Os tortos e os direitos

Ladies and Gentlemen, mais uma vez o brilhante artigo semanal de Luciano Pires.

Desarmem sim. Desarmem já. Desarmem os loucos. Desarmem os desequilibrados. Os irresponsáveis. Os inconseqüentes. Os imaturos. Os ignorantes. Os bandidos. Os desonestos. Os terroristas. Os anarquistas. Os seqüestradores. Os brutos. Os imorais. Os amorais. Os brutamontes. Os depressivos. Os neurastênicos. Os maus. Os ébrios. Os alucinados. Os amargos. Os mal humorados. Os vingativos. Os desesperados. Os estúpidos. Os idiotas. Os violentos. Os sem consciência. Os ladrões. Os assassinos. Os sádicos. Os indignos. Os torcedores uniformizados. Os pobres de espírito. Os esquizofrênicos… Os tortos.

Coloquem todos os voluntários, toda energia, toda a mídia e todo o dinheiro nos processos para separar os tortos dos direitos.

Mas não desarmem só os direitos.

Eu sou direito.

Sou pacífico, muito equilibrado. Fujo das confusões e provocações. Respeito as leis. Jamais partiria para o confronto físico, a não ser em defesa da minha família. E nessa hora, dependendo do oponente, quero ter uma arma. E, se for um bandido, quero uma arma de fogo. Conseguirei atirar? Depende da ameaça. Mas com a arma nas mãos eu teria garras e dentes. Rosnaria para o predador, que pensaria duas vezes antes de atacar, talvez preferindo procurar um animal indefeso, um filhote, que não esboçasse reação.

Mas quero que seja proibido que civis andem armados na rua. Quero que o processo para comprar uma arma e registrá-la, seja tão difícil quanto abrir uma empresa. Quero que periodicamente tenha que ser feito um novo registro. Quero que o registro custe caro. Quero fiscalização dura sobre as lojas que vendem armas. Quero exames psicológicos, psicotécnicos, físicos, antropológicos, sociológicos e todos os lógicos para quem quiser comprar armas. Quero que quem não cumprir a lei, seja punido exemplarmente. Quero que o governo faça sua parte no combate ao contrabando e aos bandidos. Quero polícia armada, preparada e ostensiva. Quero que a justiça acabe com a impunidade. Quero que a mídia dedique-se ao assunto com a mesma ênfase com que cobre o casamento do jogador de futebol.

Mas quero a liberdade de ter minha arma, seguramente guardada em casa, sob minha inteira e total responsabilidade. Eu sou direito.

Quero tratamento diferente dos tortos. Quero liberdade de ter garras e dentes para resistir aos predadores. Quero poder rosnar em vez de miar.Respeito quem quer desarmar os tortos e os direitos. Mas primeiro, os tortos.

Por isso votarei contra o desarmamento. Contra esse que está aí.

São Paulo, 22 de setembro de 2005

Luciano Pires, o redundante.

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