Será que existe alternativas?

Texto da Redação da Página 22, trata sobre as possíveis alternativas para a produção de energia no Brasil, de uma forma menos dependente de fontes fósseis e grandes hidroelétricas na Amazônia.

Outra Saída

Será que existem alternativas para o planejamento energético do Brasil, plantado no modelo fóssil e nas grandes hidrelétricas na Amazônia? O especialista em planejamento energético da Unicamp, Gilberto Januzzi, defende a ideia de que é possível melhorar esse modelo e sair da antiga fórmula. Para o professor, o Brasil ainda investe pouco na eficiência do uso de energia.

Segundo Januzzi, o novo Plano Decenal de Energia (PDE), cuja versão definitiva será apresentada nos próximos meses, ainda não incluiu considerações sérias sobre o potencial de eficiência e os investimentos necessários para isso: quanto e o que, na prática, seria realizado. “Investimentos públicos nessa área possibilitariam, inclusive, a revisão e a diminuição das metas de demanda”.

Uma das alternativas são os subsídios indiretos aos segmentos capazes de promover essa economia. Exemplos disso seriam os leilões de compra de energia conservável – modalidade em que o poder público terceiriza a realização de programas de eficiência – ou ainda a regulamentação sobre a produção de equipamentos de menor consumo, restringindo o mercado de produtos com elevado gasto de energia.

Paralelamente, seria possível incrementar investimentos para a adoção de fontes de energia alternativa no País. Dos 63.000 MW a serem acrescidos nos próximos dez anos, cerca de 10.700 MW seriam fornecidos por biomassa e vento, segundo PDE. Para Januzzi, é preciso avançar nessas proporções, principalmente com a energia eólica. Segundo o Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel) da Eletrobrás, temos potencial para gerar cerca de 143.000 MW a partir de nossos ventos, valor que corresponderia a 13 usinas de Belo Monte.

“Das energias renováveis, a eólica é uma das que mais apresentaram avanços nos últimos anos, o que nos permitiria dizer que está próxima das condições de um voo próprio quando comparada às demais fontes”, revela.

Bons ventos

Segundo Liana Coutinho Foster, analista de planejamento estratégico da consultoria Excelência Energética, o primeiro leilão de energia eólica realizado no País, em dezembro passado, apresentou uma novidade animadora.

O fator de capacidade – que na linguagem técnica significa a média de energia gerada, sempre inferior à potência instalada dos empreendimentos – ficou em 43%, a mesma proporção calculada para Belo Monte. Essa é uma boa notícia para os defensores da energia eólica, bombardeados pelas alegações de que as perdas nesses complexos são muito maiores do que nas hidrelétricas.

No entanto, o grande obstáculo continua sendo o fator preço que faz com que a energia dos ventos tenha menor viabilidade econômica, até mesmo se comparada à gigante e caríssima Belo Monte.

Para Liana, quando se compara as duas fontes, deve-se pensar em dois custos diferentes: o da energia e o da obra. Enquanto 1MWh (Mega Watt hora) gerado pela água custa em média R$ 83,00 obtém-se a mesma quantidade no complexo eólico por R$ 148,00.

Outro ponto é o custo da obra. Se o valor de Belo Monte, por exemplo, for estimado em R$ 30 bilhões, cada kW instalado sairia por cerca de R$ 2.600,00. Numa fazenda eólica esse valor pode chegar aos R$ 4.500,00.

Apesar disso, segundo Liana, a armadilha é não considerar outros valores nessa comparação, principalmente o da transmissão da energia. Uma usina hidrelétrica na região Norte que abasteça, por exemplo, a região Nordeste, envolveria mais despesas com distribuição, o que acabaria reduzindo parte da diferença de custo da alternativa eólica. “Isso sem considerarmos ainda todos os custos relativos aos impactos socioambientais da construção de um reservatório de água”, afirma.

Para a especialista, energia eólica deve ser um dos caminhos para abastecer a região nordeste, que tem grande parte de sua energia fornecida pelo sudeste. Segundo a especialista, a maior incidência de ventos no NE ocorre justamente na época em que se pode contar menos com a energia da região vizinha, quando os reservatórios estão em baixa.

(Saiba mais em entrevista concedia ao canal P22TV no vídeo ao lado)

Sol no horizonte

A experiência do Pró-Álcool é frequentemente lembrada como exemplo do que o planejamento estratégico envolvendo governo e mercado por fazer pela introdução de uma nova fonte. Para Januzzi, isso significa que as companhias que atuam no segmento das energias alternativas estão cada vez mais maduras para abastecer um aumento de demanda, inclusive no Brasil.

Segundo o professor, temos todas as condições de domínio no segmento de energia solar: grandes reservas de sílicio (matéria-prima dos painéis fotovoltaicos), boa insolação e conhecimento técnico nas universidades. Com a intensificação de investimentos, poderíamos assumir lugar de destaque na produção de equipamentos relacionados a essa fonte. O exemplo viria da China, que há cinco anos era “insignificante” nesse mercado e hoje está próxima de se tornar a maior exportadora de painéis de energia solar do mundo.

Mais petróleo

Apesar da tendência de adoção de políticas que abram espaço para o uso de fontes alternativas de energia – verificada principalmente nos Estados Unidos e nos países da União Europeia (mais aqui)–, o governo brasileiro tem se orientado em uma direção que parece destoar desse esforço. Na prévia do PDE, o Ministério das Minas e Energia (MME) destina, até 2019, mais de 70% dos recursos para a exploração de petróleo e gás natural, nada menos do que R$ 672 bilhões.

Segundo o plano, para manter a projeção anual de crescimento do PIB em 5,1%, ao longo dos próximos dez anos, está prevista a viabilização, entre 2014 e 2019, de 39 projetos de hidrelétricas, além da conclusão das obras de usinas já em construção ou com o leilão já realizado (entre elas, Belo Monte).

Os enormes desafios socioambientais que se apresentam com esses empreendimentos são conhecidos. Para avançar em relação ao passado, uma boa dose de diálogo e colaboração é desejável.

Para Januzzi, a definição de investimentos do MME ainda é muito restrita aos especialistas do próprio governo, o que não permitiria uma participação mais intensa de setores da sociedade civil, como universidades e instituições independentes. “A transparência com que a questão é tratada tem melhorado, mas tudo se parece muito a uma ‘caixa preta’ ainda”, considera.

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