Archive for the ‘Vista de um ponto ou Ponto de Vista?’ Category

Ausência

agosto 3, 2010

Olá caros leitores!

Para os que acompanham constantemente o blog, esse período de ausência de atualização é um ponto de interrogação na cabeça, não é? Mesmo na ausência, consigo provocar as pessoas. Ainda bem. É esse meu objetivo aqui.

Passei por uma semana muito atribulada, não conseguindo dar a devida atenção a esse espaço. Infelizmente estou sozinho (ainda) nessa empreitada para escrever, selecionar textos, garimpar poemas, imagens… Pois bem, espero que agora tenha conseguido terminar as pendências (espero!). Mas, aproveitando o tema “ausência”, poderemos levantar algumas indagações que levem você a se perguntar sobre essa idéia.

Há diferença entre o  “Nada” e a “Ausência”? Para mim, a ausência pressupõe a existência de algo, já o “Nada” é o contrário da existência. Será que compliquei? 

A própria palavra “ausência” possui uma dicotomia em sua essência. Quando sentimos a ausência, ela se faz presente. E se está presente, não está ausente. Não é?  Engraçado né? A vida é uma grande dicotomia: corpo/alma, amor/ódio….

Carlos Drummond escreveu sobre a ausência e ele fala assim:

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Incrível como a vida é muito maior, e mais complexa, do que vontade do homem de enxergá-la de forma única. A busca pela teoria unificadora da física… Simplificamos os problemas para poder entendê-los e resolvê-los, porém nunca fazemos o caminho contrário, a de juntar tudo e enxergar o sistema complexo, de novo.

Coloquei alguma pulga em sua orelha? Fiz você pensar em algo? Espero que sim…

Abraços a todos,

DC

Idéias de Saramago

julho 22, 2010

Encontrei no Blog “A literatura na Poltrona” um post que cita algumas idéias do já saudoso Saramago. Senti-me provocado a pensar por suas idéias e posições relacionadas aos mais diversos assuntos. Transcreverei aqui para provocar os leitores também.

Imaginação:

“Não creio que a imaginação seja perigosa. Não creio nisso. Mas é certo que, em meus romances, prevalesce a razão. Para mim, a imaginação deve estar a serviço da razão. O que não me impede de ter uma imaginação forte, e de trabalhá-la intensamente em meus livros. A imaginação, para mim, é sempre o ponto de partida. Mas o caminho que tomo a partir dela pertence, sempre, à razão”.

Sensibilidade:

“Pode não parecer, mas sou um homem muito sensível aos sentimentos e às emoções. Quem me olha, vê um sujeito de aparência fechada e severa. Alguns a confundem com indiferença, ou talvez com arrogância. Mas a verdade é que sou um homem muito sensível. Talvez sensível demais”.

Tristeza:

“A tristeza no mundo de hoje é causada pelo irracionalismo e pelos fanatismos. Mas a tristeza é, também, compaixão. No fundo, somos uns pobres diabos. É a compaixão que nos leva a interrogar: _ Por que não podemos ser de outra maneira? Por que não conseguimos ser melhor do que somos? Por que não conseguimos ser bons?”

Religião:

“O fenômeno religioso sempre me interessou muito, o que pode parecer estranho, porque sou um homem totalmente indiferente à inquietação religiosa. Mas, como a religião é um fenômeno histórico, ela nunca deixou de me interessar. Por isso me interesso pelo cristianismo. Não sou um crente, mas é verdade que tenho _ todos temos _ uma mentalidade cristã, e não islâmica, ou budista. Às vezes me contestam: “Se você não é crente, não tem o direito de falar sobre a religião”. Tenho sim, e por dois motivos. Primeiro, porque tenho o direito de falar sobre o que não quero, o que não aceito. Segundo: porque tenho o direito de falar sobre algo que, ainda assim, faz de mim, um pouco, o homem que sou”.

Repugnâncias:

“Creio que não tenho medos, apenas repugnâncias. A aranhas, por exemplo _ e, felizmente, quase não temos aranhas em Lanzarote. Lembro-me que, quando menino, apreciava andar com lagartixas nas mãos, e elas não me davam repugnância. Mas as aranhas, sim. E os ratos, também. As baratas, então, são nojentas”.

Discrição:

“O que acontece é que nunca dramatizei minha vida, nunca fiz dela algo de existencialmente interessante, ou dramático. Vivi, sempre, discretamente, e com toda a naturalidade. A partir dos cinquenta anos, comecei a escrever alguns livros. Foi só isso. A vida é o que é, tem coisas boas e tem coisas más, e devemos aceitar isso, e viver com isso. Só escolhemos 5% do que nos acontece na vida. Os outros 95% são decididos por outras pessoas, ou pelo acaso. De nada serve dramatizar”.

Afinidades:

“Sempre se diz que, a partir de certa idade, a gente relê mais do que lê, e é verdade. Ultimamente, me interesso mais em reler _ o Padre Vieira, Fernão Lopes, Almeida Garret. E, é evidente, o Eça. Releio, também, o Oliveira Martins e o Camilo. Afinidades, porém, é difícil. Não creio que existam afinidades bilaterais, mas sim afinidades múltiplas, fragmentadas. Se busco minha ascendência literária, sou franco: não a encontro. Não encontro relação direta entre o que eu faço e o que os outros fizeram. Existem ecos, só isso. Veja o caso do Vieira: ele viveu no século 17, e não no século 20. Escreveu sermões, e não romances. Mas tenho uma imensa admiração por ele e sempre que o leio percebo alguns ecos em mim”.

Barroco:

“Dizem que sou um escritor barroco. Posso reconhecer que sim. Esse tipo de frase envolvente, quase interminável, que faz rodeios, volta atrás, se isso tem algo a ver com o barroco, aceito, então, que sou barroco. Mas é, também, muito perigoso reduzir um estilo, uma forma de escrever a uma etiqueta. Isso não é nada bom. Quando usamos etiquetas para falar das coisas, parece que fica tudo dito, mas o principal está sempre de fora”.

Comunismo:

“Continuo a ser comunista e não vejo nenhum motivo para deixar de ser. Fala-se, muito, dos grandes erros do passado e também do presente. Ser comunista não me impede de observar os erros do passado, do presente, e mesmo do futuro com um olhar crítico. Esquece-se que o olhar crítico está na base do marxismo. A URSS desmoronou, provavelmente, por falta deste olhar crítico. E também por falta da participação dos cidadãos”.

Alvaro Cunhal:

“Alvaro Cunhal está vivo (presidente do Portido Comunista Português, viria a falecer em 2005). Tenho uma relação de imenso respeito com ele, tanto como pessoa, quanto como dirigente comunista. Nos últimos anos, a adaptação do partido aos novos tempos foi conduzida, basicamente, por Cunhal. É um homem, porém, que veio da clandestinidade, de lutas muito dolorosas, e isso deixa marcas profundas nas pessoas. Daí a vê-lo como um homem petrificado vai muito longe. É, além disso, um bom escritor, autor de três romances, que publicou sob o pseudônimo de Manuel Trigo. Como escritor, está marcado pelo realismo clássico, de cunho socialista. Dentro de seu estilo, é um escritor que leio com satisfação”.

Romance histórico:

“A história que nós aprendemos na escola é, até certo modo, a visão oficial da história. O mal é quando essa versão se institui como versão única. Daí que, quase sempre, temos uma visão incompleta e deformada da história de nosso país. O historiador que não quiser se contentar em repetir o que já foi dito terá que investigar o não-dito e, sobretudo, o oculto. O ficcionista que se interessa por temas históricos tem, então, um papel muito importante nessa busca do não-dito e do oculto. Claro que não devemos alimentar ilusões, a verdade histórica, completa, não se saberá nunca”.

Literatura:

“A literatura tanto pode ordenar o mundo, como desordená-lo. Há momentos em que sua função é desordenar _ em nome de uma causa, para questionar uma norma social, ou falsamente moral, sobre a qual a sociedade se instala. Mas é função da literatura, também, ordenar o mundo, procurar um sentido para a existência. Sentido que não pode ser único, estável, mas deve ser, ao contrário, constantemente posto em causa e questionado. Procuramos sempre um sentido que acolha o caos aparente que é a vida. Procuramos uma certa ordem em relação à qual possamos nos situar. Eu creio que o escritor, com a sua obra, participa dessa busca de sentido”.

Limites:

“Não quero dar lições ao mundo. Todas as reflexões que faço são sobre mim mesmo. Há que ter consciência de nossos limites. Nossos limites nos definem. Somos nossos limites. É importante evitar tentações que estão fora de nosso alcance. Eu sei que, em literatura, há coisas que não devo fazer, porque estão além de meus limites. Conhecendo meus limites, o que tento fazer é aprofundar meu trabalho dentro deles. Eu não posso aspirar a um trabalho que se aproxime do ensaísmo, não posso porque não tenho condições. Escrevi alguns poemas, que valem o que valem, mas sei que não posso ir além deles, e por isso renunciei à poesia. O importante é a gente se acostumar a ser o que é. E não mais que isso”.

Mal:

“Não creio que tenha uma obsessão pelo Mal. Francamente, não sei se devo falar em obsessão. Mas, se há algo que não compreendo e que me ultrapassa, é a existência do Mal. Não falo do Mal do ponto de vista religioso, mas como uma espécie de fatalidade que encontramos em nossa espécie. A pergunta que mais me persegue é: por que sendo nós, seres de razão, nos comportamos irracionalmente? E, para essa pergunta, não vejo resposta. É uma coisa realmente impressionante chegar à conclusão de que o único ser verdadeiramente cruel é o ser humano. Nenhum animal, mesmo entre os mais ferozes, se comporta com tanta crueldade. O animal não é cruel, pois a crueldade é uma categoria mental. Mas o ser humano é cruel”.

Portugal:

“A sensibilidade portuguesa é um pouco apática. Somos facilmente sentimentais, o que não significa que sejamos capazes de grandes sentimentos. Caimos mais no sentimentalismo, que é o contrário do grande sentimento _ que não exalta, mas faz acteditar e nos leva a realizar. A principal característica portuguesa é o sentimentalismo, como se tivéssemos a lágrima fácil”.

Você confia?

julho 20, 2010

Estou me deliciando com um livro chamado ” Muito Longe de casa” que narra o terror da guerra civil em Serra Leoa e a vida dos meninos soldados.

Descrito em suas tensas linhas, há uma consequência direta da guerra civil que muito me assusta (todas me assustam muito) que é a perda de confiança no outro. Por ser civil, “todos” podem ser possíveis rebeldes ou assassinos.

Engraçado que mesmo não enfrentando uma guerra civil, apesar do nível de violência estar tão alto que, em alguns momentos, achamos que há uma guerra civil no Brasil (principalmente no Rio, São Paulo…), há uma falta de confiança no outro. Não a ponto de achar que o outro pode te assassinar, mas não acreditamos mais na honestidade alheia. Sempre achamos que há segundas intenções, que vamos ser passados para trás…

Você já parou para pensar nisso? Você confia em quem?

Ditados como “Quando a esmola é demais, o santo desconfia” ou ” Todos os dias, um otário e um esperto levantam e até o meio dia eles se encontram” explicam um pouco do que estou falando.

Precisamos inverter a tendência dessa falta de confiança. Senão, seremos uma sociedade que perderemos a magia da sinergia. Seremos um conjunto de indivíduos, e não um grupo.

Faça algo pelo mundo hoje: confie em alguém. Você vai se surpreender.

Abraços,

DC

Saber não saber

julho 18, 2010

Texto publicado na revista Página 22, fonte recorrente deste blog.

Já dizia Sócrates:  Só sei que nada sei.

“Infelizmente, não sabemos”, diz a economista francesa Esther Duflo sobre o papel que a ajuda internacional exerce no combate à pobreza. “Nunca saberemos.” Os bilhões de dólares destinados a erradicar a pobreza na África no passado não melhoraram o desempenho econômico – medido pelo Produto Interno Bruto – de países que receberam ajuda. “Mas como saber o que teria acontecido sem essa ajuda?”, questiona Esther, pesquisadora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), instituição onde também se graduou.

Para ela, tal situação nos deixa no mesmo pé em que o médico da Idade Média que usava sanguessugas como tratamento. “Às vezes o paciente melhora, às vezes ele morre. É efeito das sanguessugas ou alguma outra coisa? Não sabemos.”

Como era de imaginar, Esther Duflo causa espécie entre seus colegas economistas, que raramente admitem sua ignorância, mesmo diante de um problema com a dimensão da pobreza. Ela lembra que, no caso da pobreza, há pelo menos dois grandes campos que se arvoram saber a resposta*. Um, liderado pelo economista Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia, garante que a ajuda internacional reduz a pobreza, mas é preciso mais. Outro, encabeçado pelo economista William Easterly, da New York University, defende que mais ajuda só piora a situação, pois aumenta a corrupção e a dependência dos países pobres em relação aos ricos.

*Assista à apresentação de Esther Duflo no TED – Ideas Worth Spreading

Uma vez que modelos e estatísticas não levam a uma resposta conclusiva, Esther optou por ir a campo – passo que causa ainda mais estranheza, uma vez que se aprende nos livros-texto sobre a impossibilidade de experimentos controlados nas sociedades humanas para testar hipóteses econômicas.

Esther e seu laboratório no MIT – o Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab (J-Pal) – vêm há anos praticando “testes controlados de aleatoriedade” para apontar quais ações levam à redução da pobreza e, assim, contribuir para as políticas sociais. A ideia é a mesma utilizada pela medicina para testar novas drogas, em que se tenta estabelecer causas e efeitos e, assim, livrar-se da aleatoriedade com que conviviam o médico medieval e suas sanguessugas.

Tome-se, por exemplo, a eficácia do microcrédito como ferramenta para catapultar os cidadãos para fora da pobreza extrema. A estratégia do J-Pal é dar o remédio – no caso o microcrédito – a um grupo de uma determinada população, mas não a outro. Este último funciona como o “controle”, com basicamente as mesmas características do primeiro, exceto pela falta de microcrédito. Se, ao fim do experimento, os grupos mostrarem resultados diversos, pode-se dizer que a diferença foi causada pelo “remédio”.

Nem sempre é possível aplicar o método praticado por Esther Duflo e, mesmo quando é possível, o desafio consiste em fazer as perguntas certas, do jeito certo. Os testes controlados de aleatoriedade possuem a virtude de quebrar o problema em questões menores e, embora os resultados não respondam à questão maior sobre o papel da ajuda na redução da pobreza, é possível saber os efeitos de, por exemplo, microcrédito, mais educação ou imunização de uma dada população. Esses elementos, se atacados, provavelmente contribuirão para reduzir a pobreza.

Mas talvez a ousadia maior esteja em admitir nossa suprema ignorância, seja em estabelecer causas e efeitos dos fenômenos naturais à nossa volta, seja em conhecer o que motiva a própria espécie humana a se comportar como se comporta. Ao admitir que não sabem, Esther e seus colaboradores abrem-se a formular perguntas que talvez possam vir a ser respondidas, mas que, com certeza, levarão a mais perguntas. Isso, lembra o biólogo Robert Root-Bernstein, é a base da ciência. “As respostas são importantes principalmente ao nos levar a novas perguntas”, escreveu ele em um livro inteiro dedicado à ignorância.

Em As Virtudes da Ignorância – Complexidade, Sustentabilidade e os Limites do Conhecimento (The University Press of Kentucky, 2008), Bernstein assina um capítulo intitulado “Eu não sei!” “O objetivo de centrar-se na ignorância é construir conhecimento à luz tanto do que sabemos quanto do que não sabemos”, escreveu ele. “Construir mais conhecimento vai revelar novas formas de ignorância, ad infinitum. Para mim, conhecimento e ignorância são o ‘yin e yang’ da compreensão. Você não pode ter um sem ter o outro, e, quando eles estão fora de equilíbrio, o mundo está com problemas.”

De acordo com os organizadores do livro, o mundo está com problemas pelo menos desde o Iluminismo, período que sucedeu a Idade Média e seus médicos com- sanguessugas, e que enraizou a visão ocidental baseada na racionalidade.

As revoluções científicas, políticas e econômicas que a nova visão de mundo proporcionou permitiram ao homem lançar-se na aventura de controlar a natureza, criar economias e tecnologias que o levaram além da subsistência, e libertar o indivíduo de governos, religiões, tradições familiares e do passado.

A resposta aos problemas que derivam dessas novas atividades – por exemplo, poluição, corrupção, injustiça – é mais racionalidade e conhecimento. Porém, escreve Bernstein, se um problema persiste – seria o caso da poluição, da corrupção, da injustiça, e da pobreza? –, “é precisamente porque o conhecimento existente é inadequado para enfrentá-lo ou causou o problema em primeiro lugar”.

Currículo da ignorância

Mesmo com a moderna medicina em lugar das sanguessugas, os médicos talvez saibam melhor do que ninguém que somos infinitamente mais ignorantes do que conhecedores. “Sabemos, de fato, muito pouco para efetivamente prevenir doenças, curar e aliviar o sofrimento”, segundo a filósofa Ann Kerwin. “A medicina está implicada em nossa ignorância, em nossa incapacidade de compreender nossos sistemas complexos, formas de reparação e reconstrução.”

Ann ajudou a criar, nos idos dos anos 1980, o Currículo sobre Ignorância na Medicina (Curriculum on Medical Ignorance, ou CMI), da Escola de Medicina da Universidade do Arizona, que incentiva médicos aspirantes e profissionais a pensar, ponderar, duvidar, revisar, pesquisar e a explorar sua ignorância.

Para ajudar os estudantes a fazer isso, Ann e os demais formuladores do CMI desenharam um “mapa da ignorância”, em que identificam várias formas com que ela ocorre: todas as coisas que você sabe que não sabe (ignorância aberta), todas as coisas que você não sabe que não sabe (ignorância oculta), todas as coisas que você acha que sabe, mas não sabe (erros), todas as coisas que você não sabe que sabe (conhecimento tácito), conhecimento perigoso ou proibido (tabu), e todas as coisas muito dolorosas de saber, então você não as sabe (negação).

“Como educadores da medicina, devemos preparar os estudantes para o futuro”, escrevem Marlys Witte, Peter Crown, Michael Bernas e Charles Witte, responsáveis pelo CMI na Universidade do Arizona. “Apesar disso, os estudantes gastam a maior parte de seus anos de ciência básica memorizando o conhecimento do dia, que em grande parte estará desatualizado logo depois.” Em vez disso, acreditam, é essencial que os alunos “aprendam a como aprender, cuidadosa e continuamente, ao longo de suas vidas”. E que vejam a universidade não como “fábrica de conhecimento”, mas como um “commons da ignorância”, ou seja, o lugar ideal para aprender e descobrir o desconhecido.

O CMI é apenas um currículo em uma imensidão de escolas – de medicina, economia e tantas outras disciplinas – que se dedicam a ensinar o conhecimento corrente e não seu questionamento. Para quebrar com isso, os organizadores de As Virtudes da Ignorância propõem que a humanidade assuma o seu forte e adote uma visão de mundo baseada na ignorância. “Isso não significa”, dizem eles, “que não devemos buscar o conhecimento ou que somos estúpidos ou malvados. Mas nos força a nos lembrar das coisas, nos leva a esperar por segundas chances, e nos dá incentivo a manter a escala pequena.”

Esses três elementos vêm bem a calhar no momento em que – para citar mais um problema sem solução além da pobreza, corrupção, injustiça – 60 mil barris de petróleo por dia se espalham pelas águas do Golfo do México, sem fim à vista. O que mais podemos aprender desse triste episódio, além de que somos profundamente ignorantes diante da enorme complexidade e interdependência do mundo à nossa volta? O que aconteceria se, como lembrou o colunista americano David Roberts, não houvesse nada que pudesse cessar o derramamento? Talvez aí nos lembrássemos de nossa imensa ignorância. E aprendêssemos, como disse o poeta Wendell Berry, a perguntar o que precisamos saber.

*Jornalista e fundadora de Página 22

Será que existe alternativas?

julho 8, 2010

Texto da Redação da Página 22, trata sobre as possíveis alternativas para a produção de energia no Brasil, de uma forma menos dependente de fontes fósseis e grandes hidroelétricas na Amazônia.

Outra Saída

Será que existem alternativas para o planejamento energético do Brasil, plantado no modelo fóssil e nas grandes hidrelétricas na Amazônia? O especialista em planejamento energético da Unicamp, Gilberto Januzzi, defende a ideia de que é possível melhorar esse modelo e sair da antiga fórmula. Para o professor, o Brasil ainda investe pouco na eficiência do uso de energia.

Segundo Januzzi, o novo Plano Decenal de Energia (PDE), cuja versão definitiva será apresentada nos próximos meses, ainda não incluiu considerações sérias sobre o potencial de eficiência e os investimentos necessários para isso: quanto e o que, na prática, seria realizado. “Investimentos públicos nessa área possibilitariam, inclusive, a revisão e a diminuição das metas de demanda”.

Uma das alternativas são os subsídios indiretos aos segmentos capazes de promover essa economia. Exemplos disso seriam os leilões de compra de energia conservável – modalidade em que o poder público terceiriza a realização de programas de eficiência – ou ainda a regulamentação sobre a produção de equipamentos de menor consumo, restringindo o mercado de produtos com elevado gasto de energia.

Paralelamente, seria possível incrementar investimentos para a adoção de fontes de energia alternativa no País. Dos 63.000 MW a serem acrescidos nos próximos dez anos, cerca de 10.700 MW seriam fornecidos por biomassa e vento, segundo PDE. Para Januzzi, é preciso avançar nessas proporções, principalmente com a energia eólica. Segundo o Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel) da Eletrobrás, temos potencial para gerar cerca de 143.000 MW a partir de nossos ventos, valor que corresponderia a 13 usinas de Belo Monte.

“Das energias renováveis, a eólica é uma das que mais apresentaram avanços nos últimos anos, o que nos permitiria dizer que está próxima das condições de um voo próprio quando comparada às demais fontes”, revela.

Bons ventos

Segundo Liana Coutinho Foster, analista de planejamento estratégico da consultoria Excelência Energética, o primeiro leilão de energia eólica realizado no País, em dezembro passado, apresentou uma novidade animadora.

O fator de capacidade – que na linguagem técnica significa a média de energia gerada, sempre inferior à potência instalada dos empreendimentos – ficou em 43%, a mesma proporção calculada para Belo Monte. Essa é uma boa notícia para os defensores da energia eólica, bombardeados pelas alegações de que as perdas nesses complexos são muito maiores do que nas hidrelétricas.

No entanto, o grande obstáculo continua sendo o fator preço que faz com que a energia dos ventos tenha menor viabilidade econômica, até mesmo se comparada à gigante e caríssima Belo Monte.

Para Liana, quando se compara as duas fontes, deve-se pensar em dois custos diferentes: o da energia e o da obra. Enquanto 1MWh (Mega Watt hora) gerado pela água custa em média R$ 83,00 obtém-se a mesma quantidade no complexo eólico por R$ 148,00.

Outro ponto é o custo da obra. Se o valor de Belo Monte, por exemplo, for estimado em R$ 30 bilhões, cada kW instalado sairia por cerca de R$ 2.600,00. Numa fazenda eólica esse valor pode chegar aos R$ 4.500,00.

Apesar disso, segundo Liana, a armadilha é não considerar outros valores nessa comparação, principalmente o da transmissão da energia. Uma usina hidrelétrica na região Norte que abasteça, por exemplo, a região Nordeste, envolveria mais despesas com distribuição, o que acabaria reduzindo parte da diferença de custo da alternativa eólica. “Isso sem considerarmos ainda todos os custos relativos aos impactos socioambientais da construção de um reservatório de água”, afirma.

Para a especialista, energia eólica deve ser um dos caminhos para abastecer a região nordeste, que tem grande parte de sua energia fornecida pelo sudeste. Segundo a especialista, a maior incidência de ventos no NE ocorre justamente na época em que se pode contar menos com a energia da região vizinha, quando os reservatórios estão em baixa.

(Saiba mais em entrevista concedia ao canal P22TV no vídeo ao lado)

Sol no horizonte

A experiência do Pró-Álcool é frequentemente lembrada como exemplo do que o planejamento estratégico envolvendo governo e mercado por fazer pela introdução de uma nova fonte. Para Januzzi, isso significa que as companhias que atuam no segmento das energias alternativas estão cada vez mais maduras para abastecer um aumento de demanda, inclusive no Brasil.

Segundo o professor, temos todas as condições de domínio no segmento de energia solar: grandes reservas de sílicio (matéria-prima dos painéis fotovoltaicos), boa insolação e conhecimento técnico nas universidades. Com a intensificação de investimentos, poderíamos assumir lugar de destaque na produção de equipamentos relacionados a essa fonte. O exemplo viria da China, que há cinco anos era “insignificante” nesse mercado e hoje está próxima de se tornar a maior exportadora de painéis de energia solar do mundo.

Mais petróleo

Apesar da tendência de adoção de políticas que abram espaço para o uso de fontes alternativas de energia – verificada principalmente nos Estados Unidos e nos países da União Europeia (mais aqui)–, o governo brasileiro tem se orientado em uma direção que parece destoar desse esforço. Na prévia do PDE, o Ministério das Minas e Energia (MME) destina, até 2019, mais de 70% dos recursos para a exploração de petróleo e gás natural, nada menos do que R$ 672 bilhões.

Segundo o plano, para manter a projeção anual de crescimento do PIB em 5,1%, ao longo dos próximos dez anos, está prevista a viabilização, entre 2014 e 2019, de 39 projetos de hidrelétricas, além da conclusão das obras de usinas já em construção ou com o leilão já realizado (entre elas, Belo Monte).

Os enormes desafios socioambientais que se apresentam com esses empreendimentos são conhecidos. Para avançar em relação ao passado, uma boa dose de diálogo e colaboração é desejável.

Para Januzzi, a definição de investimentos do MME ainda é muito restrita aos especialistas do próprio governo, o que não permitiria uma participação mais intensa de setores da sociedade civil, como universidades e instituições independentes. “A transparência com que a questão é tratada tem melhorado, mas tudo se parece muito a uma ‘caixa preta’ ainda”, considera.

Copyright

julho 7, 2010

Texto muito bom para refletir sobre a nossa maneira de querer ser os perfeitos, de repetir o melhor. Texto do Blog Inteligência Empresarial do Prof. Marcos Cavalanti

O que nos encanta?

Considero Fernando Meirelles um dos melhores, senão o melhor, cineasta brasileiro. Ele consegue ser criativo (tanto na linguagem quanto nos temas), fazer filmes com conteúdo e ser popular. Uma mistura muito difícil de acontecer! Ontem ele deu uma entrevista no O Globo sobre a produção de conteúdo em meio digital que deveria nos fazer parar para pensar.

Disse ele: ” Atualmente a tendência é deixar tudo para ser resolvido depois (na edição das imagens digitais). O problema desse hábito é que os filmes vão ficando cada vez mais perfeitos e, sinceramente, não há nada mais chato do que a perfeição. Não podemos nos esquecer de que esse troço todo mundo digital é apenas ferramenta. O que encanta ainda são os atores e as histórias “.

Se olharmos em volta, vivemos num mundo onde a ” imagem é tudo”, como diz uma propaganda. Mulheres ( e homens) cheios de botox, uma seleção que tenta ser ” européia ” e jogar um futebol “competitivo” ( e mecânico), empresários que querem sua empresa funcionando “como um relógio”. Em todas a mesma visão, a mesma maneira de encarar a vida e as empresas: como uma máquina capaz de produzir milhares de cópias cada vez mais perfeitas!

Neste mês que passei na França, vi o filme que deu a Juliette Binoche a palma de ouro de melhor atriz em Cannes: Cópia Conforme. Ele retrata esta nossa vida de mentirinha, onde representamos papéis pré estabelecidos, onde não conseguimos viver a vida de carne, osso e alma. Só uam cópia dela. Queremos que nossa cara seja uma cópia daquela artista famosa; que nosso produto seja o mais próximo possível do “benchmarking” do mercado e que nossa seleção jogue parecido com a Itália, a Inglaterra ou a Espanha. E quando queremos ser maria-va-com-as-outras, na maioria das vezes o resultado é parecido com o que a seleção do Dunga obteve…

O que encanta é a obra humana, única. É o drible e o gol;é o ser humano e a mulher inteira, verdadeira, sem retoques; é a empresa que inova e tem produtos difíceis de serem imitados. É a imperfeição do humano, não a perfeição mecânica e sem alma da máquina!

Muitos ainda vão continuar correndo atrás do outros, tentando ser uma cópia conforme de alguém. E ficando eternamente insatisfeitos e frustrados. E o que é pior: no fim, o tempo e o vento levarão tudo isso embora… O que fica?

” No fim tu hás de ver que as coisas mais leves

são as únicas que o vento não consegue levar:

um estribilho antigo, um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento…”

Mario Quintana

Um breve panorama da democracia

julho 6, 2010

Os leitores deste Blog sabem que não resisto aos textos do Leonardo Boff. Sempre com sua linguagem simples e essencial, ele descreve sobre os assuntos com uma mente de vanguarda. Esse texto traça um perfil essencial do objeto democracia, e uma pitadinha de projeção para o futuro. Você já parou para pensar sobre a Democracia?

Seguindo a grade de programação do nosso BLOG, segue o texto de terça. Para seu deleite.

Um design ecológico para a democracia

Leonardo Boff

A democracia é seguramente o ideal mais alto que a convivência social historicamente elaborou. O princípio que subjaz à democracia é este: “o que interessa a todos, deve poder ser pensado e decidido por todos”.

Ela tem muitas formas, a direta, como é vivida na Suíça, na qual a população toda participa nas decisões via plebiscito.

A representativa, na qual as sociedades mais complexas elegem delegados que, em nome de todos, discutem e tomam decisões. A grande questão atual é que a democracia representativa se mostra incapaz de recolher as forças vivas de uma sociedade complexa, com seus movimentos sociais. Em sociedades de grande desigualdade social, como no Brasil, a democracia representativa assume características de irrealidade, quando não de farsa. A cada quatro ou cinco anos, os cidadãos têm a possibilidade de escolher o seu “ditador” que, uma vez eleito, faz mais a política palaciana do que estabelece uma relação orgânica com as forças sociais.

Há a democracia participativa que significa um avanço face à representativa. Forças organizadas, como os grandes sindicatos, os movimentos sociais por terra, teto, saúde, educação, direitos humanos, ambientalistas e outros cresceram de tal maneira que se constituíram como base da democracia participativa: o Estado obriga-se a ouvir e a discutir com tais forças as decisões a tomar. Ela está se impondo por todas as partes especialmente na América Latina.

Há ainda a democracia comunitária que é singular dos povos originários da América Latina e pouco conhecida e reconhecida pelos analistas. Ela nasce da estruturação comunitária das culturas originárias, do norte até o sul de Abya Yala, nome indígena para a América Latina. Ela busca realizar o “bem viver” que não é o nosso “viver melhor” que implica que muitos vivam pior. O “bem viver” é a busca permanente do equilíbrio mediante a participação de todos, equilíbrio entre homem e mulher, entre ser humano e natureza, equilíbrio entre a produção e o consumo na perspectiva de uma economia do suficiente e do decente e não da acumulação. O “bem viver” implica uma superação do antropocentrismo: não é só uma harmonia entre os humanos mas com as energias da Terra, do Sol, das montanhas, das águas, das florestas e com Deus. Trata-se de uma democracia sociocósmica, onde todos os elementos são considerados portadores de vida e por isso incluídos na comunidade e com seus direitos respeitados..

Por fim estamos caminhando rumo a uma superdemocracia planetária. Alguns analistas como Jacques Attalli (Uma breve historia do futuro, 2008) imaginam que ela será a alternativa salvadora em face a um superconflito que poderá, deixado em livre curso, destruir a humanidade. Esta superdemocracia resultará de uma consciência planetária coletiva que se dá conta da unicidade da família humana e de que o planeta Terra, pequeno, com recursos escassos, superpovoado e ameaçado pelas mudanças climáticas obrigará os povos a estabelecer estratégias e políticas globais para garantir a vida de todos e as condições ecológicas da Terra.

Esta superdemocracia planetária não anula as várias tradições democráticas, fazendo-as complementares. Isso se alcança melhor mediante o biorregionalismo. Trata-se de um novo design ecológico, quer dizer, outra forma de organizar a relação com a natureza, a partir dos ecossistemas regionais. Ao contrário da globalização uniformizadora, ele valoriza as diferenças e respeita as singularidades das biorregiões, com sua cultura local, tornando mais fácil o respeito aos ciclos da natureza e a harmonia com a mãe Terra.

Temos que rezar para que este tipo de democracia triunfe senão ignoramos totalmente para onde seremos levados.

Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

Economia, entropia e descrecimento econômico

junho 15, 2010

Texto muito bem escrito sobre os limites desse nosso crescimento desrespeitoso com o Mundo.

De Marcus Eduardo de Olievira

Numa determinada época em que o crescimento econômico parecia ser a única saída para promover o bem-estar dos povos, houve um especialista em economia, versado em matemática e estatística, vindo da Romênia, que ousou desafiar o discurso tradicional e discorreu palavras fortes em sentido contrário a uma lógica que parecia, até então, irretocável.

Esse especialista, em seu tempo, disse, dentre outras coisas, que “os níveis de crescimento da economia não mais poderiam prosseguir sem que as gerações futuras pagassem o ônus da irresponsabilidade”.

Era fundamental, todavia, que todos entendessem que o desenvolvimento humano dependeria da retração da atividade econômica, ou seja, de certo encolhimento, e não de uma expansão sem freios e a qualquer preço do produto.

Esse especialista entendeu, contudo, antes de muitos outros, que a civilização em busca do progresso a qualquer monta carregava, em si, um caráter destruidor. E percebeu mais. Discorreu que energia (um dos fatores de produção que não era mencionado nos termos técnicos das ciências econômicas), economia, entropia e ecologia eram termos e conceitos que não podiam ser discutidos (e ensinados) em separado, como até então se praticava.

O futuro da economia e a economia do futuro para esse especialista não estava condicionado, portanto, a taxas altas de crescimento do produto, mas, sim, em sentido contrário: era necessário àquela altura desencadear a retração da atividade econômica (produção e consumo), ou seja, propor, de imediato, o “decrescimento econômico”, pois o progresso, nos moldes em que estava se consolidando, era potencialmente gerador de caos e desordem.

Essa determinada época a que fizemos alusão foram os anos 60 do século XX. Até então, pouco ou quase nada se falava de forma enfática nos ditos “limites do crescimento econômico”, pois pouco se associavam às relações da economia com as da ecologia, embora, tempos antes (1869), Ernst Haeckel (1834-1919) em seu livro “Generelle Morphologie des Organismen” tenha chamado a Economia de “ciência da natureza”.

Todavia, pouco tempo depois dos anos 60, mais precisamente em 1972, dava-se início a primeira conferência em escala internacional para se discutir a atividade econômica e seus impactos sobre o meio ambiente. Estocolmo, capital sueca, recebia então a delegação de 113 países na “Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano” (United Nations Conference on the Human Environment).

Onze anos depois desse primeiro encontro, a Organização das Nações Unidas (ONU) criavam a “Comissão Mundial para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento”. Dessa Comissão surgiria, tempos depois, o relatório, “Nosso Futuro Comum”, também intitulado de “Relatório Brundtland” (Our Common Future – Brundtland Report); uma espécie de “filho legítimo” de outro importante relatório produzido pelo Clube de Roma, em 1972, “The Limits to Growth”, (Os Limites do Crescimento) assinados por Donella Meadows, Dennis Meadows e Jorgen Randers que usando um simulador (world 3) descreviam as interações entre as ações humanas e os impactos ambientais.

Contudo, o ponto principal levantado pelos estudiosos que assinaram esses documentos, em especial, o Relatório Brundtland, afirmavam que:

A economia global deve atender às necessidades e desejos legítimos das pessoas, mas o crescimento tem que se adequar aos limites ecológicos do planeta.

Em especial essa Comissão, batizada como vimos de Comissão Brundtland devido à sua presidente, Gro Bruntland, médica e primeira-ministra da Noruega, pediu “uma nova era de desenvolvimento econômico ambientalmente saudável”.

O Relatório citado ainda atestava que:

A Humanidade tem a capacidade de tornar o desenvolvimento sustentável – de assegurar que ele atenda às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades.

A partir desses encontros internacionais, ainda que timidamente, a comunidade acadêmica começava a ensaiar suas observações consistentes sobre a relação economia e meio ambiente.

Todavia, foi a partir de determinado momento, mais precisamente nos anos iniciais da década de 1970, que as Leis da Economia e as Leis da Física, em especial, as Leis da Termodinâmica tiveram, entre si, uma relação mais próxima a partir do trabalho pioneiro (1) daquele especialista em economia que começamos a fazer menção no início do texto.

Isso se deu por conta, exclusivamente, da inter-relação existente entre a economia e a preservação do meio-ambiente, envolvendo as variáveis econômicas e os conceitos básicos que decorrem desses campos de análise (Economia), com ênfase específica na entropia (Física) (2). Não à toa, os manuais de Economia atestam que a Ciência Econômica é um corpo de conhecimento bem articulado, assim como a Física.

Conquanto, dessa simbiose, aparentemente complexa, podemos exaltar dois nomes que, tanto no campo da Física quanto na Economia ainda deverão, com a justiça implacável do tempo, terem loas tecidas acerca de suas contribuições para esses campos de conhecimento, num futuro próximo.

O alemão Rudolf Clausius (1822-88), pelo lado da Física, e o romeno Nicholas Georgescu-Rogen (1906-94), pelo lado da Economia, são esses personagens “esquecidos” num canto qualquer da história do pensamento.

N. Georgescu-Rogen é o nosso “personagem” aqui referido deste o início do artigo. Dele, Paul Samuelson, prêmio Nobel em Economia, chegou a dizer ser “o professor dos professores e o economista dos economistas”.

As Duas Primeiras Leis da Termodinâmica e a origem do termo Entropia

Destarte, foi somente a partir dos anos 1970, como já afirmamos, que as leis da termodinâmica passaram a exercer influência no campo de análise de alguns economistas, embora, ainda nos dias de hoje, quarenta anos depois, pelos Manuais ditos tradicionais de Economia, o nome do economista romeno Georgescu-Rogen é, absurdamente, “ocultado” no ensino universitário em Economia.

Estranhamente, Georgescu-Rogen, um dos mais brilhantes economistas do século XX, foi (e tem sido) simplesmente deixado de lado nos debates que envolvem a questão crucial do crescimento econômico e, muitos são os apedeutas de plantão (apesar de revestidos de tom professoral), nos dias hodiernos, que continuam ensinando a Economia como se fosse apenas e tão somente um sistema totalmente “desacoplado” do meio ambiente.

O sistema econômico, é importante pontuar isso, é apenas um subsistema de um sistema maior, chamado meio ambiente. A economia (enquanto atividade produtiva) deve estar submetida a um sistema maior chamado ambiente, e não o contrário.

Quanto ao termo Entropia, cabe apontar que originalmente “entropia” (troca interior) surgiu como uma palavra cunhada do grego de “em” (en – em, sobre, perto de…) e “sqopg” (tropêe – mudança, o voltar-se, alternativa, troca, evolução…).

Pela entropia, no entanto, é permitido avaliar-se a degradação da energia de um sistema. Com isso, mede-se o grau de desordem de um sistema. Tudo isso está envolto em uma única questão: a produção. Esta envolve, entre outros fatores, a energia. Assim, um postulado a ser considerado, a partir desses dados, é que o uso da energia é um dos fatores (não o único) determinante da atividade econômica.

Para caracterizar, de fato, a entropia, é recomendável recorrer ao físico italiano Enrico Fermi (1901-54), um dos pais da bomba atômica. Em seu Thermodynamics, ele define a primeira lei da termodinâmica:

A primeira lei da termodinâmica é essencialmente a afirmação do princípio de conservação da energia para sistemas termodinâmicos. Como tal, pode ser expressa do seguinte modo: ‘A variação de energia num sistema durante qualquer transformação é igual à quantidade de energia que o sistema troca com o ambiente’. Esta primeira lei não coloca limitações sobre as possibilidades de transformação de energia de uma forma para outra. (3)

Ora, essa possibilidade ilimitada de transformação é à base de toda a civilização do progresso. Já a segunda lei da termodinâmica impõe severas limitações: “É ímpossível uma transformação cujo resultado final seja transformar em trabalho todo o calor extraído de uma fonte” (postulado de Kelvin).

Voltando um pouco nossa análise para o campo da Economia, é mister afirmar que infelizmente, em muitos casos, em que pese consideráveis eventos e alertas evocados em todos os cantos, ainda parece prevalecer dentro do ensino das ciências econômicas, o paradigma que insiste em orientar tal campo do conhecimento baseando-a, como pressuposto de análise geral, apenas sobre a visão do diagrama de fluxo circular, envolvendo empresas e famílias, de um lado, e os mercados de bens e serviços e de fatores de produção, de outro.

Sobre esse assunto específico, dessa visão estreita da economia sobre um fluxo circular “fechado” que não permite outros “inputs e outputs”, é importante resgatar aqui os comentários de Andrei Cechin quando afirma que:

O diagrama do fluxo circular apresenta uma visão irreal de qualquer economia, por considerá-la como um sistema isolado no qual nada entra e nada sai, uma vez que nessa concepção nada existe no exterior dele mesmo. A visão que comumente se tem da economia é a de que ela é uma totalidade. O diagrama é estritamente uma representação da circulação do dinheiro na economia e dos bens em sentido reverso, sempre dentro dele mesmo, sem absorver materiais e sem ejetar resíduos.

Se a economia não gera resíduos e não requer novas entradas de matéria e energia, então se trata de uma máquina de moto-perpétuo, ou seja, uma máquina capaz de produzir trabalho ininterruptamente, consumindo a mesma energia e valendo-se dos mesmos materiais. Tal máquina seria um reciclador perfeito. Todavia, isso contradiz umas das principais leis da Física: a segunda lei da termodinâmica, a lei da entropia. (CECHIN, op. cit. p. 40-41)

Em relação à Termodinâmica, Clausius, é, pois, considerado um dos fundadores dessa corrente de pensamento. Mas, de fato, o que consiste essa lei? Formulando-a da seguinte maneira as suas duas primeiras leis termodinâmicas, e dito agora de outra forma, Clausius enunciou que:

(1° Lei) – “A energia do Universo é constante”;

(2° Lei) – “No Universo, a entropia se move continuamente no sentido de um máximo”.

Pela primeira lei da termodinâmica, as quantidades totais de energia e de matéria do universo são constantes; nem a matéria, nem a energia podem ser criadas ou destruídas.

A segunda lei – a lei da entropia -, é essencial para ir além da mecânica, nos diz Charles Muller (4).

A importância do conhecimento: a base da economia do futuro

Além dessa importante questão em torno dos recursos naturais e de sua desejável relação confortável com o meio ambiente, entendida sob os conceitos emprestados da Física (entropia e termodinâmica) outro assunto que começa a ganhar notoriedade diz respeito a uma nova maneira de encarar a economia.

Se não bastasse atentar aos fatos que envolvem a ecologia respaldado num padrão aceitável de produção que não agrida a natureza, essa “nova economia” que vem sendo “desenhada”, desde suas linhas mestras vindas das contribuições da escola neoclássica (valorização da ação humana e desenvolvimento do capital humano, pela teoria do crescimento endógeno) apontando para a questão do “saber, fazer” (no sentido de competência e procedimento técnico); ou seja, o fator chamado “conhecimento”.

Isso, na essência, é reprodutível, praticamente a custo-zero, em quantidades ilimitadas. Esse “saber” é transmitido indefinidamente, não sendo, pois, uma exclusividade privada.

Sem dúvida, tal fato tem sido um poderoso ingrediente dessa economia imaterial, cujos bons e ilustrativos exemplos são a indústria cultural, a publicidade (em todas suas dimensões incluindo design e inovação mercadológica), o marketing e a informática.

A esse critério é forçoso ressaltar que, de certa forma, por não ser passível de mensuração, essa “nova economia” põe por terra os conceitos fundamentais da antiga economia política: o trabalho, o valor e o capital, todos mensuráveis, sendo que compunham, de sua parte, o cabedal analítico e quantitativo da economia.

Ainda sobre essas novas mudanças na economia, Alvin Toffler, um dos mais respeitados pensadores modernos, afirma que está acontecendo uma verdadeira revolução – a mais profunda desde a Revolução Industrial, em termos de pensamento econômico.

Cada vez mais, diz Toffler “a riqueza está baseada no conhecimento, não nos fatores clássicos de terra, trabalho ou capital” (fatores de produção) como sempre quis a tradicional Teoria Econômica.

Indiscutivelmente, nos dias que correm, o “saber” pode ser considerado como a principal força produtiva.

A economia do futuro e o futuro da economia, é importante frisar, nos dizeres de Toffler passa, então, pelo conhecimento (saber, fazer) como sendo a principal forma de capital. Isso guarda, em nossa visão, estreita relação com o fundamento de base da economia: a qualidade, e não a quantidade.

Embora a economia tenha se soerguido sobre os critérios quantificáveis, isso não mais passa a ter presença criteriosa em termos de avaliar-se o desenvolvimento de um local.

Quantidade, é mister ressaltar esse ponto, se relaciona apenas com crescimento (fazer o produto crescer), ao passo que o desenvolvimento envolve, pois, a qualidade, incluindo, é claro, atingir bem-estar. Assim nos parece que a economia tem sempre mais necessidade de parâmetros qualitativos que quantitativos.

Essa é a mesma linha de análise desenvolvida pela chamada Economia Cognitiva (a economia imaterial), ou o “capital cognitivo” que tem em Thierry Gaudin e no teórico social André Gorz seus principais defensores.

Esses fatos, por si só, derrubam o alicerce dos pressupostos tradicionais acerca do capital e abre um rombo na própria definição de economia como “a ciência da alocação de recursos escassos”.

Nesse aspecto, a base da economia deixa de ser material (fatores produtivos pré-conhecidos) e passa a estar, sobretudo, no ser humano (com ele), pois se solidifica no imaterial (no conhecimento, difícil, por sinal, de ser mensurado).

André Gorz, por sua vez, acrescenta que “em uma verdadeira economia cognitiva, o padrão econômico deveria estar a serviço da cultura e da realização de si e não o contrário, como ocorre hoje”.

Ademais, esse teórico francês lembra ainda que tal critério é encontrado na obra de Marx, quando o filósofo alemão escreve que a verdadeira riqueza é “o desenvolvimento de todas as energias humanas enquanto tais, não mensuradas por um parâmetro constituído a priori”.

Talvez, por esses aspectos, a Economia esteja reiniciando, ainda que tardiamente, um novo capítulo, passando a não ser mais encarada (e ensinada) apenas pela ótica da “Lei da Escassez” e do fato de que tudo é possível em termos de expansão produtiva, desrespeitando-se, assim, a existência de qualquer limite.

Nesse pormenor, inscreve-se a Lei da Entropia e a visão de que o conhecimento (know-how) são elementos fundamentais e passam a serem vistos como ferramentas indispensáveis à boa conduta econômica.

Com esse sentido, o conhecimento supera, de longe, a idéia básica da “lei da Escassez” que predominou até então nas ciências econômicas, até porque, em se tratando de “saber-conhecer” não há espaço para qualquer limite (escassez). Ao contrário: o conhecimento passa a ser uma ferramenta potencialmente capaz de se reproduzir até com certa facilidade, em tempo integral e, como dissemos, a baixíssimo custo.

Logo, se uma nova economia está em ebulição ela tende a ser, no mínimo, revolucionária, pois supera uma fase estabelecida e se imiscui com força na elaboração de um novo paradigma.

Conquanto, que essa revolução não perca, em momento algum, a essência de ser desse campo do conhecimento chamado Ciência Econômica, qual seja: a idéia de que a economia tem a ver com a busca pela felicidade. O objetivo dessa ciência, antes de qualquer outro, é promover a felicidade das pessoas. Que assim seja.

Notas:

Referência a The Entropy Law and the Economic Process (Cambridge: Harvard University Press, 1971) de N. Georgescu-Rogen.
(2) Entropia é o conceito utilizado pelos cientistas para explicar, por exemplo, por que os cubos de gelo derretem numa calçada quente. A lei de conservação da energia, correspondente à primeira lei da termodinâmica, não explica tal fenômeno. (CECHIN, Andrei. “A Natureza como Limite da Economia – A Contribuição de Nicholas Georgescu-Rogen”. Editora SENAC/EDUSP, S. Paulo, 2010).

(3) Entrevista de Mario Bruno Sproviero, professor titular DLO-FFLCH-USP. Entrevista e edição feitas por Jean Lauand, em 10.07.2001.

(4) “Economia, Entropia e Sustentabilidade: Abordagem e Visões de Futuro da Economia de Sobrevivência”, de Charles Muller, professor titular de Economia da UnB – Universidade de Brasília. Est. Econ. São Paulo, Out-Dez de 1999.

O que deveria e o que é de fato

junho 6, 2010

Encontrei um texto de Marcus Eduardo de Oliveira, Economista e professor do UNIFIEO, da FAC-FITO e da Faculdade de Vinhedo, que trata sobre a economia, desenvolvimento social e felicidade. Ele pergunta ” se a economia, por ser uma ciência social – uma ciência que na visão de muitos lida o tempo todo com o “estudo do dinheiro” – têm algo a ver com esse papo de se obter ou não felicidade, de ser ou de apenas estar feliz? “

A resposta foi essa:

Felicidade envolve, na essência, pensar antes nas pessoas. Em se tratando de pessoas, isso envolve, por conseqüência, visualizar a condição humana e, a condição humana, por sua vez, envolve e contempla determinados aspectos que são inerentes à ciência econômica. Simples, não! Economia então, por esse prisma, tem tudo – e mais um pouco – a ver com a vida das pessoas, até mesmo porque essa ciência é social e, por ser social, necessita ser humana à medida que é feita pelos homens e para os homens, com uma única tentativa: efetivar a dignidade das pessoas.

Segundo o ponto de vista do autor, os problemas sociais, que podem ser associados às imperfeições do sistema econômico, têm soluções nos caminhos onde a economia transita. Para tanto, a economia precisa atentar-se para o bem-estar humano.

Seguindo com a sua argumentação, ele termina o texto com o seguinte parágrafo:

Com o instrumental analítico de que dispõe a Economia, é possível criar-se suficientes e adequadas condições de esforçarmo-nos para viver de modo a promover o progresso da raça humana. Com isso, espera-se que as forças econômicas cooperem para com as necessidades sociais. Alcançando isso, certamente todos ganharemos!

Ao terminar de ler o texto, algumas idéias e perguntas passaram por esses meus neurônios inquietos. O texto foi um grande estímulo para falar sobre uma visão ampliada e diferente que temos que ter.

Para um economista, dizer que a Economia é a salvadora da pátria, é default. Ele fala sobre colaboração, desenvolvimento social e tudo mais. Acredito nisso também. Porém a visão da economia ainda está baseada em algumas premissas que devem ser revistas:

  1. O conceito do homo-economus: a redução do homem a apenas duas funções: consumir e produzir. Você só faz isso?
  2. Ainda não há clara a inserção da natureza como necessária ao bem estar social. Enquanto ela for vista como apenas um almoxarifado de recursos, não iremos progredir;
  3. A idéia de que crescer sempre é bom! Por que temos que sempre crescer? Há apenas 1 planeta!!!
  4. A função da empresa é gerar lucro. As empresas sociais estão aí para mostrar o contrário.

Essas são algumas idéias dogmas da economia. Se mudarmos elas, o resultado será a Economia? Acho que será outra coisa.

A questão que fica é essa: Quem quer reescrever as teorias econômicas, não sabem como fazer, e as pessoas que podem, não querem. E ai?

Provoco os leitores.

Saudações,

DC

Pense em algo impossível

maio 30, 2010

Seja bem vindo!

No post mosaico de domingo vamos falar sobre imaginação e inovação. Para começar, uma frase de Albert Einstein:

Imaginação é mais importante do que o conhecimento.

Qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha? Essa e tantas outras perguntas estão no roteiro do filme Alice no País das Maravilhas, um clássico da literatura. Segundo o Wikipédia, é a obra mais conhecida do professor de matemática inglês Charles Lutwidge Dodgson, sob o pseudónimo de Lewis Carroll, que a publicou a 4 de julho de 1865, e uma das mais célebres do gênero literário nonsense ou do surrealismo, sendo considerada a obra clássica da literatura inglesa. O livro conta a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo característica dos sonhos. Este está repleto de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Carrol, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas frequentemente através de enigmas que contribuíram para a sua popularidade.

O filme, ao meu ver, é uma casca para as perguntas filosóficas e conceitos matemáticos que norteiam as aventuras da pequena Alice. Contando com a ajuda da Wikipedia,mais uma vez:

Uma vez que Lewis Carroll era professor de matemática na Igreja de Cristo, é sugerida a existência de muitas referências e de conceitos matemáticos, tanto nesta obra, como na Alice no Outro Lado do Espelho. Alguns exemplos:

  • No Buraco do Coelho, durante o processo de encolhimento da altura, Alice faz considerações filosófica acerca do tamanho final com que ficará, com receio de talvez acabar por desaparecer completamente, como uma vela. Esta observação reflete o conceito do limite de uma função;
  • No Lago das Lágrimas, Alice tenta fazer multiplicações, mas acaba por produzir uns resultados estranhos: “Deixa-me cá ver: quatro vezes cinco são doze, e quatro vezes seis são treze, e quatro vezes sete são… Oh, meu Deus!Por este andar nunca mais chego aos vinte!. É assim exposto a representação de números utilizando bases diferentes e sistemas numerais posicionais (4 x 5 = 12 na base 18 notação; 4 x 6 = 13 na base 21 notação; 7 x 4 poderiam ser 14 na base 24 notação, seguindo a sequência);
  • EmConselhos de Uma Lagarta, o Pombo afirma que as meninas são uma espécie de serpentes, pois ambos seres comem ovos. Esta observação é um conceito geral de abstração que ocorre frequentemente em diversos âmbitos da ciência; um exemplo da utilização deste raciocínio na matemática é a substituição de variáveis.
  • No Chá dos Loucos, a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco e o Arganaz dão vários exemplos em que o valor semântico de uma frase X não é o mesmo que o valor do inverso de X (por exemplo, Não é nada a mesma coisa!(…)Ora, nesse caso também podias dizer que “Vejo o que como” é a mesma coisa que “Como o que vejo”!); No ramo da lógica e da matemática este conceito é uma relação inversa.
  • Alice pondera o significado da situação quando o grupo faz a rotação dos lugares ao redor da mesa circular, colocando-os de volta ao início. Esta é uma representação da adição de um anel do módulo inteiro de N.
  • O Gato de Cheshire desvanece , deixando apenas o seu sorriso largo, suspenso no ar, levando a Alice maravilha a notar que já viu um gato sem um sorriso, mas nunca um sorriso sem um gato. É feita aqui uma profunda abstração de vários conceitos matemáticos (geometria não-Euclidiana, álgebra abstrata, o início da lógica matemática, etc), delineando, através da relação entre o gato e o próprio sorriso, o próprio conceito de matemática e o número em si. Por exemplo, no lugar de considerar duas ou três maçãs, considera-se antes os conceito de dois e de três por si só, separados do conceito de maçã, como o sorriso que, aparentemente pertence ao gato original, é separado conceitualmente do resto do corpo físico.

Quero destacar aqui também as inquietações de ordem filosófica que aparecem no filme:

  • Quem é você? É a pergunta que a lagarta azul faz a Alice, querendo saber se ela é a Alice certa;
  • A constante dialética entre sonho e realidade, que é pano de fundo do filme todo;
  • Qual caminho tomar,se não sabes onde ir?

Ver o filme e não se sentir provocado por essas perguntas, é entretenimento barato. Não agrega nada.

Aliás, uma das coisas que vi no filme e vou tentar colocar em minha vida é pensar em 6 coisas impossíveis antes do café-da-manhã (se o sono permitir, é claro!). O primeiro passo para uma coisa deixar de ser impossível é você acreditar que ela é possível. Se não acreditasse que escrever um blog poderia mudar para melhor o mundo, não o faria. Eu achei maravilhoso ter isso como hábito. Ele nos faz pensar no novo sempre.

Falei do filme para chegar a esse ponto. Você está preparado para o novo? Ainda mais um novo que poderia ser impossível a pouco tempo atrás? É imperativo deter uma capacidade de adaptação rápida. Na hora em que se pede para desligar os celulares, eles incluem BIPs e PAGERs. Uma pergunta: Ainda há BIPs e PAGERs? É incrível como uma invenção recente teve sua vida tão curta como o serviço de mensagem. O SMS acabou com empresas de mensagem numa tacada só. Já ouvi várias vezes: Se não me encontrar,me dá uma BIPADA.

Hoje, a inovação é um traço da vida moderna. Na semana passada, aconteceu a 4ª Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento sustentável. A conferência mostrou alguns dados interessantes:

  • Precisamos formar muito mais doutores para conseguir sustentar nosso crescimento;
  • Hoje formamos um percentual ridículo de engenheiros, se comparados a uma Coréia do Sul, Japão, China;
  • As empresas investem pouco em pesquisa e desenvolvimento;

Como queremos ser um país inovativo, se a matemática é vista como um monstro? É melhor exportar milhões de toneladas de alimentos ou alguns quilos de chips? Olha quantas perguntas são criadas quando pensamos sobre o assunto.

É importante você, leitor, ficar conhecendo o que seu país pensa sobre Ciência & Tecnologia. Onde ele quer chegar. Acesse o site, faça o download dos arquivos, leia, PENSE a respeito.

Para terminar, uma frase de William Shakespeare:

O louco, o amoroso e o poeta estão recheados de imaginação.

Faça algo pelo mundo hoje: pense em algo impossível.

Abraços,

DC


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