O Jeitinho Brasileiro é uma forma de corrupção? (Corrupção – parte 4)

Seguindo os posts sobre corrupção, temos agora a discussão sobre o famoso jeitinho brasileiro. Ele é uma forma de corrupção?

Ao pesquisar o termo na internet encontrei milhares de respostas. Algumas delas bem interessantes, que utilizarei aqui para embasar nossa discussão.

(…) O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha a um jogador melhor

A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece…

O jogo de xadrez

Prende a alma toda, mas perdido, pouco

Pesa, pois não é nada (…)

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Começo com uma poesia de Fernando Pessoa. Ela inicia também um artigo de Fernando C. Prestes Motta e Rafael Alcadipani sobre o jeitinho. O artigo descreve uma situação do jeitinho bastante ilustrativa. Vejamos:

Sujeito a quase um ano desempregado, casado, três filhos, vivendo do dinheiro de faxinas esporádicas da mulher, descobre que uma loja está precisando de carregador. Vai até a loja, conversa com o dono, que gosta muito dele. Existem mais 13 pessoas na busca pela vaga. Depois de conversar com a esposa do dono da loja, consegue o emprego. Para tanto, precisa estar na loja no dia seguinte às 8 horas com a carteira de trabalho, caso contrário, perde a vaga.

Volta para casa feliz e contente com o emprego conquistado. Procura a carteira de trabalho e, para seu desespero, percebe que a perdeu. Como precisa do documento impreterivelmente no dia seguinte, vai à Junta do Trabalho para fazer um novo. Vale destacar que a maioria dos órgãos governamentais do serviço público no Brasil parece retirada de um conto de Kafka, tamanha a lentidão e a “burocracia” que apresenta.

Lá chegando, após ficar duas horas e meia na fila para ser atendido, a funcionária, com um mal humor ímpar, informa que o documento somente ficará pronto dentro de um mês, já que esse é o procedimento padrão pelo qual todos, sem exceções, devem passar.

Nosso personagem fica desesperado e conta toda sua história, com rigor de detalhes, para a funcionária. Ela pára, pensa, repensa e discute, fala que não tem como… Mas, depois da persistência de nosso ex-desempregado, passa o caso dele na frente de todos os demais e consegue a carteira de trabalho em 45 minutos. Ele agradece e vai embora feliz. Para nós, brasileiros, “deu-se um jeitinho” para o ex-desempregado.

O jeitinho brasileiro é o genuíno processo brasileiro de uma pessoa atingir objetivos a despeito de determinações (leis, normas, regras, ordens etc.) contrárias.

No blog Críticas e Reflexões, temos a definição de jeitinho como: a malandragem histórica do nosso povo. Malandragem com a qual temos contato desde pequenos e ouvimos constantemente nos meios de comunicação e, indiretamente, presenciamos nos atos das pessoas. Há quem tenha orgulho do “jeitinho”, que por ser tão comum, até prefiro omitir as aspas. No entanto, a idéia do malandro está associada à esperteza, como se houvesse algo de esperto em dizer “odeio político ladrão, mas se estivesse no poder, também roubaria”. O cidadão heroicamente afirma que tem orgulho de ser brasileiro e por isso naturalmente faz uso do jeitinho, mas não percebe que esta “marca nacional” é uma das impulsoras do nosso regresso.

Por falar em malandragem, não podemos deixar de lembrar do nosso Zé Carioca, papagaio José Carioca, criado no começo da década de 40 pelos estúdios Walt Disney em uma turnê pela América Latina, que fazia parte dos esforços dos Estados Unidos para reunir aliados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). (Mais informações no Wikipedia)

Que saudade do zé… lia muitos gibis com suas histórias…

Roberto Damatta, no artigo da Revista de História da Biblioteca Nacional, escreve que o jeitinho se confunde com corrupção porque desiguala o que deveria ser tratado com igualdade.

Já Leonardo Avritzer, também na mesma revista, destaca, além da posição de Roberto Damatta, o lado positivo da capacidade de adaptação em diferentes situações. Isso dá ao país uma flexibilidade política e uma capacidade de inovação desejáveis. Aliás essa é uma das características (a do jeitinho) mais reconhecidas nos CEOs brasileiros em todo mundo. Ainda não sei o motivo de estarmos tão atrás no ranking de inovação no mundo. Segundo a revista The Economist, o Brasil fica em 49ª posição. Com a 6ª maior economia mundial, acho que poderíamos estar melhores classificados.

No Blog “Mula sem Cabeça: (Des)construindo o existir” escreve um texto interessantíssimo que menciona a posição de Alberto Guerreiro Ramos, que o jeitinho é uma categoria central da sociedade brasileira. Não que ele atribua a um caráter exclusivamente do Brasil. Ele define o jeitinho, e outros mecanismos, como “processos crioulos” característicos de povos latino-americanos.

Essa característica, o jeitinho, segundo Guerreiro, é resultado de uma discrepância existente entre nossas instituições sociais, políticas e jurídicas e as práticas sociais, isto é, entre o que está prescrito, regulamentado, e as práticas reais tanto do Governo como da sociedade.

Quanto ao aspecto histórico do jeitinho, estaria ligado ao que alguns historiadores chamam de “feudalismo tardio”, característica comum em vários países da América Latina.

Nas relações feudais, havia uma profunda desigualdade jurídica, sendo que as leis só eram aplicadas com rigores aos servos e vassalos, enquanto que havia uma flexibilidade para a elite da época. Nenhuma novidade, né?! Porém, alguns autores defendem que a questão da desigualdade no sistema jurídico não está obrigatoriamente numa estrutura feudal mas sim numa visão hierárquica do mundo.

E o blog da Mula continua: “Existem variados fatores que explicam o fato do jeitinho brasileiro ser tal como é, mas nenhum deles justifica…Já se perguntaram por que existem tantos corruptos no poder?

Já se perguntaram por que quem não está no poder gostaria de estar para fazer seu pé-de- meia?

Porque somos um povo corrupto, que formou um Estado corrupto e que hoje ainda acredita que a corrupção faz parte do processo de progredir, aceitando como verdade absurdos do estilo “Rouba mas faz alguma coisa…”. A função do cidadão é fazer isso, “alguma coisa”, ele é pago para isso e não para enriquecer às custas do trabalho árduo de um povo inteiro.

Pera aí, se um cidadão em uma empresa rouba, o cara ta ferrado. Já era! Se um cara faz alguma trangressão no Japão, tempos depois o cidadão se mata. Se um cara no Brasil rouba uma nação inteira, é afastado, anos depois ele vira senador e tem grande influência nos círculos do poder.

Somos corruptos, volto a frisar isso novamente, principalmente nós cidadãos justos e honestos por vermos essa palhaçada no país inteiro e nada fazermos além de dizer que é muito maior que nós…”

Lembro mais uma vez a frase de Gandhi que diz que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Se continuarmos com o jeitinho, os políticos irão continuar com o jeitinho deles.

Não posso deixar de terminar o post com o texto que se segue, retirado também do Blog acima citado:

Não estará na hora de transformar o jeitinho brasileiro em o “jeito do Brasil”?

Um jeito que representa um povo sofrido, esmagado por uma elite local e estrangeira corrupta, mas que, acima de tudo, é um povo cordial, alegre, que ri das próprias desgraças e nunca perde a fé que as coisas vão melhorar, mesmo quando não existe nem ao menos um lampejo de luz no final do túnel. Um povo guerreiro que nunca abandona a peleja levando consigo, somente, a esperança – aquela que nunca morre…

Não preciso dizer mais nada né.

Boas Reflexões.

Faça algo pelo mundo hoje: não dê jeitinho.

Abraços,

DC.

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3 Respostas to “O Jeitinho Brasileiro é uma forma de corrupção? (Corrupção – parte 4)”

  1. Pexa Says:

    ótimo artigo, mt bem escrito…e salve a oportunidade do mesmo…é preciso sempre escrever sobre isto, prás pessoas se educarem…aliás, acho que contra isto só há um jeito: educação!!!!

    • Pense e Exista Says:

      Lucia,
      Muito obrigado pela sua colaboração mais uma vez!!! Estou muito feliz por ver alguém comentar mais de uma vez no Blog. Fico superimpolgado com seus comentários! O objetivo do Blog é justamente esse: fazer-nos perguntar sobre nossas verdades. O jeitinho brasileiro acontece com todos! Inclusive comigo. Não nego. Porém sei que preciso mudar. Acho que se colocarmos muitos hábitos à reflexão, veremos que poderemos mudar bastante coisa.

      Continue assim! Sempre comentando!

      Muito obrigado!

      Abraços,

      DC

  2. Affonso Says:

    Capelinho meu eterno brother!
    Parabéns cara! Ta muito bacana seu blog! Sempre que tiver uma folguinha aqui vou entrar pra ler! Td de bom irmão. Muita luz e muita paz na sua vida!
    Te amo de longe.
    bjo

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