Homo Sapiens Demens

Provocar indagações sobre nossas premissas e verdades é um dos objetivos desse Blog. O post do Blog Inteligência Empresarial fala exatamente disso. Achei sensacional. Reproduzo-o aqui:

Em 1993, quando fazia meu doutorado aqui na França, e tinha 35 anos, fiz meu primeiro check-up de saúde. E não paguei um centavo por isto. A idéia era muito simples e óbvia: é mais barato e eficaz para o sistema público de saúde identificar e prevenir doenças do que ficar tratando delas, quando elas aparecerem. O nosso SUS (Sistema Único de Saude) faz isto: gastamos um dinheirão tratando de doenças quando seria muito mais barato evitá-las. E não me venham falar da campanha em favor do uso de camisinhas, para evitar a AIDS. Claro que isto é positivo, mas devíamos garantir um chek-up geral para todos, de cinco em cinco anos, como se faz aqui. Insisto, isto é MAIS BARATO e eficaz! O que precisamos é passar a olhar para a questão da saúde, e para a vida, com uma visão sistêmica.

Um dos maiores pensadores do mundo sobre visão sistêmica (ou complexa, como ele prefere chamar) é Edgar Morin. Filósofo indisciplinado, intelectual que sempre pensou fora da caixa, Morin não só refletiu sobre a vida como viveu o que pensou, sem medo das contradições. Ele sempre se opôs ao cartesianismo dominante que, separando o mundo em caixinhas, tem uma visão simplista dos seres humanos e tenta reduzi-los à uma dimensão apenas: a racionalidade (“penso, logo existo”…). O irracional, o mágico, a loucura, o delírio, para um cartesiano (que ainda somos), são apenas acidentes, desvios, anormalidades, que precisam ser corrigidas e tratadas.

Para Morin, a razão e a loucura, a organização e a desorganização, o pensar e o fazer, são diferentes características dos seres humanos em permanente luta uma contra a outra, mas são também complementares e se auto-alimentam. Uma precisa da outra para existir. A razão pode gerar a loucura, como no caso do nazismo ou do stalinismo. Os delírios, sonhos, loucuras, podem provocar um fervilhar anárquico de idéias, e são capazes de produzir obras de arte e inovações. A razão é a faculdade de colocar em ordem os pensamentos, de sistematizar os conhecimentos, e busca dar sentido às idéias e os fatos, a teoria e experiências. Claro que tudo isto é fundamental e necessário. Mas a razão clássica, cartesiana, que privilegia a ordem, a lógica, a sistematização, precisa dar lugar a uma outra forma de pensamento, mais complexa, que seja aberta também ao irracional, ao incompreensível, ao improvável.

Esta racionalidade que se fecha ao subjetivo nos levou às tragédias contemporâneas: hiperespecialização, separação entre as diversas disciplinas (reparem no nome!) na escola, sufocamento da vida pela burocracia, ao isolamento e solidão dos indivíduos… Precisamos entender que o homem é sapiens e demens, capaz de bondade e crueldade, produzir artefatos e sonhos, agir de forma racional e lúdica…
Precisamos aprender a combinar conhecimento objetivo e conhecimento subjetivo e devemos deixar de ter medo da subjetividade.

E isto não é só papo para filósofos! Isto tem consequências práticas. Quando selecionamos alguém para trabalhar numa empresa, fazemos o(a) candidata(o) passar por uma bateria de testes e entrevistas para nos assegurar, científicamente, que estamos escolhendo a melhor pessoa. O que acontece depois todos sabemos: o candidato era o melhor racionalmente, mas não sabe se relacionar com os outros, cria caso com todo mundo, ou é muito tímido…. Não admitimos subjetividade no processo e, pior, tentamos de todas as formas aboli-la.

Como fazer então??? Uma aluna, uma vez, me fez esta pergunta. Perguntei então pra ela: “você tem namorado?” Ela disse que sim. “Como você fez para encontrar este namorado? Fez uma bateria de testes e entrevistas para ver se ele atendia seus requisitos”???

Claro que ao escolhermos alguém para namorar temos alguns “requisitos”, alguns conscientes, outros inconscientes, e fazemos algumas perguntas… A questão é que, neste caso, ADMITIMOS que entre, e de maneira importante, a subjetividade: “fui com a cara”, “bastou trocarmos um olhar e nos tocar”… Se admitimos a subjetividade na escolha de nossos amigos e namorados, que são coisas MUITO mais importantes que um colega de trabalho, porque não admiti-la no mundo do trabalho?

Talvez porque aí vamos ter que admitir que o homo não é apenas sapiens, mas também demens…

Fica a provocação.Adoro esses tipos de textos.

Abraços,

DC

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Uma resposta to “Homo Sapiens Demens”

  1. Juliana Says:

    é, Daniel…diriam os mais ignorantes e dementes…”Ainda bem que isso só acontece com os Homo Sapiens”…srsrs

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