O mundo está em mudança: precisamos do pensamento complexo

Encontrei esse artigo muito bem escrito por Noemi Sakitani, publicado na revista bsp (business school São Paulo) de novembro de 2010. Deixo-o para continuar nossa construção do pensamento complexo.

O mundo está em mudança: precisamos do pensamento complexo

Introdução

Atualmente, o mundo passa por muitas e rápidas mudanças, e o tempo em que elas acontecem é mais curto a cada dia. A globalização tem gerado novas perspectivas a ser analisadas antes de qualquer tomada de decisão. Tudo isso cria a necessidade de um novo modo de pensar que ajude a lidar com este novo mundo: o pensamento complexo. Falarei  sobre nossos modos de pensar e sobre as ferramentas que podem nos ensinar a fazer escolhas. Como foi dito antes, minha visão básica do pensamento complexo baseia-se nas ideias de dois pesquisadores, Morin e Mariotti.

As mudanças aqui estão e precisamos aprender a lidar com elas. Em minha opinião, a melhor maneira de fazer isso é incluir novos modos de pensamento em nosso cotidiano. É claro que não devemos descartar os modelos anteriores, mas sim complementar a nossa forma convencional de pensar por meio do pensamento complexo.

Por que precisamos de uma nova forma de pensar

Em seu livro O capitalismo global, Furtado (1999) escreve sobre as mudanças na economia global nos últimos 20 anos. Ele acredita que algumas transformações importantes estão acontecendo na estrutura econômica mundial, e estas vêm afetando o equilíbrio dos poderes, gerando concentração de riqueza e exclusão social em todos os países. Acredita também que muitos parâmetros econômicos de crescimento não estão bem esclarecidos. Todos esses fenômenos geram um crescimento econômico mal definido,  que por sua vez cria uma organização social confusa, na qual, porém, podem-se ver tanto ameaças quanto oportunidades. Em resumo, estamos entrando em uma era de incerteza.

Certamente precisamos de uma nova mentalidade para lidar com esse cenário: o pensamento complexo. Tenho certeza de que ainda surgirão muitas transformações, o que exigirá uma transição na forma como vemos os problemas e geramos soluções. Já sabemos que a aplicação de soluções antigas para problemas novos não têm funcionado. Em toda parte, é possível perceber um grau significativo de incapacidade para resolver problemas como crises econômicas, desastres ambientais e muitos outros. Assim, precisamos criar novas soluções para novos problemas e aprendera  resolver velhos problemas ainda em aberto. Esta é a proposta do pensamento complexo.

Drucker (1999) afirma que “a incerteza – na economia, na sociedade e na política – é enorme, o que torna quase inúteis os tipos de planejamento ainda utilizados pela maioria das empresas. Ele está entre os autores que falam sobre a necessidade de uma nova maneira de pensar. Descreve o que chama de “sociedade do conhecimento”, na qual pela primeira vez os empregados têm o capital que realmente precisam para produzir. Esse novo grupo dominante será o que Drucker chama de “trabalhadores do conhecimento”. Ele também reconhece que essa mudança é bem mais do que um fenômeno social: será uma transformação profunda na condição humana. A seu ver, os novos valores e obrigações, bem como os problemas da nova sociedade ainda são em grande parte desconhecidos. Tudo o que sabemos é que eles serão diferentes.

Embora as novas oportunidades também sejam enormes, pela primeira vez na história a liderança está aberta a todos e a possibilidade de adquirir conhecimento não é limitada por idade ou tempo – está disponível a qualquer hora e lugar. Drucker tem uma forma especial de ver o novo meio social na sociedade do conhecimento. Nele, a mobilidade será um fator-chave. No passado, as pessoas costumavam nascer e morrer no mesmo bairro; nos novos tempos, elas se deslocam para novos lugares e países, e esse comportamento inevitavelmente gerará novos problemas. Drucker afirma que “o principal problema de todos os cidadãos é como ter possibilidades de articular e organizar as informação. Na verdade, para isso precisamos de uma revisão da maneira como pensamos.

Em um de seus livros, Mariotti (2007) dá-nos uma descrição de duas das principais origens do nosso modelo de pensamento dominante: “Descartes sugeriu que o conhecimento pode ser melhorado por meio da fragmentação do objeto a ser estudado, seguido do exame das partes separadas. Newton afirmou que a função das ciências é sempre buscar leis universais que permitam uma relação simples e bem definida entre causa e efeito”.  Esse é o modelo de pensamento que ainda predomina em nossa cultura.

Com base na descrição da sociedade do conhecimento, Drucker acredita em algumas ações-chave de que precisamos para estar prontos para as mudanças que virão. Entre elas, destacam-se rever a educação e a qualidade do conhecimento. Para ele, o século 20 foi o século das mudanças sociais, e o 21 será o século da inovação social e política.

No documento “Manifesto para a metamorfose do mundo”, Morin et al (2009) escrevem sobre a atual crise econômica e suas extensões, e como ela afeta todas as esferas. Eles acreditam que esta, como outras crises, é o resultado do “emaranhado de muitos componentes, relacionamentos, e múltiplos tipos de feedback entre áreas diferentes como a econômica, a social, a demográfica, a política, a ideológica, a religiosa,a  ética,a do pensamento e os ecossistemas”. Esses autores  creem que o mundo precisa desesperadamente de orientações que  possam evitar um desastre. A seu ver podemos ter esperanças, com base em algumas pequenas mudanças mundiais, especialmente na América Latina e Europa, onde as preocupações sobre o lucro a qualquer custo têm mudado para o quanto esse lucro custará.

O texto de Morin e colaboradores também vê a atual crise como uma “sistêmica”, isto é, que produzirá efeitos em todo o globo. Mas a boa notícia é que ela despertará as pessoas para a extensão do problema e fará com que ao menos alguns de nós mudem a maneira de pensar sobre coisas e eventos. Morin et al propõem “sete reformas para encontrar um novo caminho”, ou seja, sugestões para alcançar um mundo sustentável.

Resultados rápidos e peças separadas

No livro Pedagogia Waldorf, de Lanz (2005), há um comentário sobre a crise educacional: “Os valores institucionalizados que as escolas adotam são predominantemente de natureza quantitativa. As escolas apresentam aos alunos um mundo onde tudo é mensurável, inclusive os seres humanos e suas fantasias. (..) A escola se propõe a dividir o conhecimento em blocos separados, e os apresenta como algo pré-fabricado e em escala internacional”.

Mariotti (2007c) observa que “a natureza unidimensional” da forma de pensar hoje predominante nada mais é do que uma apropriação da visão de mundo pela cultura ocidental  hegemônica. Trata-se, portanto,  de um dos fenômenos mais alienantes da atualidade. Especialmente no século passado, alguns educadores já estavam conscientes da importância das ligações entre todos os tipos de conhecimento. Também já sabiam que a orientação predominante do nas escolas era exatamente o oposto disso.

Em nossa cultura, sempre tentamos fragmentar os problemas e resolvê-los trabalhando suas partes separadas. Essa é a nossa maneira automática de pensar. Hoje em dia, porém, muitos vêm  percebendo que esse formato não funciona quando se trata de resolver problemas complexos. A razão para isso é simples: quando se faz uma alteração, por menor que seja, em uma parte de determinado processo, ela gera mudanças no conjunto – o que muitas vezes termina com resultados bem diferentes dos esperados. Outra questão importante é uma conseqüência da educação que recebemos: o timing dos resultados. Estamos convencidos de que ele deve ser muito rápido em todas as circunstâncias.  Concordo que quando se tem um problema ele deve ser resolvido o mais cedo possível – mas também é preciso ter certeza de que a solução será sustentável.

Em seu livro clássico, Morgan (2007) diz: “Somos educados para nos sentirmos confortáveis com o lugar que nos foi dado na organização, e somos encorajados a ver e compreender o mundo segundo um ponto de vista específico”.  Mais adiante, ele escreve sobre a simplificação do mundo: “Na vida cotidiana, como na ciência, tentamos entender o mundo simplificando-o. Ao fazer isso, temos a ilusão de que tudo pode ser controlado, e que somos mais poderosos do que realmente somos. ”

O conceito de pensamento complexo

Comecemos explicando a diferença entre sistemas complicados e sistemas complexos. “Sistemas complicados” é uma expressão relacionada às máquinas, em especial as que têm múltiplos componentes. É o universo mecânico, o domínio tecnológico e especializado criado pelo homem. Sistemas complexos são os que incluem seres vivos. Esse tipo de sistema sempre comporta um nível significativo de incerteza e erro. Todas organizações humanas, como as empresas e o mercado financeiro, são exemplos dessa espécie de sistema. É por isso que alguns autores dizem que os sistemas complexos estão sempre à beira do caos, o que significa que podem entrar em crise a qualquer momento.

Segundo Mariotti (2007b), um ponto muito importante para a compreensão da riqueza do pensamento complexo é que os erros, a incerteza e a ilusão sempre andam juntos com o conhecimento. Assim, o conhecimento não é uma cópia da realidade, mas uma “versão” que construímos por meio de nossas estruturas de percepção. O pensamento complexo leva em conta as incertezas, os erros e ilusões como parte dos nossos problemas cotidianos e, assim, ajuda-nos a lidar com eles. Ajuda-nos também a considerar sempre o curto, o médio e o longo prazo qualquer que seja a circunstância. E, o que é mais importante para a sustentabilidade das organizações, sempre leva em conta a responsabilidade social nos processo decisórios.

As análises orientadas pelo pensamento complexos  geram novas ideias, resolvem problemas difíceis, tornam mais eficazes a negociação e a gestão de conflitos, melhoram a comunicação não só entre os membros de uma equipe mas também entre as diferentes áreas nas organizações. Além disso, capacita as pessoas a pensar estrategicamente, a aceitar a possibilidade de riscos e erros durante os processos de inovação e a ver as mudanças como  algo positivo. O pensamento complexo nos proporciona ferramentas projetadas para lidar com problemas em geral ignorados pelas teorias convencionais de gestão.

Segundo Mariotti (2007), “não podemos mudar nossa forma de ver o mundo sem mudar de maneira de pensar. A ansiedade relacionada com a incerteza vem principalmente da percepção mecanicista e limitada de nossa mente condicionada. Estamos convencidos de que se negarmos a incerteza e o risco, estes serão certamente reduzidos ou afastados. É claro que essa crença não passa de uma fantasia. A negação é ainda pior, pois nos torna despreparados para lidar com o erro e a incerteza.  Vários autores já disseram que devemos rever nossa forma de pensar para melhorar a forma como vemos o mundo. E, em especial, avaliar como os modelos antigos podem nos levar a fazer escolhas que podem resultar em um preço que não conhecemos e que provavelmente não estamos dispostos a pagar.

Mudar de modo de pensar não é fácil nem rápido, mas há pessoas que já têm naturalmente propensão para o pensamento complexo.  No entanto, não são a maioria. Se pretendemos promover essa mudança, é necessário preparar essas pessoas para entender o novo modo de pensar — sobretudo mostrando os resultados que podemos conseguir com ele. Devemos estar conscientes das ligações entre pessoas, coisas e acontecimentos, e aprender que o pensamento não deve ser apenas binário / linear, mas também sistêmico. Essa combinação resulta no pensamento complexo.

Ao observar o desenvolvimento do pensamento complexo, é possível perceber três grupos de indivíduos.  Mariotti (2007) os descreve: o primeiro grupo entende intuitivamente do que se trata, e para essas pessoas o pensamento complexo, seus conceitos e ferramentas são facilmente compreensíveis. O segundo grupo, bem maior, é formado por pessoas que reagem positivamente e mostram  interesse quando ouvem falar do pensamento complexo e podem ser treinadas com bons resultados. Os componentes do terceiro grupo têm uma mentalidade fortemente cartesiana. Para eles o pensamento complexo é algo estranho,que quase sempre gera resistência ou rejeição. Contudo, esse terceiro grupo é muito importante, pois nos leva a repensar sempre nossos próprios conceitos e em como eles podem nos condicionar.

Em algum momento de nossas vidas, todos nós podemos ter de lidar com algum problema que vem crescendo por um longo tempo e em um determinado dia “explode”. E os “bombeiros” – pessoas que já vinham nos alertando sobre esse crescimento – em geral ajudam a resolvê-lo, mas nem sempre com bons resultados. Na verdade, a maior dificuldade  é que normalmente tentamos resolver um problema com a mesma mentalidade que o gerou – e, pior, usando as mesmas estratégias utilizadas para criá-lo.

##Assim, o que em geral acontece é que fornecemos a nós mesmos os meios para que o problema apareça novamente. Expliquemos. Quando analisamos de novo o mesmo problema ou mesma informação, repetimos a forma de análise. Podemos até fazer pequenos ajustes, mas não funcionarão. Na melhor das hipóteses, farão com que o processo se arraste. Se não usarmos um modo de pensar mais abrangente, não seremos bem sucedidos. Essa é uma das razões pelas quais devemos melhorar a nossa maneira de analisar problemas complexos: usando uma estratégia complexa para lidar com eles. Aprender com nossos erros é um ponto muito importante no pensamento complexo. Significa aprender com a experiência. É uma transformação mental e comportamental, que inclui o desenvolvimento de novas formas de observação e reflexão.

O que determina o grau de complexidade de um sistema não é o número de seus componentes, mas a quantidade das relações dinâmicas entre eles. Os sistemas complexos têm mais capacidade de se adaptar às transformações, e por isso lidam melhor com a diversidade e a incerteza. O objetivo do pensamento complexo é ligar coisas, pessoas, situações e contextos, a fim de gerar novas ideias a partir dessas interações. Para sermos capazes de reconhecer situações complexas  e lidar com paradoxos, é preciso entender que isso não pode ser feito por meio da lógica binária. Precisamos do pensamento complexo, que nos permite aceitar e compreender as constantes mudanças do mundo real, sem tentar negá-las ou esconder suas contradições e diversidades.

Mariotti (2007) apresenta alguns “operadores cognitivos” que podem nos ajudar a pensar de forma complexa. São ferramentas conceituais,  que ampliam as anteriormente desenvolvidas por Morin e serão descritas a seguir.

##Circularidade (feedback). Este deve ser considerado  o  operador principal, pois todos os demais são de alguma forma relacionados a ele. Segundo esse princípio,  as causa geram efeitos e os efeitos refluem sobre as causas e as modificam. No mundo real, não existem processos em que os efeitos não retroagem sobre as causas;  a circularidade está sempre presente.  Pode-se observar esse fenômeno nos processos cibernéticos. Ele tem sido chamado de feedback, e é auto-regulado, o que permitem que os sistemas se adaptem ao ambiente e este aos sistemas. Assim, os sistemas vivos se modificam para adaptar-se, o que gerou a expressão “sistemas complexos adaptativos”. O objetivo desse processo é manter o equilíbrio dinâmico,  seja nas estruturas  vivas, nas relações interpessoais, enfim, em qualquer tipo de organização.

Existem dois tipos de feedback: positivo e negativo. O de tipo negativo faz com que os sistemas mudem e se adaptem. O feedback positivo mantém o status dos sistemas.  A sociedade é um exemplo: o indivíduo produz a sociedade que produz o indivíduo. O efeito reflete sobre a causa e as mudanças se dão por meio dessa circularidade.

Auto-organização. Todos os sistemas vivos são autônomos, isto é, auto-organizados. Para isso eles precisam de matéria e energia do ambiente, ou seja, dependem do ambiente para sua sobrevivência. Nós, seres humanos construímos nossas culturas. Mas ao mesmo tempo, somos formados por nossas culturas, o que significa que somos simultaneamente, os fabricantes e os produtos. Esse princípio é válido para todos os seres vivos e seus ambientes. Nesse processo, é possível perceber um paradoxo: os seres vivos são autônomos, ou seja, podem adaptar-se e viver em ambientes diferentes. Por outro lado, eles dependem desses ambientes (água, ar, alimentos) para sobreviver. Morin chama esse fenômeno de paradoxo autonomia / dependência. Um exemplo interessante de auto-organização é a Internet, se prestarmos atenção à forma como a web se regula com nenhuma central elogiar ou controle. Nós também podemos dizer que o mercado muda a organizações que mudar o mercado.

Um exemplo muito interessante de auto-organização é a Internet, que funciona e se auto-organiza sem necessidade de nenhum comando ou controle centralizado. O mesmo vale para os mercados , em especial os financeiros.

Dialógica. Dialógica implica conviver com paradoxos, ou seja, contradições que não podem ser resolvidas. São fenômenos  muito frequentes no mundo real. Morin sugere que não há necessidade de resolver todas as contradições. Em alguns casos, temos de aprender a viver com elas, porque tentar resolvê-las é um desperdício de tempo e energia. Para reconhecer e aprender a lidar com paradoxos, é necessário usar o pensamento dialógico, ou seja, aprender a conviver com opostos ao mesmo tempo antagônicos e complementares. Sempre que estivermos diante de um problema para o qual não é possível encontrar solução, mesmo depois muito esforço, fingir que ele não existe não vai ajudar em nada. Assim,  compreender o pensamento dialógico e incorporá-lo ao nosso às nossas táticas, estratégias e práticas é um sinal de bom senso.

Como todos sabemos, os grupos nas empresas ou em qualquer organização sempre comportam um certo nível de conflito, o que pode ser bom para produzir novas ideias e deslocar as pessoas da zona de conforto. Depois de um certo ponto, porém, os sistemas podem baixar de produção ou até parar de funcionar. Em caso de conflitos, uma boa idéia é diagnosticar o seu nível e certificar-se de que os grupos estão no lado produtivo. Caso contrário, algum tipo de intervenção pode ser necessária.

A dialógica é útil para lidar com variáveis e incertezas que não podemos elimina. Ela nos mostra como identificar as possibilidades e limitações de determinados processos. O princípio dialógico ocorre quando pomos lado a lado dois princípios que, supostamente, deveriam ser mutuamente excludentes.  Se é certo que algumas contradições não podem ser resolvidos,  nesses casos devemos encontrar maneiras de conviver com elas, porque na prática há oposto que não podem existir  isoladamente.

O princípio  holográfico. Segundo esse princípio, o todo está em cada uma das suas partes e cada parte está no todo. Como exemplo, podemos usar a metáfora da sociedade, onde cada indivíduo tem dentro de si  o todo, o que inclui o idioma, a cultura, as leis e as normatizações.  Ao mesmo tempo, a sociedade inclui todos os indivíduos. Morin divide o princípio holográfico em quatro partes, todas elas interligadas:
1. O princípio da emergência. O todo é maior que a soma de suas partes. Por exemplo, um grupo pode rapidamente encontrar solução para um problema, porque sua sabedoria é maior do que a sabedoria de seus membros individuais.
2. O princípio da imposição. O todo é menor do que a soma de suas partes. Um bom exemplo é um grupo coral, em que a melhor voz não pode ser notada, já que todas as vozes funcionam como se fossem uma só.
3. O princípio da complexidade sistêmica. Segundo esse princípio, os dois anteriores (1 e 2) são, ao mesmo tempo, antagônicos e complementares. Dessa forma, o todo é ao mesmo tempo maior e menor do que as suas partes.  A relação entre eles é circular e não linear.
4. O princípio da distinção, mas não a separação de um objeto de seu ambiente. O conhecimento de qualquer organização deve começar com o conhecimento das interações entre ela e seu ambiente, isto é, o mercado. Levar em conta o contexto é indispensável para a compreensão de qualquer fenômeno complexo.
5. O princípio sistêmico ou organizacional. O conhecimento das partes está ligado ao conhecimento do todo, que, como já foi visto, é mais do que a soma das partes. Por outro lado, o conhecimento do todo produz qualidades ou propriedades novas não reveladas pela análise das partes.

Integração sujeito-objeto.  O observador faz parte daquilo que observa. A percepção é o resultado de um diálogo entre o observador e o observado. De acordo com Mariotti, “o mundo que percebemos é o mundo que podemos perceber”. Como nossos valores e crenças funcionam como filtros, só vemos o que nossas estruturas de percepção nos permitem ver. Quando um grupo ouve uma apresentação, seus componentes percebem e entendem o que acontece de formas semelhantes, mas  diferentes. O grupo vê e ouve as mesmas coisas, mas a forma como eles “leem” o que se passa  é diferente para cada indivíduo. Nossas  estruturas mentais são compostas de experiências passadas, crenças e valores, criando assim um conjunto único de filtros para cada indivíduo.

Ecologia da ação.  Depois de iniciada uma ação, as conseqüências suas consequências podem ser bem diferentes do esperado. Esse fenômeno é comum no dia a dia, e é devido ao fato de que o curso dos acontecimentos não é linear: há sempre incertezas, riscos e imprevisibilidades. Em relação a esse conceito, Morin sugere a existência de três contextos ou circuitos:

1. O circuito de precaução / risco. Antes de qualquer ação, é necessário considerar cuidadosamente os fatores que nos levam a determinadas escolhas.  Apesar de serem posturas antagônicas a audácia e a prudência, devem ser levadas em conta durante a análise das estratégias a adotar.

2. O circuito fins / meios. Os meios e os fins estão sempre relacionados. Em alguns casos, a percepção desse fato pode se perder durante a execução de uma ação, de modo que é preciso  cuidado para descobrir se os meios justificam os fins ou não.

3. A ação / circuito contexto. Já foi dito que uma vez começada a, não podemos ter a certeza do que ocorrerá. Uma vez iniciada, as ações aos poucos se afastam do controle de seus autores. Por fim, a longo prazo e em contextos mais remotos, ela pode ter efeitos imprevisíveis.

O pensamento complexo, proporciona conceitos e ferramentas para lidar com a incerteza, e também é capaz de unificar, globalizar e reconhecer a singularidade e o concreto. Não se trata de uma ciência ou filosofia, mas permite a construção de uma ponte entre elas (Morin, 2003). Uma das melhores ferramentas para colocá-lo em prática é a matriz Cynefin.

A matriz Cynefin

Essa ferramenta foi originalmente desenvolvida por David Snowden e colaboradores (Snowden & Boone, 2007). É utilizada para descrever, diagnosticar e entender os problemas e situações. O modelo se baseia no conceito de sistemas complexos adaptativos, e examina as relações entre os seres humanos e seus os contextos ou domínios.
A estrutura inclui cinco domínios: simples, complicado, complexo e caótico:

Domínio simples. As relações entre causas e efeitos são evidentes. Este é o contexto das melhores práticas. As maneiras de lidar com ele são: perceber, categorizar (priorizar), e responder (agir).

Domínio complicado.  A relação entre causas e efeitos nem sempre é simples e requer análise e, possivelmente, apoio especializado. Este é o domínio tecnológico, o contexto das boas práticas. As maneiras de lidar com ele são: perceber, analisar, responder (agir).

Domínio complexo. A relação entre causas e efeitos são muitas vezes pouco claras e só podem ser identificadas em retrospecto, não antecipadamente. Este é domínio das práticas emergentes (adaptativas).. As formas de lidar com ele são: investigar (pesquisar), perceber, responder (agir).

Domínio caótico. É o contexto das crises. Neste caso, não é possível perceber a relação entre causas e efeitos e tudo parece confuso e turbulento. É o domínio das práticas novas. As maneiras de lidar com ele são: agir (de imediato), perceber, responder (agir em seguida).

No centro da matriz está a desordem, o que significa que não é possível identificar contextos nem causalidades. A matriz Cynefin é uma ferramenta útil para analisar problemas e chegar a soluções. Tem sido usada com bons resultados em todo o mundo, em  empresas e outras instituições. O leitor é convidado a acessar seu site, onde encontrará informações detalhadas sobre o modelo e as organizações que o utilizaram.

Conclusões

  • Nosso modo de pensar é progressivamente estruturado desde que nascemos. Primeiro imitamos nossos pais e depois, na escola, tomamos contato com o modo ocidental de raciocinar, que fragmenta as coisas as situações para em seguida e analisar as partes separadas. As teorias modernas de gestão seguem a mesma orientação: analisar cada ponto e corrigi-lo para depois tentar corrigir o todo. Mas o mundo está mudando, e essa maneira de pensar já não proporciona os melhores resultados. O mundo de hoje é muito mais complexo, as ligações entre as coisas, eventos e contextos são muito mais numerosas, o tempo decorrido entre as mudanças é muito menor, e a necessidade de inovação é maior.
  • A fim de promover e gerir qualquer mudança, as análises devem levar em conta a complexidade das estruturas e dos contextos. As mudanças são as única certezas no mundo de hoje, e as empresas que não conseguem adaptar-se a elas não sobreviverão. No nosso dia a dia esse fenômeno acontece o tempo todo, mas a maioria das pessoas condicionadas pela forma cartesiana de pensar são constantemente confrontadas com muitas dificuldades.
  • Para mudar qualquer sistema de pensamento é indispensável a educação. Nas escolas e organizações que utilizam estudos de casos por meio do pensamento complexo, é possível  desenvolver formas rápidas de comparar os modos convencionais com os novos .Mas é preciso   treinamento intensivo e apresentação de resultados, isto é, demonstrar na prática que o pensamento complexo e suas aplicações à gestão da complexidade são propostas realmente eficazes.
  • Mudança de modo de pensar está estreitamente ligada à adoção de novos valores. De acordo com Morin et al (2009), o mais importante é entender os  conceitos e as ferramentas, mas utilizá-los com bases éticas, de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social. Essa é a melhor maneira de implementar mudanças sustentáveis.
  • O segundo ponto mais importante é o poder atribuído  às equipes que aprendem a capacitar-se para lidar com a incerteza. Os grupos se organizam para modificar o ambiente, mas também são influenciados por ele, e assim são construídas construímos nossas ideias e crenças. Segundo Mariotti, “não há percepção de que seja totalmente objetiva, mas também não há percepção totalmente subjetiva”.Uma boa maneira de definir as mudanças que buscamos é sugerida por esse mesmo autor: “A introdução do pensamento complexo e da gestão da complexidade constituem um projeto de mudança cultural profunda, ampla e de longo prazo”.

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2 Respostas to “O mundo está em mudança: precisamos do pensamento complexo”

  1. rogerio Says:

    Excelente artigo. Responde as necessidades atuais dos gestores.
    abs

  2. Michelle Says:

    Podemos sim mudar algo em nossa volta com o fator “pensamento” aplicando e ensinando não só com palavras, mas com atitudes, poderemos sim fazer algo não só ao nosso redor como envolvendo uma cidade, 2 cidades 3 cidades, um Estado…eu e voçe, nós podemos sim, muitos influenciaram e fizeram revoluções, alguns claro de forma negativa, mas influenciaram…porém digo só podemos fazer isso mudando um mundo interior e só podemos mudar o mundo verdadeiramente se Deus for o centro de tudo, sem qualquer medo de falar, de ser de fazer…no fundo todos se voltam pra Deus. Então com Deus podemos mudar o mundo exterior e interior.

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