroa se torna mais jovem. É mantendo a cabeça funcionando, buscando o prazer, o conhecimento, a presença na sociedade. Essa é a verdadeira fórmula da longevidade.

Geração T

junho 11, 2011

Neste sábado, mais um excelente texto do Luciano Pires. Artigo Sensacional. Sou da geração Y e concordo com cada palavra deste texto daqui. Quero ver nascer a geração A, de AÇÃO!!

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires!

Meu amigo Patrick é francês e vive no Brasil há anos. Tem uma visão crítica da forma de ser do brasileiro em comparação a outros povos, especialmente os europeus. E eu me divirto com ele. Recentemente, presente a um desses eventos badalados que tratam de redes sociais, ele me ligou para descrever o público. Jovens, muito jovens, com seus IPads e IPhones, tuitando furiosamente enquanto assistiam às palestras de dezenas de especialistas. Ao final da palestra, invariavelmente o apresentador dizia:

– Alguma pergunta?

Silêncio. Ninguém. Nada. E assim foi, de palestra em palestra. Ninguém nunca perguntava nada. O Patrick então disse que aquela era a geração T. Tê de testemunha: “Sou testemunha de tudo, mas não tenho opinião sobre nada.”
É isso mesmo que tenho visto por aí: a geração T dominando os espaços e dedicando-se à única coisa que consegue fazer: contar para os outros o que viu. Ou no máximo, repetir a opinião de terceiros, enquanto permanece incapaz de analisar, comparar, julgar e de emitir opiniões.

Mas sabe o mais louco? A “geração T”, diferente das outras gerações, parece não ter um período definido. Não é composta exclusivamente de gente que nasceu entre o ano x e o ano y… É claro que a quantidade de jovens é muito grande, mas ela generosamente engloba gente nascida desde 1950…

Em minha palestra “Quem não se comunica, se estrumbica” falo de um estudo que mostra que nos 40 mil anos que se passaram desde o momento em que o homem desceu das árvores até inventar a internet, a humanidade produziu 12 bilhões de gigabytes de informação, algo como 54 trilhões de livros com 200 páginas cada. Agora veja esta: somente no ano de 2002 produzimos os mesmos 12 bilhões de gigas! Geramos num ano o mesmo que em 40 mil anos… Em 2007 foram mais de 100 bilhões de gigas! E em 2012 serão alguns trilhões! Produzimos informação numa velocidade cada vez maior enquanto inventamos traquitanas que tornam cada vez mais fácil acessar essas informações. Mas de que adianta ter acesso às informações se não temos repertório para dar um sentido à realidade?

O resultado é a geração T, que sabe tudo que acontece, mas não tem idéia do por que acontece. Entrega-se à tecnologia de corpo e alma, como “vending machines”, aquelas máquinas automáticas de vender refrigerantes em lata, sabe? Distribuidores de conteúdo de terceiros, focados no processo de distribuição, mas sem qualquer compromisso com o conteúdo distribuído.

Nada a estranhar, afinal. Querer que as gerações que saem de nosso sistema educacional falido conheçam questões conceituais, paradoxos, tradições, estilos de comunicação, relações de causa e efeito, encadeamento lógico dos argumentos e significados para poder exercer o senso crítico é demais, não? É mais fácil e menos comprometedor simplesmente contar para os outros aquilo que ficamos sabendo.

A geração T não consegue praticar curiosidade intelectual, só a curiosidade social. Tentei achar um nome para esse fenômeno e acabei concluindo que só pode ser um: fofoca.

A geração T é a geração dos fofoqueiros. E você é testemunha.

Luciano Pires

Googlar antes de tuítar

junho 10, 2011

Hoje, o post de Pedro tourinho, do Blog Inspiração Coletiva da Brastemp. DC

Um dia desses em que andava por Palo Alto, na Califórnia, onde ficam as sedes do Apple, do Facebook e do Google, passei por uma Igreja que tinha uma placa enorme com o seguinte dizer: ”Nem todas as respostas para suas buscas estão no Google.”

Pensei, pensei… E a pergunta que ficou foi: será?

Posso dizer que para mim existe a vida a.g. (antes do Google) e d.g. (depois do Google). Hoje, dificilmente faço um planejamento, desenvolvo uma ideia ou tomo uma decisão sem passar algum tempo navegando por lá. Li em algum lugar que googlar antes de tuítar é o novo pense duas vezes antes de falar. E é verdade.

Sem falar no Dr. Google. Uma pesquisa recente revelou que 80% dos brasileiros que usam internet já buscaram informações médicas online. Assim como nos Estados Unidos, 1 em 3 mulheres afirmam que preferem as informações de saúde que conseguem online do que tentar arrumar um horário com um médico. Principais motivos: podem encontrar a informação que desejam mais rapidamente, na hora mais conveniente e pagando menos, ou nada.

E planejar uma viagem? Também nunca foi tão fácil. Além de encontrar a passagem mais barata, críticas e comentários de turistas sobre cada hotel ou roteiro, hoje também é possível literalmente checar antes cada ponto turístico, ou a fachada e tamanho da piscina de cada hotel da sua viagem usando o Google Maps. Pois é, o jogo mudou.

Mas hoje, gostaria de aceitar a inspiração dessa frase que li em Palo Alto, e fazer seguinte a pergunta: que tipo de resposta não se deve procurar no Google?

Como encontrar um grande amor? Como fazer os melhores amigos? Como educar meus filhos? Como agradecer aos meus pais? O que dizer aos meus irmãos? Onde me sinto mais feliz? O que me faz feliz?

Se você digitar qualquer uma dessas perguntas, sem dúvida receberá respostas. Mas será que fará algum sentido? Ou melhor, será que te fará bem encontrar no tempo de um clique respostas que levam uma vida inteira para serem respondidas?

Humilde conclusão: Não faça ao Google perguntas que só você pode responder. Para as grandes questões, a vida continua sendo nosso melhor buscador. Inspire-se.

Carpe diem!

A ladra

junho 4, 2011

Infelizmente nosso amigo Luciano Pires presenciou uma cena onde o valor que tanto se busca nesse Blog não se concretizou. Vocês verão no texto abaixo.

Ainda tenho esperança, pois já ocorreu algo semelhante comigo e ví que ainda há honestidade no povo brasileiro.

DC

 

Fui ao Barra Shopping Sul em Porto Alegre ver uma exposição sobre o Titanic. É um caça-níqueis, mas impressiona quem – como eu – é fascinado pela história daquele navio. Valeu cada níquel caçado… De volta  ao hotel, descubro que esqueci meu celular no taxi, um IPhone 4 novíssimo! Liguei para o Shopping, consegui falar com o ponto do taxi, mas de nada adiantou. Eu não tinha o modelo do carro, a placa ou número, nem o nome do motorista. Angustiado, voltei até o shopping. Eram dez e meia da noite. Fiquei plantado em frente ao ponto de taxi para ver se reconhecia o motorista e… reconheci!

– Foi o senhor que me levou para o hotel minutos atrás?

– Foi sim!

– Ufa! Esqueci meu celular no banco de seu carro!

– Ah! Olha só, depois do senhor, fiz uma corrida para uma mulher. Ela sentou no celular. Quando ela saiu do carro eu vi o celular, achei que era dela e avisei que estava sobre o banco. Ela pegou, olhou, enfiou na bolsa e desceu…Calafrio. Se não tivesse intenção de roubar, ela teria devolvido o celular para o taxista, não é? Ao ver minha expressão de desânimo ele continuou:

– Eu sei onde deixei a mulher. Quer que eu leve o senhor até lá?

– Quero!

Bem, vou encurtar a história. Localizamos o apartamento da mulher num condomínio de classe média. Ela desceu até a portaria acompanhada do filho, um jovem adulto, e desmentiu que tivesse encontrado o celular. O taxista, inconformado insistiu, descrevendo o celular e a cena.

– Não peguei nenhum celular!

E pronto. Rolou barraco, ameaça de chamar policia e tudo mais. Mas não adiantou. Fui à delegacia e o próprio escrivão aconselhou:

– Deixa pra lá.

Tomei duas porradas. A menos dolorida foi a perda do aparelho. Mas a cena da mulher nos encarando e dizendo – na frente do filho – que não havia roubado o celular, foi um baque. Não consigo entender como é que alguém pode ficar com algo que não é seu, tendo a oportunidade de devolver ao dono…

Conheci uma ladra. Seus valores individuais, que orientam o comportamento, determinam nossas prioridades e nos definem como indivíduos, estão em total desacordo com os meus. Meus valores estão relacionados à virtude, os dela ao vício. Quem vive os valores virtuosos sofre diante de escolhas morais. É tentador ficar com o “achado”. E vencer essa tentação dói.

Mas quem não vive os valores virtuosos, deixando-os apenas pairando sobre sua vida, nem percebe que escolhas morais precisam ser feitas. Sequer entende que o “achado não é roubado” é apenas uma justificativa para um comportamento indigno.Gente assim tem desvalores individuais.

Conheci uma ladra. Que além do meu celular, roubou mais um pouco de minha fé na natureza humana.

Luciano Pires

Uma cidade soterrada

junho 3, 2011

Hoje, o post do Blog Inspiração Coletiva, da Brastemp.

Em 1978, funcionários de uma companhia de eletricidade faziam escavações para realizar um cabeamento subterrâneo quando se depararam com uma grande pedra circular esculpida. Desconfiados de que aquela peça pudesse ter valor, acionaram arqueólogos que confirmaram a importância do objeto encontrado. Tratava-se de uma representação da deusa asteca Coyolxauhqui.

A descoberta levou a uma pesquisa mais profunda. Chegaram à conclusão de que havia mais coisa ali embaixo. E havia mesmo. Era o Templo Mayor, um enorme templo asteca do século 14. Toda a região foi expropriada, os prédios foram demolidos e o México trouxe à tona um valioso tesouro arqueológico.

Um desavisado, ao ver a enorme área esburacada com paredes quebradas no centro da capital mexicana, pode imaginar que eles estão se preparando pra sediar alguma Copa do Mundo. Trata-se, na verdade, de ruínas de Tenochtitlán, a capital da civilização asteca, que havia sido soterrada pelos espanhóis. Sobre ela ergueram suas construções, entre elas a Catedral Metropolitana.

Fico intrigado por que os espanhóis, depois de dizimarem os astecas, resolveram soterrar suas construções, tentando apagar qualquer vestígio da existência da antiga civilização.  Só vejo um motivo. O conquistador Hernán Cortes mandou destruir tudo depois de se irritar  porque não conseguia pronunciar nomes de deuses como Huitzilopochti Quetzalcoatl, Coyolxauhqui…

Os mexicanos viveram anos e anos sem ter ideia de que estavam andando sobre construções de uma antiga e avançada civilização. Ao visitar recentemente a cidade fiquei impressionado com o Templo Mayor. Não só pela dimensão do templo, como também pela coragem de promoverem tamanha desapropriação para revelar ao mundo uma parte relevante da História Universal.

Voltei ao Brasil pensando como essa iniciativa poderia nos inspirar a preservar e valorizar nosso patrimônio histórico.

Monumento à Incompetência

maio 28, 2011

Em 1999 o corpo do alpinista inglês George Mallory foi encontrado a cerca de 8.200 metros de altitude no monte Everest. Mallory desapareceu em junho de 1924 quando estava próximo ao cume. Uma afirmação de um dos alpinistas que encontrou o corpo me chamou a atenção:

“Fiquei impressionado com as roupas que ele usava. Hoje em dia, no inverno, qualquer pessoa caminhando pelas ruas de Seattle está mais protegida do que Mallory no Everest em 1924.”

Lembrei-me dessa história durante uma visita que fiz a uma empresa na qual fui recebido pelo principal executivo, que fez questão de se identificar como CEO – Chief Executive Officer. Bonito né? Depois fui apresentado para o CMO, o CFO e o COO, executivos de marketing, finanças e de operações, respectivamente. Todos jovens MBAs formados no exterior.

Ao percorrer a empresa passamos por salas vazias, mesas vazias e grandes áreas vazias. E os jovens CEO, CFO, CMO e COO diziam com orgulho: “Isto aqui já esteve apinhado de gente. Fizemos uma reestruturação ao longo dos últimos dois anos e reduzimos em 45% o numero de pessoas, enquanto nossa produtividade cresceu 22%! Fazemos questão de deixar esses lugares à vista de todos. São nosso Monumento à Incompetência.” 

Em minha palestra O Meu Everest afirmo que um dos ensinamentos mais importantes da viagem ao Campo Base da maior montanha do mundo foi aprender que, a cada vez que olhasse para cima, eu deveria olhar cinco vezes para baixo. Quem pratica montanhismo sabe do que estou falando. Quando você está no pé da montanha e olha a trilha que vai subir, dá um frio na barriga. Você vê as pessoas lá em cima, como formiguinhas, e sabe que para chegar lá terá que fazer uma escalada de oito, nove horas. Então ataca a montanha. Um passinho aqui… outro ali… num processo penoso. Quando olha para cima, percebe que seu objetivo ainda está muito longe, mas ao olhar para baixo a mágica acontece. Você descobre que o campo base de onde saiu está láááááá embaixo. Cada olhada para baixo dá a certeza de que você progrediu, gerando energia para subir mais. Isso é automotivação: a certeza do progresso nos empurra para cima.

O que aqueles jovens COs chamaram de “Monumento à Incompetência” é na verdade a lembrança dos pioneiros que, com a carga às costas, sem computadores, celulares e internet, assumiram o risco de sair lá do “campo base” para desenvolver o negócio que eles hoje dirigem. Avaliar o passado pelas lentes do presente e chamar de “incompetência” o esforço das pessoas que passaram pelos anos de hiperinflação, incertezas, regime fechado, tecnologias rudimentares, abertura econômica e dólar alto é como observar hoje as roupas de George Mallory e achar que ele era um incompetente. Não era. Usou o que havia de melhor na época e por pouco não atingiu seus objetivos.

Parabenizei os COs pelo sucesso e deixei com eles uma recomendação:

– Rebatizem os “Monumentos à Incompetência” como “Memoriais aos Heróis do Passado”. Foram eles que trouxeram vocês até aqui em cima.

Luciano Pires

A velha guarda

maio 21, 2011

Ladies and Gentlemen, Luciano Pires.

Compareci a um jantar em homenagem a um colega que estava se aposentando após dirigir por anos uma empresa que fazia parte do grupo no qual trabalhei por 26 anos. Um convite irresistível: fui para Porto Alegre exclusivamente para rever amigos queridos que eu não encontrava já fazia um bom tempo. Imaginei que seria um jantar para uma dezena de pessoas e me deparei com uma centena!

Fui recebido com uma profusão de sorrisos e abraços, cabelos brancos, barrigas e traços envelhecidos, mas o mesmo calor humano. Quando entrei na sala de jantar fui encaminhado para uma mesa reservada.
A mesa da velha guarda.

Fiquei entretido no bate papo e quando o evento começou, várias referências foram feitas à mesa onde eu estava, à velha guarda. Todos com mais de 60 anos. Eu era o caçula, com meus 55. Somamos o tempo de experiência profissional de cada um e deu uns 500 anos!

Velha guarda…

Perdi a conta de quantos eventos participei ao longo da minha carreira, sempre com uma mesa para a velha guarda, que eu observava com curiosidade. Agora era minha vez. Olhei aquela moçada toda nos observando e senti uma sensação estranha, misto de angústia com perplexidade.

“Velha guarda” foi uma bofetada.

Enquanto eu assistia ao vídeo em homenagem ao colega que deixava a empresa, minha carreira passava diante de meus olhos. Lembrei-me da ansiedade com que, aos 26 anos de idade, caprichei na feitura de meu “curriculum vitae” para tentar emprego numa multinacional, 30 anos atrás! Então veio à minha mente Rubem Alves, sempre ele, que um dia escreveu:

“Um curriculum vitae é uma enumeração dos lugares por onde se passou, na correria da vida. As coisas que ele registra não existem mais. O que é passado está morto. Assim, na minha homepage, ao invés de curriculum vitae eu escrevi curriculum mortis, porque eu não sou o meu passado. Eu sou o meu agora”. Naquele momento mudei minha atitude. Para mim, aquela deixou de ser a mesa da velha guarda para ser a mesa onde estavam velhos amigos cheios de planos, sonhos e com energia para fazer acontecer.

Tudo que fiz em minha carreira serviu para construir minha história, para definir quem eu sou e do que sou capaz. Sou grato àqueles que me homenageiam pelo meu passado, que reconhecem minha contribuição, aos que valorizam o tempo que permaneceram ao meu lado, aos que acham que aprenderam algo comigo.  

Mas isso passou. Não existe mais. O que importa é o que eu farei amanhã.

Me aguardem.

Luciano Pires

O Lacraia

maio 14, 2011

Como todos sabem, nessa semana faleceu o artista chamado Lacraia, que fez muito sucesso a uns anos atrás. Ele, particularmente, influenciou e muito o Lucinao Pires, o qual reproduzo os textos no sábado.

Hoje, trago as palavras do Luciano Pires a respeito do fato.

Ladies and gentlemen, Luciano Pires.

“Marco Aurélio Silva da Rosa, mais conhecido como a dançarina de funk Lacraia morreu, aos 34 anos, na madrugada desta terça-feira.”

Recebi essa notinha lacônica pelo twitter dando conta da morte de um ícone brasileiro do começo do século 21. O Lacraia explodiu em 2003 quando a música Eguinha Pocotó tornou-se um dos maiores sucessos nas rádios e televisões do país.

Marco Aurélio criou um personagem andrógino, apelidado de Lacraia, que era um dançarino do funk carioca e causava furor onde se apresentava, menos pelos dotes artísticos e mais pela irreverência e quebra dos padrões. Assumia sua homossexualidade, beijava homens na boca e cantava trechos de letras pornográficas que faziam a platéia mais conservadora corar. Junto com Serginho, o criador da música, Lacraia foi fundamental para que eu criasse o conceito que gerou meu livro Brasileiros Pocotó, a palestra homônima e o propósito de “desemburrecer o Brasil”.

E hoje cabe repetir algo que venho dizendo desde 2003, incansavelmente.

O Lacraia era um daqueles artistas chamados “populares” que sempre existiram e existirão. Se voltarmos no tempo, encontraremos exemplos de pessoas que atuaram na mesma linha da transgressão às normas e obtiveram diferentes graus de sucesso. Esses artistas jamais foram o “mal” a ser combatido. Você pode gostar ou não deles, mas não pode negar-lhes o direito de existir. E nem negar às pessoas o direito de gostar deles.

O problema está na engrenagem que captura, tritura, processa e depois descarta esses indivíduos. E no meio do processo vende seu trabalho empacotado num “projeto de marketing” cuja intenção é única e exclusivamente vender a maior quantidade de CDs e shows no menor espaço de tempo possível. Essa engrenagem envolve empresários, gravadoras, produtores de eventos, produtores de rádio e TV que usam seus talentos para conquistar o gosto popular e vender, vender muito. Quando a moda passa, o artista é simplesmente descartado, como no caso do Lacraia que, pelo que consta, morreu praticamente sozinho num hospital.

Apesar disso, para um artista esquecido num gueto, tornar-se celebridade, mesmo que por pouco tempo, é muito bom. Para a indústria da música, que vai gerar empregos, também é bom. Assim como é bom para os consumidores que vão curtir um sonzinho sem qualquer compromisso.

Mas quando esses projetos de marketing ocupam todos os espaços, deixando de fora os talentos que são considerados “não vendáveis”, esse processo é ruim, por excludente. Alguém está escolhendo o que será veiculado pelos canais da mídia, e essa escolha é feita com base em… preconceitos. Ou não?

O personagem Lacraia era feliz, sempre sorridente, bem humorado e que se divertia com o que fazia. Pessoalmente eu não gostava de sua arte, mas ele tinha todo o direito de estar lá. Já o Marco Aurélio, que tinha que arcar com as conseqüências de suas escolhas, eu não sei.

Só posso lamentar a morte e desejar que, de algum modo, ele tenha deixado um legado.

No meu caso, deixou.

Luciano Pires