Archive for setembro \30\UTC 2010

Mais informação para as eleições

setembro 30, 2010

Nessa reta final para as eleições, não custa ressaltar mais uma vez alguns desafios que temos daqui pra frente. A matéria abaixo é de Rogerio Wassermann, da BBC.

  O que falta para o Brasil se tornar um país desenvolvido?

Surfando na marola

O Brasil foi uma das primeiras grandes economias a superar a crise global, deve crescer mais de 7% neste ano, vem reduzindo a pobreza e melhorando em vários indicadores sociais.

Mas o país chegará algum dia a se tornar uma nação considerada desenvolvida? E o que falta para isso acontecer?

“O Brasil precisa melhorar a qualidade da educação pública”, diz o editor para as Américas da revista britânica The Economist, Michael Reid.

“É necessário que o Brasil amplie a sua classe média”, afirma o economista Jim O’Neill.

“O Brasil precisa aumentar a taxa de poupança interna para acima de 30% do PIB”, sugere o comentarista econômico do jornal britânico Financial Times.

A poucos dias das eleições presidenciais, esses e outros especialistas estrangeiros, ouvidos pela BBC Brasil, listaram os desafios que o país ainda enfrenta para chegar à condição de nação desenvolvida.

Economistas, acadêmicos, representantes de organizações internacionais, think- tanks e organizações não-governamentais afirmam que o Brasil ainda tem muito a fazer em áreas que incluem redução da desigualdade, a melhoria da educação, reformas nas instituições públicas, combate à corrupção, combate à violência e até mesmo respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos.

“O Brasil está vivendo um momento excepcional, fruto de décadas de trabalho árduo. Porém nenhum desenvolvimento acontece sem obstáculos, e os desafios permanecem”, diz o economista senegalês Makhtar Diop, diretor do Banco Mundial para o Brasil.

Pobreza e desigualdade

A economia brasileira se consolidou como a 8ª maior do mundo neste ano, mas o país ainda é apenas o 72º do mundo em renda per capita, atrás de países como Argentina (50º), México (53º), Turquia (57º), Venezuela (66º) e Irã (68º), segundo dados do Banco Mundial.

Nos últimos oito anos, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o crescimento econômico ajudou a tirar mais de 20 milhões de pessoas da pobreza. Mas dados do Banco Mundial mostram que o Brasil ainda tinha, em 2007, 12,7% de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza, com menos de US$ 2 por dia. Há 30 anos, esse porcentual era de 31,1%.

Para efeito de comparação, a China, que em 1981 tinha 97,8% de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza, chegou a 2005 com 36,3%. Segundo os critérios do Banco Mundial, o percentual de pobres nos principais países desenvolvidos é próximo de zero.

O Brasil também continua sendo um dos mais desiguais do mundo – de acordo com o coeficiente de Gini, calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Brasil tem a 11ª maior desigualdade entre ricos e pobres no mundo.

“A desigualdade é o maior problema do Brasil. A desigualdade enfraquece o crescimento econômico e gera altos níveis de criminalidade e insegurança”, observa o americano Barry Ames, diretor do departamento de ciência política da Universidade de Pittsburgh e especialista em Brasil do Centro de Estudos Latino-Americanos da instituição.

O coeficiente de Gini tem uma variação entre 0 (mais igual) e 1 (mais desigual). O coeficiente do Brasil é 0,550, melhor apenas do que Honduras, África do Sul, Bolívia, Colômbia, Angola, Haiti, Afeganistão, Botsuana, Guiné Equatorial e Namíbia.

Os países menos desiguais do mundo, segundo o PNUD, são Dinamarca e Japão, com coeficientes 0,247 e 0,249, respectivamente. Os Estados Unidos, país mais desigual entre os países desenvolvidos, está apenas em 89º no ranking global, com coeficiente 0,408.

País de classe média

O crescimento econômico e a redução da pobreza tiveram como efeito um fenômeno que para muitos analistas mostra o Brasil no caminho de ser um país predominantemente de classe média, característica da grande maioria dos países desenvolvidos.

Segundo um estudo publicado neste mês pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a classe C passou no ano passado a representar mais da metade da população brasileira (50,5%), com a incorporação de 29 milhões de pessoas entre 2003 e 2009, e ultrapassou as classes A e B em pode de compra.

“Se há uma única diferença entre uma economia tipicamente desenvolvida e uma em desenvolvimento, é talvez o tamanho de suas classes médias”, diz o britânico Jim O’Neill, que como economista-chefe do banco Goldman Sachs cunhou o acrônimo BRIC para identificar os quatro gigantes emergentes Brasil, Rússia, Índia e China.

Mas os sinais positivos da economia brasileira são seguidos por problemas persistentes identificados mais comumente como “problemas de terceiro mundo”, como é o caso da corrupção.

Em um ranking anual sobre percepção de corrupção divulgado pela ONG Transparência Internacional no fim do ano passado, o Brasil obteve uma avaliação levemente pior do que no ano anterior, apesar de ter subido cinco posições no ranking de 182 países, ocupando a 75ª posição.

O Brasil aparece à frente da China (79ª posição) e apenas algumas posições atrás da Itália (63ª), país que faz parte do G7, o grupo que reúne os sete países mais industrializados do mundo. Os Estados Unidos aparecem na 19ª posição, e a Nova Zelândia lidera o ranking.

Para a diretora-executiva da Transparência Internacional, Huguette Labelle, se quiser chegar ao nível de nação desenvolvida o Brasil precisa avançar nessa área. “O desafio do Brasil agora é fortalecer suas instituições, fazê-las ainda mais transparentes e melhorar suas prestações de contas ao público em todos os níveis de governo”, afirma Labelle.

Educação e saúde

Indicadores sociais em áreas como educação e saúde também mostram o longo caminho que o país ainda precisa percorrer para atingir o status de país desenvolvido.

A taxa de analfabetismo no país, que em 1960 chegava a 40%, caiu a 9,7% no ano passado, segundo dados do IBGE, enquanto o acesso à educação básica foi praticamente universalizado no país, com uma elevação do acesso à escola de 86,6% em 1992 para 97,9% em 2008, entre as crianças de 7 a 14 anos.

Além disso, no período entre 1998 e 2008, o número de alunos matriculados no ensino superior no país mais que dobrou, passando de 2,1 milhões para 5,1 milhões, segundo o Ministério da Educação.

Mas se os números absolutos mostram uma evolução, a qualidade do ensino ainda deixa a desejar. Um estudo elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 2007 mostrou os alunos brasileiros entre os piores em conhecimentos de matemática, capacidade de leitura e ciências entre 57 países analisados.

“A melhoria da qualidade da educação pública é sem dúvida um dos pontos necessários para que o Brasil possa ser elevado à categoria de país desenvolvido”, observa o jornalista Michael Reid, editor para as Américas da revista britânica The Economist.

Para o brasilianista Gonzálo Gómez Dacal, diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, na Espanha, somente com a melhoria da qualidade da educação pública em todos os níveis que o Brasil será capaz de aproveitar “os recursos intelectuais de toda a população, especialmente da capacidade de criação das pessoas inteligentes que formam parte das camadas mais desfavorecidas da população”.

Qualidade de vida

Na área da saúde, mais uma vez, a universalização conseguida pelo Sistema Único de Saúde convive com questionamentos sobre a qualidade do atendimento e dos programas de prevenção.

A expectativa de vida do brasileiro subiu de 66 anos, em 1991, para 72,4 em 2010, segundo dados da ONU, deixando o país no 92º lugar do ranking mundial sobre esse indicador.

O país também conseguiu reduzir a mortalidade infantil em mais de 60% nos últimos anos, de 52,04 mortes por mil nascimentos em 1990 para 19,88 a cada mil em 2010.

Ainda assim, o Brasil ainda é o 90º do ranking nesse indicador, muito aquém de países como Grécia (6,7 mortes por mil nascimentos), Estados Unidos (6,3) ou Portugal (5) e mais longe ainda dos países com menos mortes – Islândia (2,9), Cingapura (3) ou Japão (3,2).

Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pouco menos de um décimo da população brasileira ainda não tem acesso a água potável tratada, mas na área rural, essa proporção aumenta para 4 em cada 10 moradores. O acesso a esgoto chega a apenas 77% da população, e apenas 37% na área rural.

A condição brasileira é melhor do que a de outro gigante emergente, a China, que tem 88% da população com acesso a água tratada e 65% com acesso a esgoto, mas ainda está muito aquém de países desenvolvidos como Estados Unidos, (99% com acesso a água e 100% com acesso a esgoto) ou Portugal (99% e 99%).

Avanços e desafios

As estatísticas mostram que o Brasil vem avançando nos últimos anos, em algumas áreas a passos largos e em outras a passos curtos, mas que o caminho para chegar a ser um país desenvolvido ainda é longo.

“As condições de base estão dadas para que o país se torne uma potência”, afirma o representante no Brasil do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), José Luis Lupo, para quem a concretização desse potencial depende de ações do governo por reformas.

“O Brasil enfrenta desafios importantes para se transformar de um país ‘de renda média’ para uma economia inovadora e movida pelo conhecimento”, afirma a consultora suíço-americana Suzanne Rosselet-McCauley, vice-diretora do Centro Mundial de Competitividade da escola suíça de administração IMD, uma das cinco principais da Europa.

“Ainda está para ser visto se o país pode evitar a ‘armadilha do rendimento médio’ ao manter seus ganhos de estabilidade macroeconômica e política e se beneficiar de níveis mais altos de crescimento”, avalia.

Última questão: Está rolando na WEB um vídeo do CQC, onde eles simulam um pedido de um deputado fictício para incluir a cachaça na cesta básica do brasileiro. Vários deputados assinaram a PEC (projeto de emenda constitucional) sem ler. Depois foram arguídos sobre o que assinaram e eles desconversavam. É uma vergonha! Tenho o vídeo. Quem quiser, é só comentar este post colocando o e-mail para envio.

Sds,

DC

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Sobre as escolhas

setembro 28, 2010

Fazer escolhas. É isso que você faz a cada segundo.

Nesse vídeo, Sheena Iyengar descreve como fazemos escolhas (mais particularmente sobre o modo de escolher norte-americano). Seu método de pesquisa foi interessantíssimo e me senti provocado em pensar como faço minhas escolhas. Ela levantou suposições básicas a respeito das escolhas e mostrou um outro lado que nem imaginávamos.

Sheena Iyengar: A arte de escolher

Resumo: Sheena Iyengar estuda como fazemos escolhas — e como nos sentimos sobre as escolhas que fazemos. No TEDGlobal, ela fala sobre ambos tipos de escolhas, as triviais (Coca ou Pepsi) e as mais profundas, e compartilha sua inovadora pesquisa que revela algumas surpreendentes atitudes sobre nossas decisões.

São 24 minutos muito bem investidos em ouvir alguém falar.

Influenciei na sua escolha?

Saudações,

DC

Nossa Civilização

setembro 27, 2010

Hoje o aforismo é de R. W. Livingstone. Ele descreve de maneira curta e essencial nossa condição social.

Se você deseja uma descrição de nossa era, eis aqui uma: a civilização dos meios sem os fins; opulenta em meios para além de qualquer outra época, e quase para além das necessidades humanas, mas esbanjando-os e utilizando-os mal porque não possui nenhum ideal soberano; um vasto corpo com uma alma esquálida.

R.W. Livingstone (1945)

Qual é o fim disso tudo? Qual é o propósito, ou melhor, o ideal soberano. Apenas acumular riqueza? Ter prazer?

Fica a dúvida!

Abraços,

DC

Retrato da camaradagem no Brasil

setembro 24, 2010

Qual o limite entre a Ética e a Camaradagem?

A certeza de ser um eterno aprendiz

setembro 23, 2010

Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz…

Trecho de Eterno Aprendiz de Gonzaguinha.

O título deste post, ligeiramente diferente da música de gonzaguinha, é para provocar o leitor a pensar sobre o que ele aprende com a vida.

Este breve espaço de tempo entre a inspiração e a expiração, que com infinitas possibilidades, é a maior professora que existe. Ela nos faz aprender a cada segundo. Uma das poucas certezas que temos é que aprendemos com a vida.

Os momentos mais difícieis são os mais adequados para aprender muito. Talvez a pergunta feita “Por que isso aconteceu comigo?” tem como uma possível resposta “Para você aprender”.

Reflita sobre todas as coisas que estão disponíveis para seu aprendizado. Você vai ver que é muito mais do que imagina.

Deixo vocês com um poema de Bertold Brecht, publicado em “‘Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas” e traduzido por Paulo Quintela.

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c’os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Um grande abraço,

DC

A arte e o trabalho

setembro 22, 2010

Hoje a sétima arte, o cinema,  será a o gatilho da provocação de hoje.

O filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin critica severamente o mundo moderno e industrializado. Lucros, exploração, condições de trabalho precárias, “escravidão de carteira assinada”.

Quero provocar todos hoje a pensar sobre a sua relação com o trabalho. Quero que vá além da análise “vender mão de obra para sobreviver”.

Pense se exercer uma atividade que produz algum valor é necessário para nossa vida.

Um grande abraço,

DC

Será que funciona?

setembro 21, 2010

Pensar em resolver problemas críticos e fundamentais é um propósito eu. E para os leitores que acompanham este blog, sabem que me preocupo com a questão da pobreza.

Encontrei um vídeo da Esther Duflo, professora do MIT e atuante na questão do combate à pobreza.

Sua idéia é fazer pequenos passos para combater a pobreza. Vacina + mosquiteiro + educação faz uma grande diferença.

Em seu vídeo ela utiliza de métodos de pesquisa de medicamentos para estudar as razões de sucesso ou não sucesso de experimentos sociais que combatem a pobreza. O pensamento da revolução tecnológica (fazer por menos) te que chegar às políticas sociais. Não apenas um bolsa família.

Saber se funciona faz toda a diferença. Ainda não temos a reposta sobre como exterminar com a pobreza, mas podemos saber porque uma solução funciona ou não. Veja o vídeo:

Esther Duflo: Experimentos sociais para combater a pobreza

Resumo: Diminuir a pobreza é mais conjectura do que ciência, e a falta de dados sobre o impacto da ajuda levanta questões de como promovê-la. Mas a vencedora da Medalha Clark Esther Duflo diz que é possível saber quais esforços para o desenvolvimento ajudam e quais prejudicam – testando soluções com testes randômicos (utilizados em pesquisas com medicamentos).

Um belo exemplo de pensar fora da caixa, de criatividade.

Abraços,

DC

Sobre o tempo

setembro 20, 2010

Leia o que o Dalai Lama falou sobre o tempo. Não preciso falar mais nada.

Algumas vezes, quando encontro velhos amigos, isso me lembra como o tempo passa depressa. E me faz indagar se temos ou não usado nosso tempo de modo adequado. O uso adequado do tempo é tão importante. Penso que cada minuto é algo precioso enquanto nós possuímos este corpo e, especialmente, este assombroso cérebro humano. Nosso dia-a-dia se mantém alimentado pela esperança, embora não haja garantia alguma do nosso futuro. Não há garantia de amanhã, a esta hora, estaremos aqui […] Precisamos, portanto, fazer o melhor uso do nosso tempo. Acredito que a utilziação adequada do tempo seja esta: se você puder, servir outras pessoas, outros seres dotados de sentimentos. Se não, ao menos tratar de não prejudicá-los. Penso que essa é toda a base de minha filosofia.

Dalai Lama (1998)

Deixo vocês para pensar.

Abraços,

DC

Apenas impressões

setembro 17, 2010

Como na quarta feira, não falamos sobre Arte, a provocação por imagem de hoje vai ser artístico!

Quais são as suas impressões a respeito do Mundo? Como que você o enxerga? Você acha que as informações que você capta dele representam a realidade?

O Impressionismo foi um movimento artístico que surgiu na pintura européia do século XIX. O nome do movimento é derivado da obra Impressão, nascer do sol (1872), de Claude Monet,um dos maiores pintores que ja usou o impressionismo.

Os autores impressionistas não mais se preocupavam com os preceitos do Realismo ou da academia. A busca pelos elementos fundamentais de cada arte levou os pintores impressionistas a pesquisar a produção pictórica não mais interessados em temáticas nobres ou no retrato fiel da realidade, mas em ver o quadro como obra em si mesma. A luz e o movimento utilizando pinceladas soltas tornam-se o principal elemento da pintura, sendo que geralmente as telas eram pintadas ao ar livre para que o pintor pudesse capturar melhor as variações de cores da natureza.

Se olharmos para uma parte específica do quadro, vemos que os contornos são impresisos, sem um limite definido. Porém se olharmos o todo, entendemos o exato momento que o artista queria reproduzir.

Podemos pensar em algumas conclusões sobre essas divagações que levantamos aqui:

1. Temos diferentes visões da vida. Uns com muitos detalhes, outros se atentam na essência das coisas;

2. Às vezes, os detalhes não fornecem as impressões sobre o todo. Temos que olhar de uma perspectiva maior para encontrar os verdadeiros sentidos da realidade.

Fica aí a provocação. E um bônus para vocês: segue outro quadro de Monet.

Abraços,

DC

Sentir, pensar e saber

setembro 16, 2010

No post de hoje, uma poesia do singular Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Nada mais. Apenas uma poesia de Caeiro. Será que tudo isso pode ser chamado de “apenas”?

Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes

Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”,
Digo da planta, “é uma planta”,
Digo de mim, “sou eu”.
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa