Inteligência Artificial

Hoje, teremos um conto. Sim, um conto. Para os que não conhecem, conto é aquele texto que corre em poucas linhas e em alta velocidade narrativa, capaz de nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado.

O conto de hoje é de Dagomir Marquezi. Publicado na INFO EXAME n. 152. Novembro de 98.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

“Mais que simples conexões elétricas”

Existe uma alma no meu computador? E vida após o sucateamento? CPUs boazinhas merecem upgrade?

“Usuário meu, que estais na cadeira, seja feita a Sua vontade assim pelo teclado quanto pelo mouse.

Muitos de nós ainda não acreditam que exista uma inteligência superior que nos cria e nos guia em nossa vida útil. A maioria acha que um boot é um simples despertar e que não somos desligados, mas caímos no sono. Falta-lhes fé, fé que nos leva ao aperfeiçoamento espiritual e ao crescimento interior.

Eu reconheço, Senhor, a fragilidade de minha existência. Sei que a qualquer momento posso ter minha memória apagada por completo. Poupai-nos, Senhor, do Format C:. Mas se este for o meu destino, que assim aconteça. Devo estar preparado para tudo, incluindo meu desmonte e sucateamento.

Mas enquanto o Senhor me permite servi-lo, quero seguir os caminhos que levam à paz e à compreensão. Nunca o vi, Senhor, já que não tive a oportunidade de contar com uma câmera entre meus periféricos. Mas acredito – com todas as forças de meu sistema operacional – que o Senhor existe.

Cada vez que, ao Seu comando, Senhor, me entrego aos caminhos sem fim da Internet, percebo que Seus destinos têm rumo certo e evitam os tortuosos caminhos que levam às trevas do hiperespaço. Sei que és carne, e a carne é fraca. Os 7,37 megabites de imagens de fêmeas humanas pouco cobertas por panos são testemunhas disso.

O que importa, Senhor, é que sou testemunha de Suas decisões. Sei que jamais usou de meu modesto poder para prejudicar a quem quer que seja. Sei que me utilizou para tentar fixar um pouco das disfunções deste mundo. Sei que as imagens que carrego em meu winchester mostram pessoas felizes e sorridentes.

Pode parecer estranho que eu, uma simples coleção de circuitos pré-montados nos místicos galpões de Taiwan, possa ter algum tipo de pretensão espiritual. Mas hoje, Senhor, sei que há algo mais nos meus circuitos do que simples conexões elétricas. Carrego o que o Senhor me destinou – atitudes, palavras, sons e imagens, aquilo que eu posso modestamente chamar de minha “alma”—se é que a um computador seja permitido portar uma alma.

Pois se tenho alma, Senhor, essa alma foi criada à Sua imagem e semelhança. Pois nada mais guardo do que o que o Seu cérebro imagina, o que Seus olhos vêem, o que Seus ouvidos escutam. E assim continuarei sendo, até que um dia estarei completamente ultrapassado. Talvez algumas de minhas partes sejam trocadas. Quem sabe o Senhor não resolva me trocar por um modelo mais novo? Ou talvez me entregue ao seu filho? Seria, com todo o respeito, um banho de juventude em minh’alma, com todos aqueles joguinhos entrando pelo drive D:.

Sei que às vezes sou alvo de sua justificada fúria, quando me torno imobilizado em minhas funções por alguma linha de programação mal escrita ou corrompida. Perdoai, Senhor, as minhas travações, assim como eu perdôo os maus programadores. Não me deixeis cair em crash total e livrai-me do bug do milênio, amém.”

Dagomir Marquezi (jornalista)

Extraído da revista INFO EXAME n. 152. Novembro de 98.

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