Archive for fevereiro \28\UTC 2011

Felicidade

fevereiro 28, 2011

A felicidade está em conhecer os nossos limites e em apreciá-los.

Romain Rolland

O Tigre da Esso

fevereiro 26, 2011

Mais uma vez, o fabulsos artigo semanal de Luciano Pires.

Semana passada li uma noticia que me entristeceu: a bandeira da Esso vai desaparecer, substituída pela da Shell. Puxa vida… Que triste. Mas foi assim também com a Pan Am, com a Varig, com o Mappin, com a Manchete e tantas outras, não é? Faz parte. Esse acontecimento me lembrou de duas histórias.

Uma vez fui convidado para apresentar o Brasil para a diretoria de uma multinacional norte americana que estava decidindo em qual país fazer um investimento milionário. Fiz a apresentação baseada em valores culturais, mostrando como o Brasil se desenvolveu ao longo do tempo, como é o jeito de trabalhar do brasileiro, nossas similaridades com a cultura dos Estados Unidos e como somos diferentes – e melhores para investir – que Índia, China ou Russia. Ao final, muito aplaudido, ouvi do presidente da empresa:

– Ótima apresentação Luciano. Pena que não possa ser feita para Wall Street.

Eu havia combinado lógica com emoção, causando um grande impacto na platéia. Usei música e carnaval, falei de nosso potencial, qualidades e jogo de cintura, com humor e entusiasmo. Mas Wall Street não fala essa língua. Para eles a única verdade fundamental é: grana!

Algum tempo depois, uma das grandes empresas com a qual eu me relacionava vendeu uma de suas operações de fabricação e distribuição de um produto muito conhecido no mercado. Foi uma transação global envolvendo bilhões de dólares, na qual o Brasil representava cerca de 10% do negócio. Durante o processo, consultado sobre os termos do contrato, defendi veementemente que a marca do produto, pacientemente construída ao longo de anos, não entrasse no negócio. Que vendessem os prédios, as máquinas, os processos, a carteira de clientes e o sistema de distribuição. Mas que apenas licenciassem a marca. Não teve jeito. O negócio foi feito baseado no valor dos “ativos tangíveis”, uma ninharia. No fim, presentearam o comprador com a marca, que era o ativo mais valioso do negócio. Infelizmente, intangível.

Bem, voltando ao princípio, desconheço as condições do negócio feito com a Esso, mas o anúncio de que a “marca vai acabar” mostra quanto ela vale: nada.

Ah, mas “o mundo mudou, os jovens não tem mais a referência da marca, que já foi esquecida”, etc e tal…

Faço parte de uma geração – economicamente muito ativa – que tem uma referência cultural profunda com a marca Esso. Arrisco-me a dizer que para nós “Esso” não é uma empresa ou um produto. É um ícone pop. Cresci com ela. Peguei o finalzinho do Reporter Esso, curti demais o casalzinho de gotinhas andando de lambreta e depois o “Tigre da Esso que acabou de chegar”. A Esso fez minha cabeça muito antes de eu tirar habilitação e me transformar num consumidor de seus produtos. Mesmo trinta ou quarenta anos depois da Esso perder presença na propaganda, eu a uso como exemplo de um trabalho excepcional de construção de marca em minhas palestras. Guardo a marca no meu coração, junto às lembranças mais queridas de minha juventude. Para mim a Esso é emoção.

Quanto vale isso?

Pena que Wall Street não fale essa língua.

Luciano Pires

Pessoa no cartoon

fevereiro 24, 2011

Achei formidável o cartoon de Fernando Pessoa. Hoje trago mais um. Cartoon de Ricardo Campus.

O legado da semana de 22

fevereiro 23, 2011

Antropofagia – Tarcila do Amaral

Nas três últimas semanas, reservamos esse espaço de quarta para falar da Semana de Arte Moderna de 1922, que aconteceu em São Paulo. Os posts Semana da arte moderna de 22, Manifesto Antropófago e este de hoje completam a singela homenagem à nossa história de contestação, de quebra de paradigmas.

O post de hoje está dividido em 2 partes. A primeira é uma cronologia que começa com acontecimentos que antecederam os dias de evento da semana de 22 e um resumo dos 3 dias de evento. A fonte é o banco de dados do jornal Folha de São Paulo.

Na segunda parte há algumas edições da revista Klaxon, meio de comunicação da nova escola artística que nasceu nesse evento.

Alguns Fatos Importantes que Antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922

1911 — Oswald de Andrade funda o periódico “O Pirralho”

1912 — Oswald chega ao Brasil trazendo da Europa o conhecimento de novas formas de expressão artística, como as de Paul Fort e as sugeridas pelo “Manifesto Futurista” do poeta italiano Marinetti. Surgem as primeiras colagens de Braque e Picasso, possíveis origens do cubismo

1913 — Exposição do pintor Lasar Segall em Campinas (São Paulo)

1914 — O francês Marcel Duchamp lança os ready-mades

1915 — O poeta Ronald de Carvalho participa no Rio da fundação da revista “Orfeu”, dirigida em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro

1917 — Exposição de Anita Malfatti. O escritor Monteiro Lobato escreve o artigo “Paranóia ou Mistificação?”, onde critica vigorosamente as inovações na pintura de Anita e se envolve em uma polêmica com os principais artistas do movimento modernista

1918 — É lançado o “Manifesto Dadá”

1919 — Surgimento do Fascismo na Itália e adesão de Marinetti

1920 — Oswald de Andrade e Menotti del Picchia fundam a revista “Papel e Tinta”. Graça Aranha publica “Estética da Vida”. Victor Brecheret expõe as maquetes do monumento às Bandeiras (SP). Exposição de Anita Malfatti e John Graz.

1921 — Oswald de Andrade publica “Meu Poeta Futurista” e Mário de Andrade responde com “Futurista?!”. Mário publica o artigo “Mestres do Passado”

Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Plínio salgado, Anita Malfatti, Menotti Del picchia, Guilherme de Almeida, Sergio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Tácito de Almeida, Entre outros.

A SEMANA

13.fev.1922 — A Semana de Arte Moderna é inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo com palestra do escritor Graça Aranha, ilustrada por comentários musicais e poemas de Guilherme de Almeida. O primeiro dia corre sem tropeços. Depois da longa e erudita fala de Aranha, um conjunto de câmara ocupa o palco para executar obras de Villa-Lobos. Após o intervalo, Ronald de Carvalho discursa sobre pintura e escultura modernas. A platéia começa a se manifestar. Diante dos zurros do público, Ronald de Carvalho devolve: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.” O gran finale surge na forma de um recital de música comandado pelo maestro Ernani Braga

15.fev.1922 — A noite que celebrizou a semana começa com um discurso de Menotti del Picchia sobre romancistas contemporâneos, acompanhado por leitura de poesias e números de dança. É aplaudido. Mas, quando é anunciado Oswald de Andrade, começam as vaias e insultos na platéia, que só param quando sobe ao palco a aclamada pianista Guiomar Novaes. Heitor Villa-Lobos se apresenta no palco do Municipal apoiado em um guarda-chuva e calçando chinelos

17.fev.1922 — A última noite da programação é totalmente dedicada à música de Villa-Lobos. As vaias continuam até que a maioria pede silêncio para ouvir Villa-Lobos. Os instrumentistas tentam executar as peças incluídas no programa apesar do barulho feito pelos espectadores e levam o recital até o fim

Logo após os bulhentos espetáculos do Teatro Municipal, é lançada a revista “Klaxon”, que divulga as produções da nova escola. Calcados no êxito conseguido com as agitadas noites de fevereiro, os jovens artistas conseguem espaço e estímulo para, ainda em 1922, dar continuidade ao seu trabalho. Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, o livro de poesias no qual todos os procedimentos poéticos mais arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez. Oswald de Andrade lança “Os Condenados”.

Exemplares 01,02,04,05 e 08 da revista Klaxon. fonte: Brasilianas.org

Klaxon 001

Klaxon 002

Klaxon 004

Klaxon 005

Klaxon 008

Espero que vocês apreciem.

Sds,

DC

Idéia sensacional

fevereiro 22, 2011

Chego a conclusão que preciso mostrar mais coisas boas por aqui. Pois então, vou valorizar uma idéia que é SENSACIONAL.

Em uma feira de tecnologia sustentável no Japão, que acontece na cidade de Kawasaki, foi apresentado um purificador de água para ser carregado na bicicleta.

A ser pedalada, a Cycloclean gera energia que faz com que o sistema de purificação funcione. O equipamento pode gerar cerca de cinco litros em um minuto.

A bicicleta é um dos meios de transporte mais utilizado pelos japoneses, mas a fabricante da Cycloclean, a Nippon Basic, pretende fazer uma produção em massa no país vizinho, Bangladesh, para que água limpa possa socorrer vilarejos remotos e áreas que sofreram desastres naturais.

fonte: France Presse e Folha.com

Somos todos criadores

fevereiro 22, 2011

O potencial criativo humano é infinito! Neste vídeo, Dale Dougherty nos mostra que todos nós somos criadores (MAKERS). Temos o instinto de gerar idéias novas, de melhorar…

América foi construída por criadores — curiosos, inventores amadores entusiastas cujos hábitos de remendar iniciaram indústrias completamente novas. No TED@MotorCity, o editor da revista MAKE, Dale Dougherty diz que somos todos criadores no coração, e mostra divertidas novas ferramentas para remendar, como Arduinos, impressoras 3D acessíveis, até satélites DIY.

Dale Dougherty: Nós somos criadores

Crie.

DC

Aprender

fevereiro 21, 2011

Se de manhã pudermos aprender o que é correcto, devemos sentir-nos contentes se morrermos à tarde

Máximas dos Anacletos, IV. Textos Confuccionistas. de Citador.pt

O complexo pensamento de Edgar Morin

fevereiro 20, 2011

Encontrei essa matéria no site da UFMG sobre uma plaestra do Edgar Morin sobre o pensamento complexo. Um texto curto, alinhado com a proposta dessa coluna de iniciar os leitores ( e a mim também) nessa temática do pensamento complexo.

Texto de Maurício Silva Júnior.

O complexo pensamento de Edgar Morin

Em palestra na Fafich, intelectual francês criticou economistas por se isolarem do resto das ciências humanas.

É preciso reagrupar os saberes para buscar a compreensão do universo”. Dessa maneira, o pensador francês Edgar Morin resumiu parte de sua teoria do pensamento complexo, tema que o trouxe à Fafich, no dia 15, para um debate com a comunidade universitária. Morin falou para uma platéia atenta, que lotou o auditório Sônia Viegas. Compondo a mesa estavam os professores italianos Gianluca Bocchi, Mauro Ceruti, Telmo Pievani e Oscar Nicolau, além da diretora da Fafich, Vera Alice Cardoso.

Através do pensamento complexo, Morin procura restituir um “conhecimento que se encontra adormecido”, reagrupando unidade e diversidade. Com o passar dos tempos, as teorias restringiram-se a estudos por área e a complexidade das questões do homem tem sido pouco compreendida. Na opinião de Morin, os pesquisadores deveriam inscrever a competência especializada num contexto natural, na globalidade. O pensador francês propõe a hierarquização e a organização do saber no pensamento contemporâneo. “Devemos contextualizar cada acontecimento, pois as coisas não acontecem separadamente. Os átomos surgidos nos primeiros segundos do Universo têm relação com cada um de nós”.

Para exemplificar a ineficiência do pensamento especializado na com-preensão do todo, Morin lembrou as ciências econômicas, que há anos procuram solucionar questões importantes fundamentando-se exclusivamente na matemática e na lógica. Dessa maneira, os economistas não têm conseguido predizer as crises. “Eles se isolaram do resto das ciências humanas e se esqueceram da influência dos sentimentos, dos medos e dos desejos no processo econômico”, afirma. Novos horizontes, no entanto, podem ser observados com o surgimento das ciências que reagrupam disciplinas, tratando os assuntos através de diversos ângulos. Cita como exemplo a cosmologia, que vem misturando astrofísica, microfísica e uma série de reflexões filosóficas.

Morin ressaltou a capacidade humana de enxergar o mundo com um viés poético. A prosa da vida assegura a sobrevivência e a poesia estimula a viver. “Muitas pessoas garantem a subsistência com determinado tipo de trabalho, sem deixar de investir em outras áreas que lhes dão mais prazer”. O pensador ressaltou, ainda, a importância do contexto histórico na formação dos cidadãos. O desafio da complexidade está exatamente na compreensão de “nossa comunidade de destinos”. “Podem nos levar à catástrofe. Por isso a coletividade é tão importante. Diante das batalhas cotidianas, estaremos juntos nas vitórias e nas derrotas”.

Impulso ou Incentivo?

fevereiro 19, 2011

Nesse sábado, mais um artigo do palestrante Luciano Pires, retirado do site Portal Café Brasil.

 

No intervalo de uma palestra, ao assistir a posse do Deputado Everardo Oliveira da Silva, ex-Tiririca, me perguntei o que leva um artista a seguir a carreira política?

Para refletir a respeito partirei de dois crimes recentes: o do goleiro acusado de mandar matar a amante, sumindo com o corpo, e o do advogado acusado de afogar a ex-namorada na represa. A coisa mais importante para solucionar esses crimes é simples: a motivação. Encontrada a motivação, a solução aparece. No caso do goleiro Bruno, a motivação foram as ameaças da vítima de contar o que sabia. No crime contra a advogada, a motivação não está clara e o suspeito continua livre.

Tudo que fazemos (tá bem, quase tudo), fazemos por algum motivo, já dizia Miguel de Cervantes: “Tirado o motivo, tirado o pecado”.

Existem várias definições para “motivação”. Uma que gosto muito é: motivação é o processo físico e psicológico que nos impulsiona em direção a um objetivo definido. Portanto motivação é um processo, uma somatória de forças. Se a motivação vem de dentro, é impulso. Vinda de fora, é incentivo.

Por exemplo, digamos que você é um homem heterossexual, essa coisa tão fora de moda. Sua necessidade de sexo (de dentro para fora) é o impulso que leva você a sair para “azarar” na noite. E a visão (de fora para dentro) da Mulher-Pêra na pista de dança da balada é o incentivo para que você tente abordá-la. É a soma do impulso com o incentivo que motiva a ação. Se a única “moça” que você encontrar na balada for um travesti, o impulso terá que ser muito forte para complementar o fraco incentivo. A não ser que você seja chegado, é claro… E a recíproca é verdadeira. Uma mulher maravilhosamente sexy é o incentivo que desperta um fraco impulso.

Bem, mas esse é tema pra psicólogos. O que quero aqui é refletir sobre a motivação para alguém escolher a carreira de político.

Pensando no impulso (de dentro para fora) conclui que pode ser a vontade de fazer o bem a seus semelhantes, de contribuir como cidadão. Pode ser a necessidade de impedir que bandidos tomem conta do bem público; a vontade de contribuir para o progresso do país. Legal, né?

Mas ao refletir sobre o incentivo (de fora para dentro), tomei um susto: ganhar muito dinheiro fácil; ter todo tipo de mordomia; ser bajulado como autoridade; arrumar aposentadoria com pouco tempo de trabalho; arranjar a vida de parentes; faltar no trabalho sem problemas…

Ué, é claro! O incentivo não vem de fora pra dentro, das coisas e exemplos que vejo? Então…

Tô aqui pensando. O que será que foi mais forte pro Deputado Tiririca e para a maioria de seus colegas?

Impulso ou incentivo?

Luciano Pires

Realidade

fevereiro 17, 2011

Realidade

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos…
Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —
Nesta localidade da cidade…

Há vinte anos!…
O que eu era então! Ora, era outro…
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada…

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)…
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos…
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse…
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer…

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
lembradamente de azul.

Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada…

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso…
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

Olhamos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isso realmente se desse…
Verdadeiramente se desse…
Sim, carnalmente se desse…

Sim, talvez…

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa